“O MinC PRECISA NOS OUVIR, NÃO PODE PASSAR POR CIMA”

“O MinC PRECISA NOS OUVIR, NÃO PODE PASSAR POR CIMA”

Sonia Racy

17 de setembro de 2012 | 10h38

TV GLOBO / João Miguel Júnior

Protagonista de musical e vilã na próxima novela das oito, Claudia Raia reivindica limitação da meia-entrada 

Teatro ou TV? Do alto – literalmente – de três décadas de carreira, Claudia Raia não elege preferências ao falar do seu trabalho. A fase comprova: divide o tempo entre as gravações, no Rio, de Salve Jorge– trama de Gloria Perezque estreia em outubro na TV Globo – e o musical Cabaret– em nova temporada no Procópio Ferreira, em São Paulo.Na telinha, viverá a sucessora de Carminha, personagem de Adriana Esteves emAvenida Brasil. Mas não quer saber de disputar espaço: “Não tem essa coisa de comparação. O trabalho dela é espetacular. E minha personagem é um demônio em pessoa”. Aos 45 anos e em plena forma, encarnará uma fria traficante de mulheres.

João Emanuel Carneiro também é alvo de elogios da atriz, acostumada ao ritmo frenético da TV. “Discordo dessa coisa de falar que na televisão não dá para fazer um trabalho elaborado”. Mas é de forma maternal que fala de Cabaret. “É um filho esperadíssimo”, derrete-se. Pudera. Adaptação do clássico da Broadway escrito por Joe Masteroff em 1966 e imortalizado por Liza Minneli em 1972, na telona, o espetáculo já foi visto por 170 mil pessoas. Sucesso atípico. “Se estivesse contando só com a bilheteria, não estaria em cartaz”, desabafa – ela também faz a produção da peça.

Mãe de Enzo e Sophia, do casamento com Edson Celulari, Claudia Raia tem energia de sobra e não economiza no bom humor. Mas também não tem meias palavras. Reivindica a limitação da meia-entrada no teatro – pleito que pretende levar à nova ministra da Cultura, Marta Suplicy. “Teria que ter boa vontade do governo”. E sugere que investidores apoiem o setor, como nos Estados Unidos e na Inglaterra.

seguir, os melhores trechos da conversa com a coluna.

O que você mais gosta de fazer, musicais ou novelas?

Não é comparável. Discordo plenamente dessa coisa de falar que na televisão não dá para fazer um trabalho elaborado. Dá para fazer trabalhos lindos, mesmo com essa dinâmica maluca, em que você grava 30 cenas por dia e tem um grau de frustração enorme porque acerta uma, duas cenas. Você não depende só do trabalho do ator. Tem a luz, o corte, a câmera, o teu grau de cansaço. No teatro é o oposto, porém tão cansativo quanto. Você tem que estar absolutamente entregue, tem mil pessoas te vendo e tem que dizer a elas: “Venham para o meu mundo e sonhem comigo”. E fazer aquelas pessoas se emocionarem, rirem, serem tocadas por essa história. No final, é uma grande celebração. O público não aplaude o ator, ele se aplaude, celebra junto com o ator. É uma grande festa. Em televisão, você tem esse feedback ao sair na rua. Tenho a sorte de fazer as duas coisas ao mesmo tempo. É desgastante. Não tenho um dia de folga. Gravo segunda, terça e quarta e de quinta a domingo estou em cartaz. E de quinta a domingo decoro (risos).

E o que você gosta de fazer no tempo livre – se é que existe?

Eu tento cavar momentos para estar com meus filhos. Isso foi tudo muito conversado antes de aceitar fazer essa novela, embora seja difícil para todos. Mas é um momento profissional. Eles até me incentivaram a não desistir desse momento porque era um papel maravilhoso. A mesma coisa em relação ao Jarbas (Homem de Melo, namorado de Claudia, que contracena com ela em Cabaret), que também me dá toda a força do mundo. Isso dá um conforto. Aos trancos e barrancos você consegue dar conta de tudo.

Como está o ritmo de ensaios?

Cabaret é um filho esperadíssimo durante 20 anos. Sabe aqueles 20 anos em que você tentou engravidar e de repente vem? É um xodó, uma alegria, um amor. Nada pode estar fora do lugar. Eu também produzo e sou muito detalhista. Cuido de tudo, nada pode estar fora do lugar – a qualidade, as coreografias, a parte musical.

