‘O funk é gigantesco e muda vidas’ diz Pocah, que acha que o gênero ainda sofre preconceito

‘O funk é gigantesco e muda vidas’ diz Pocah, que acha que o gênero ainda sofre preconceito

Sonia Racy

24 de maio de 2021 | 00h30

Pocah. Foto: Rodolfo Magalhães

Fenômeno de audiência da Globo por três meses, o Big Brother Brasil 21 trouxe bons frutos para Pocah. A cantora ficou entre os cinco finalistas do programa, escapou relativamente ilesa do implacável tribunal da internet e, segundo ela, está trabalhando mais do que nunca. Transformou a fama de dorminhoca em publicidade – foi procurada por marcas de colchões e roupa de cama – gravou o clipe da música Nem On Nem Off e acumula 14,6 milhões de seguidores em seu Instagram. Mas nem tudo são flores. Assim que pisou fora da casa, a fluminense voltou à terapia – que já fazia antes do programa – e ficou sabendo dos ataques racistas à sua filha, Vitória. “A Vitória só tem 5 anos, é blindada. Mas eu confesso, ainda não tive força suficiente para lidar com isso, sabe? Para uma mãe é muito triste. Eu queria que as pessoas soubessem da irresponsabilidade de uma coisa dessas. Racismo é crime”, diz à repórter Marcela Paes.

Filha de uma ex-empregada doméstica e de um comerciante da cidade de Queimados, na Baixada Fluminense, Pocah (o apelido vem da personagem da Disney Pocahontas) começou a carreira aos 16 anos, em 2012, e ganhou notoriedade com o hit Mulher do Poder. Desde então, usa as próprias experiências para compor seus funks, com letras sobre empoderamento feminino e relacionamentos. “Eu vim muito de baixo, minha família é muito humilde. Com o funk eu pude mudar não só a minha vida, mas a da minha família também”. Leia abaixo a entrevista.

Como está a vida depois da saída do BBB?
Minha vida está uma loucura, muitos trabalhos, mas fico muito feliz trabalhando, fazendo o que eu amo, com todo esse resultado. Esse ano está sendo muito bom pra mim. Já voltei a gravar novas músicas, um clipe e estou fazendo bastante publicidade. Estou colhendo os frutos do Big Brother. Até os memes que fizeram comigo, eu reverti tudo para publicidade.

Surgiram muitos convites?
Sim, de uma forma absurda, inesperada mesmo. Teve essa ligação com as marcas que se identificaram comigo na casa. Essa brincadeira de eu dormir muito…Tem um monte de marca de colchão, de roupa de cama e de tudo que tem a ver com sono que estão me procurando (risos).

Você está fazendo terapia desde que saiu do programa.
Estou. Voltei a fazer porque é primordial para conseguir botar a cabeça no lugar. Acho que lidar com isso sozinha fica meio complicado, é muita informação, mesmo. Eu já fazia terapia antes de entrar no programa e senti muita falta na casa, mesmo tendo acompanhamento psicológico lá dentro. Eu precisava de um intensivão aqui fora para conseguir lidar com tudo isso que está acontecendo.

O que está sendo difícil de lidar desde a saída?
Minha maior dificuldade aqui fora foi saber das coisas que ocorreram enquanto eu estava no programa. Ataques contra mim, coisas com a minha filha. Quando saí eu pude ter uma ideia bem ampliada de quem são meus verdadeiros amigos e quem não é, sabe? Sou muito grata por ter pessoas que torceram por mim. Isso tudo mexeu um pouco comigo, confesso.

Você se afastou por um tempo das redes sociais depois de sair do programa. Por quê?
Eu sou muito apaixonada pelas minhas redes sociais, principalmente pelo Twitter. Sou muito tuiteira, tem muito amor, carinho e admiração por lá, muito mais que críticas, sabe? Mas, de vez em quando, eu ainda me deparo com algumas coisas que me magoam. A internet é um meio usado sem cautela, sem responsabilidade, é complicado. E isso tem muito. Não são tantos haters quanto eu temia, eu tinha muito medo disso. Mas ainda assim é difícil lidar.

