‘O jovem da periferia está se sentindo irrelevante’, diz pedagoga

‘O jovem da periferia está se sentindo irrelevante’, diz pedagoga

Sonia Racy

03 Setembro 2018 | 01h00

DAGMAR RIVIERI GARROUX, A TIA DAG.

DAGMAR RIVIERI GARROUX, A TIA DAG. FOTO: MICHAEL DOUGLAS SANTOS DE JESUS

Fundadora de ONG premiada alerta para consequências da queda nos gastos sociais

A pedagoga de classe média Dagmar Rivieri Garroux ganhou o carinhoso apelido de Tia Dag das crianças que frequentam a Casa do Zezinho, ONG que ela criou em 1994 para atender à população de uma das áreas mais violentas de São Paulo – os bairros de Santo Antônio, Capão Redondo e Jardim Ângela. Ali, crianças, pais e até avós têm acesso a aulas de informática, línguas, música e esportes, além de atividades educacionais e profissionalizantes.

O trabalho de Tia Dag já foi reconhecido com dezenas de prêmios – a Rede Globo e o governo do Estado estão entre os que a laurearam – e depende de parcerias com empresas como Pfizer e Nissan. Por isso, é significativo que a pedagoga se queixe de redução nas parcerias que viabilizam sua ação social.

“Cada vez mais eu sinto que o jovem da periferia está se sentindo muito irrelevante. E isso é muito perigoso”, alertou em entrevista à repórter Paula Reverbel. A seguir, os principais trechos da entrevista.

É verdade que você dissuadiu uma criança de se prostituir falando sobre Brasília?
Eu sou a antipedagoga, né? Essa menina tinha 10 anos e estava se prostituindo. Fui perguntar: “Você tá fazendo programa?” “Tô.” “Quanto você ganha?” “Dez real.” Ela olhou pra minha cara e perguntou “Tia Dag, você nunca pensou em ser puta?” Outra pessoa poderia ter uma reação diferente, moral. Eu falei: “Olha, nunca pensei em ser – mas se eu fosse, ia ser puta em Brasília”. Ela perguntou por quê. “Ah, a conversa é outra, R$ 3.000 por mês entrando, um apartamento enorme. Mas tem que ter um corpo sarado, falar duas línguas, saber conversar. De repente aparece um conde italiano que te leva para fora. Se quiser ser ir pra Brasília, me procura. Aqui no Santo Antônio eu vejo você morta em dois anos.” Depois de três dias, ela me procurou porque queria ser puta em Brasília. O problema dela era a grana, os R$ 10. Conseguimos uma pessoa que começou a dar o dinheiro para que ela pudesse parar o que estava fazendo e estudar. Hoje ela é dentista.

Você lida todos os dias com crianças que querem deixar de estudar para trabalhar?
Sim. Muitos querem abandonar (o ensino) pra poder trabalhar na perua e ganhar algum dinheiro. Mas, com a nossa pedagogia, a gente consegue que eles produzam. Um curso de gastronomia vai ter ciências, geografia, história, matemática, português – tudo num lugar só. Se eles aprendem lá a fazer um brigadeiro, logo está todo mundo vendendo brigadeiro na Casa de Zezinho. Não vai ser brigadeiro? Então ele vai pra oficina de foto. “Pô, Tia Dag, agora eu tô fotografando casamento.” Entendeu? Viram empreendedores. Se você tem que viver com R$ 300, sem roubar, você é um grande empreendedor, não acha? Eles vão sendo aconselhados na questão financeira.

Como fazem para o aluno não ir embora?
A escola hoje precisa derrubar as paredes (entre disciplinas). Se não, o professor fica com aquela aula que ninguém aguenta. Para não ter esse imediatismo (de querer deixar a escola), eles precisam (começar a trabalhar ou empreender) rapidamente. O menino fica na Casa de Zezinho no mínimo dez anos. A educação sempre é de médio e longo prazo, não há milagre.

Como a redução de investimentos sociais afeta o terceiro setor?
A gente vem passando uma série de dificuldades. É interessante como vem caindo a ajuda no setor privado. No setor público você sempre consegue captação, mas isso vem se complicando desde 2016. Juntou com a crise, e o próprio governo deixou de fazer muitos investimentos sociais. Eu vi 100 ONGs lá no Capão Redondo fecharem. E alguns projetos públicos na área foram fechados. E o que é que acontece? Isso gera consequências pra sociedade.

Que tipo de consequências?
Eu estou falando lá do meu pedaço, mas você imagina as demais periferias como é que estão. Suponha que cada uma (das 100 fechadas) tenha em média 300 crianças e jovens. São 3.000 na rua. Fazendo o que, né? Vão para onde tem dinheiro. Há dez anos eu estava superfeliz, havia uma presença do Estado na periferia. Hoje não. Isso traz uma consequência – a violência que vem aumentando.

‘DE 2016 PARA CÁ, EU VI 100 ONGS NO CAPÃO REDONDO FECHAREM’

A redução foi muito drástica no setor privado?
Foi. O setor se recolheu, né? Nós da Casa do Zezinho perdemos muitas parcerias. E somos uma ONG reconhecida. Eu mesma, em 2016, tive que tirar (da ONG) 200 crianças, 200 jovens e 200 famílias – um total de 600. É uma escolha de Sofia, né? Quem é que fica? Entre os pobres, quem é o mais pobre? Mas de abril para cá estamos conseguindo retomar algumas daquelas parcerias.