Você é perfeccionista?

Completamente, quase doente, Qualquer coisa que estiver fora do lugar os meus olhos veem e os meus ouvidos escutam. É meio infernal. Enquanto estou interpretando, cantando, dançando, estou olhando tudo. Se alguma bailarina entrar com um batom diferente eu pergunto por que mudou. Me meto em tudo. Faço questão que as minhas atrizes estejam lindas e maravilhosas e meus atores, impecáveis. Olho todo mundo da cabeça aos pés, eles têm que estar incríveis. Cuido mesmo, que nem mãe, que nem galinha.

Você estreou nos musicais adolescente. É mais fácil fazer isso hoje no Brasil, dá dinheiro?

Hoje, há um mercado de trabalho mais favorável, com um elenco preparado, técnicos e músicos especializados, o que não vislumbrávamos ter há alguns anos. Mas ainda é muito caro e muito difícil ter um elenco como o de Cabaret – são 80 pessoas. No passado, você parava as pessoas na rua e perguntava: “Pelo amor de Deus, você canta Parabéns a você? Então entra aqui no elenco”. Não tinha quem cantasse e dançasse – ou a pessoa cantava ou dançava. Hoje, há sete, oito musicais ao mesmo tempo da maior qualidade. Isso dá um orgulho danado. Dá para viver disso, mas a produção é o nicho mais comprometido. A folha de pagamento é uma coisa irreal. Imagina manter 80 pessoas e tudo o mais e uma bilheteria em que às vezes 80 por cento é meia-entrada. Só que a gente não tem meia luz, nem meio som, nem meio salário. A meia- entrada é ótima, só que eu acho que deveria ter – e, como produtora, faço uma reivindicação – até 20 por cento da casa para idosos e estudantes e não ser liberado. Sua receita vai lá para baixo e você não se paga, é uma verdadeira loucura.

Essa é uma questão delicada. É uma reivindicação de toda a classe produtora?

Claro. Teria que ter um pouco de boa vontade do governo. É preciso olhar o lado do público e também o dos produtores, que viabilizam esses projetos. Não é possível manter uma coisa dessas.

O Ministério da Cultura acabou de trocar de comando. Como levar esse pleito ao governo?

Eu não perco a esperança, acho que dá para conversar sempre, tem que ter diálogo sempre. O MinC tem que ouvir a classe teatral, os atores, os produtores. Não tem como passar por cima, nós é que estamos ali no dia-a-dia. A realidade do Cabaret, que completa um ano em cartaz, é atípica. Eu tive ajuda dos patrocinadores. Se estivesse contando só com a bilheteria – embora seja um sucesso estrondoso – não estaria em cartaz. Os musicais ficam quatro, cinco meses em cartaz porque não se pagam. É frustrante.

O que mais é preciso fazer?

Ter o que os americanos e os londrinos têm: os investidores. Eles investem em entertainment como na bolsa. Começaria a ter uma luz no fim do túnel.

Você buscou diálogo com a Ana de Hollanda? Pretende buscar com a Marta Suplicy?

Em várias reuniões, os produtores teatrais reivindicam isso há tempos. Vamos ver agora se a gente consegue fazer um novo movimento e chegar até a Marta, explicando para ela o que é. Ou pelo menos limitar o porcentual de meia entrada em determinados espetáculos. Quanto maior o espetáculo, maior é a folha. E não dá para colocar o preço do ingresso aqui como nos Estados Unidos. Lá, um espetáculo como Cabaret custa US$ 150. Aqui, não dá para cobrar R$ 130. Pagar R$ 180, R$ 200 já é caro para o Brasil. E não é sacanagem cobrar isso – você não sobrevive.

Muitas produções importam profissionais para montar musicais aqui. Fez isso em Cabaret?

Não. A única pessoa que eu tenho “importada” na equipe, mas que mora há 22 anos fora do Brasil é o nosso coreógrafo, Alonso Barros. Ele é o único metade estrangeiro, metade brasileiro. Costumo dizer que Cabaret é o Shakespeare dos musicais, um clássico. Por isso, você pode fazer de uma obra dessas o que quiser. Eu vi seis montagens no mundo inteiro e nenhuma delas tem a ver com a nossa. Fizemos o nosso Cabaret, uma montagem totalmente à la José Possi Neto (diretor da peça). Fizemos a verdadeira Sally Bowles (protagonista do musical, interpretada por Claudia): uma mulher tripolar – mais do que bipolar – , alcoólatra, viciada em gim, prostituta de quinta categoria, soturna, de caráter duvidoso. Essa é uma montagem densa, tragicômica, com uma dramaturgia espetacular.