A senhora já disse que a cada R$ 1 investido na área social, há R$ 6 de retorno à sociedade.
Se você investe no social, está investindo no ser humano. Que vai ter criatividade, senso crítico, reflexão, com um senso de empatia, com senso de visão e de expectativa para o mundo. A diferença social é abissal. Eu tenho gente lá vivendo com R$ 300 por mês. Tenta isso. Quer dizer, você está criando o quê? Alguém com muito ódio, com muita raiva. E cada vez mais eu sinto que o jovem da periferia está se sentindo muito irrelevante. E isso é muito perigoso, entendeu?
Alguns candidatos à Presidência falam em eliminar ideologia e doutrinação dos currículos. Como vê essa questão?
Eu vejo com tristeza. Uma escola sem liberdade, como é que é isso? A gente volta para o eu aconteceu em 1964, né? Vamos formar pessoas para o mercado de trabalho – e só pra isso. E não pessoas que pensam, que refletem, que têm carinho, que têm amor. A escola tem que ser livre para educar, ensinar. Os próprios estudantes do colegial não estão de acordo com essas mudanças que estão propostas aí para 2019, 2020. Eles vão fazer mais uma… lembra aquela movimentação, quando eles tomaram as escolas?

O movimento secundarista que ocorreu em 2015?
Isso. Daqui a pouco vai ter outro movimento desses.

Há candidatos que sempre relacionam a PEC do Teto às verbas da educação. Como vê o tema?
Eu acho terrível isso, porque já não tem (dinheiro). Já acontece que não tem. Você vê que as universidades federais e estaduais pararam de pesquisar, pararam de fazer curso de extensão. Por quê? Tem falta do quê? De grana, né? Aí congela, nós vamos fazer o quê? Eu sou totalmente contra isso. Na minha cabeça, vai levar um milênio para igualar as diferenças sociais. Agora, ao contrário, estão achatando cada vez mais as verbas. E para ter o quê? Que ensino é esse? Que qualidade é essa? As pessoas leem um texto e não entendem. As empresas também estão reclamando: a maioria (dos candidatos a emprego), mesmo os vindos da escola particular, não sabe português.

A falta de empatia é um problema que está aumentando ou diminuindo no Brasil?
A falta de empatia está aumentando. Você não quer ouvir o outro, nem conhecer o outro. Nem o Estado – o governo – e nem a sociedade. Tem jeito para mudar, mas só através de uma educação de qualidade, que fale o que o jovem está querendo ouvir, entendeu? Tornar optativas matérias que eles querem fazer – filosofia, arte, sociologia – por quê? Caramba, são justamente essas disciplinas que dão o pensamento crítico, que fazem o aluno pensar. Vamos voltar para o século XIX? Com isso, vamos criar todo mundo para trabalhar em fábrica, para o mercado da era industrial. Criar gente para mercado de trabalho que vai olhar para o colega ao lado como um cara que está querendo pegar a vaga dele.

Especialistas dizem que as gerações mais novas querem receber tudo de bandeja. Como são essas gerações em áreas de vulnerabilidade?
Vamos pensar no que acontece fora da periferia. No mundo todo, os pais não estão mais em casa. Não impõem limite, não ensinam a lidar com frustração. A culpa é desse jovem? Quando uma mãe ou um pai diz ao filho que “eu sou seu amigo”, acabou. Ele se colocou na mesma idade do filho com quem ele está falando. Não, você não é amigo, você é pai. Os pais sentem culpa porque não estão em casa, não estão junto. Eles dão videogame, dão carro, dão isso, dão aquilo. É muito diferente da periferia. O jovem de classe média ou de classe alta não sabe conviver com frustração de jeito nenhum. Porque está sempre sendo suprido. Isso é muito doido. São os pais que têm que ensinar os limites. Na periferia não tem esse imediatismo. O cara vai trabalhar porque não tem dinheiro. Existem algumas empresas americanas que (na hora de contratar) não estão nem perguntando se o cara fez universidade. Estão vendo se a pessoa tem criatividade, iniciativa, empatia. Se sabe conviver com o outro e se sabe conviver com frustração.

Conhecendo a periferia de perto, você é a favor ou contra a descriminalização e regulamentação das drogas?
Eu não posso por enquanto ser a favor de qualquer legalização, nem das drogas lícitas – que também tem aos montes –, em cima do que nós estamos vivendo. Porque o cara vai continuar usando droga da mesma forma. Você pega o álcool, é uma droga legalizada. Os remédios, as anfetaminas, as dopaminas… Tudo legalizado. E o que é que está acontecendo? Nós estamos destruindo uma juventude. Na favela, eles não são os grandes consumidores, eles morrem no meio da violência. O maior índice de morte é na periferia, entre jovens de 14 a 25 anos. Mas por mim eu não legalizo nada. O que tem é que conscientizar, essa é a diferença. (Precisa explicar) para o jovem de classe média que tem cinco mortes no cigarrinho de maconha dele. Quer dizer, cinco pessoas morreram até a maconha chegar nele. Não sou a favor de legalizar nada, sou a favor de educar, de ensinar, conscientizar.