Você interpretará uma vilã na próxima novela da TV Globo, em uma época que elas estão em alta. Está preparada para superar a Carminha?

Não tem essa coisa de superação. O trabalho da Adriana Esteves é espetacular, sou louca pelo João (Emanuel Carneiro, autor de Avenida Brasil), fiz A Favorita. Para quem vem depois é uma maravilha ter o horário tão bem sucedido. A nossa novela é diferente. A minha personagem é um demônio em pessoa, trafica mulheres para serem escravizadas sexualmente. Ela é uma business woman, riquíssima, que ganha US$ 32 bilhões por ano. E nasceu fria, má. Eu gosto de fazer vilã, ela é a dona da ação. Mas também gosto de fazer mocinha, não me incomodo. Tem que ser um bom papel, com conflito, em que você possa ser instigada por algo diferente. Esse personagem para mim é uma delícia, algo que nunca fiz. É uma mulher linda, fascinante, que frequenta as festas da sociedade carioca. E é da pior espécie.

É sua primeira novela escrita pela Gloria Perez?

Estamos estreando, eu e ela. Eu já chorei muito antes, ao fazer os workshops e ouvir as mulheres que foram vítimas do tráfico e sobreviveram e também as mães de mulheres que não conseguiram sobreviver. Fiquei muito tocada, sofri muito, mas desenvolvi um raciocínio que é o da personagem. Não posso criticar, tenho que fazer – e fazer o meu melhor para que sirva de alerta. A Gloria vem com o pé no peito. Esse é um assunto desconhecido, mas existe uma máfia no mundo inteiro, que tem relação com o governo, com o alto escalão. É uma coisa muito doida – muito dinheiro, muita blindagem em volta desse assunto. A novela é muito forte.

O que você faz para conseguir ter toda essa energia?

Tenho uma nutricionista incrível, a Alessandra Luglio, que fez a minha dieta para Cabaret. Eu queria estar bem magra, pois essa é a estética do espetáculo e também dos anos 30. Me alimento de três em três horas e não posso parar de treinar. Sempre malhei – a vida inteira – três vezes por semana com o Tonhão. Ele é meu treinador há 15 anos. E faço balé duas ou três vezes por semana aqui no Rio e antes de entrar em cena.

Afinal de contas, quantas horas tem o seu dia?

Deveria ter três horas a mais. É uma loucura, mas dá certo (risos).

Você fez a primeira novela das oito do João Emanuel Carneiro, em que ele já brincava de bem contra o mal, como agora. O que acha dele?

Ninguém é totalmente bom ou mau, o ser humano é complexo, capaz de fazer qualquer coisa, dependendo da situação. Muitas vezes, você mora com alguém há anos e descobre que estava dormindo com o inimigo. O João é verborrágico, é um autor de ator, que joga na sua mão aquele texto maravilhoso, essa é a linguagem dele. Temos outros autores excepcionais na teledramaturgia, como Silvio de Abreu, Gilberto Braga, Gloria Perez – cada um com seu estilo e com sua linguagem. O João é ousado, ele não tem medo do público e o manipula, conta a história do jeito que acha que tem que ser e causa um certo desconforto. É incrível – o público está desconfortável, mas está ali. Ele traz frescor. Bem-vindo, João Emanuel.

Olhando para trás, falta algo para completar sua carreira?

Muita coisa, tenho muitos espetáculos que ainda quero fazer. Mas só tenho a agradecer. Fui coroada com experiências espetaculares, sucesso, sorte, encontros inesquecíveis com autores, diretores e com o público. Não é fácil viver dessa carreira durante 30 anos. Agradeço por ter saúde para conseguir chegar até aqui. E agradeço à babá dos meus filhos, que está comigo há 15 anos. Se não fosse ela, não teria trabalhado metade do que eu trabalhei…

Acha que seus filhos seguirão o caminho dos pais?

O Enzo é músico, toca cinco instrumentos, compõe, quer fazer faculdade de música. A Sophia parece que vai ter uma profissão em que se exiba, isso é certo. Mas acho que é cedo para falar./ MIRELLA D’ELIA

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