Falando em haters, nesta edição a Karol Conká acabou sendo muito criticada e foi ‘cancelada’. Você acha que houve exagero?
É pesado. A era do cancelamento é perigosa. É um reality show, todo mundo ali erra. Existe essa polaridade de torcidas, o favorito e tudo mais. Não estou passando o pano para as atitudes da Karol, jamais. Mas ela já reconheceu o que fez, está buscando mudar. É muito doloroso, eu não queria estar na pele dela não, sabe? Não sei como eu reagiria.

Você entrou no programa com qual estratégia?
Quando aceitei o convite, aceitei o risco de ser quem eu sou lá dentro. Sou uma pessoa que erra, que acerta. Eu sou falha, sou totalmente imperfeita, mas quero aprender com os meus erros, quero melhorar. Até porque eu sou artista, tem pessoas que se inspiram em mim.

Como reagiu ao ficar sabendo dos ataques à sua filha?
A Vitória tem apenas cinco anos, ela está blindada e não entende ainda essas questões. Quero aprender cada dia mais coisas para repassar pra ela, para ensiná-la a se defender, a lutar contra o racismo e contra todo tipo de preconceito. A minha família foi totalmente necessária nesse momento de proteção da Vitória enquanto eu estava lá. Todas as medidas legais também foram tomadas. Temos um advogado já responsável pelo caso da Vitória.

Foram comentários racistas?
Foram comentários racistas, completamente preconceituosos. Eu, como mãe, ainda não consegui digerir isso, sabe? Quero lidar com isso da forma mais didática possível. Eu confesso que ainda não tive força suficiente para lidar com a questão. Para uma mãe é muito triste, eu queria que as pessoas soubessem da irresponsabilidade de uma coisa dessas. Racismo é crime, é totalmente do mal e muito cruel. Independente da nossa cor, do nosso cabelo, a gente não deve desistir, podemos alcançar tudo. E eu estou lutando para conseguir falar disso melhor.

Como uma artista que faz músicas de funk, você acha que o gênero sofre preconceito de uma parte das pessoas?
Sim, com certeza. O funk é parte da música popular brasileira, é gigantesco. Se as pessoas estudassem mais o que é o funk, saberiam que o funk muda muitas vidas. Eu vim muito de baixo, minha família é muito humilde, e eu pude mudar não só a minha vida, como a da minha família. Tenho mais de 40 funcionários, são 40 famílias que eu ajudo indiretamente através do meu trabalho. Eu emprego essas pessoas, sabe? Faço questão de levantar essa bandeira com muito orgulho. Eu rebolo mesmo, uso fio dental, faço o que eu quiser e vai ter mulher cantando funk. As pessoas vão ter que aceitar isso e respeitar, entendeu?

Acha que estereótipo da mulher que canta funk ainda é muito sexualizado?
As pessoas gostam de estereotipar mulheres em todos os meios, todos os lugares. O meu público já sabia do meu perfil antes do programa. Tenho essa coisa bem família, entrei na casa em um relacionamento sério, amo minha filha…Já sabiam dos meus valores e princípios independente de qualquer coisa.

A sua mãe trabalhou como babá na casa da Vera Fischer e você costumava frequentar a casa dela. Como é sua relação com a Vera?
Minha relação com a Vera sempre foi muito próxima. Minha mãe trabalhou na casa dela por muitos anos e eu acabava indo às vezes lá. Esse contato fez com que a gente tivesse uma amizade. Ela sempre foi alguém que incentiva as pessoas a seguirem seus sonhos, e ela tinha esse discurso comigo também. Até hoje somos amigas e temos uma admiração gigante uma pela carreira da outra.

Como foi seu começo na carreira de cantora?
Foi bem difícil. Eu era muito magra, não achavam que eu tinha o corpo ideal, sofri muito machismo. Era difícil começar a fazer funk sendo mulher, porque, primeiro, eles não te valorizavam o suficiente, não te davam oportunidades como sempre deram para homens, além de toda a questão de sexualização e estereótipos.

Você sempre se identificou com o funk?
Eu sempre gostei, mas eu era roqueira. Meu irmão tinha uma banda de rock que eu adorava, acompanhava os shows. Até tentei montar uma banda de meninas. Eu achava que era um sonho meio impossível porque não tínhamos dinheiro para investir nisso. Aí eu acabei conhecendo uma garota que namorava um DJ de funk e virou uma paixão. Mesmo eu sendo toda roqueira… Ela me aceitou e, a partir disso, eu comecei a frequentar os bailes.

Valeu a pena ter participado do BBB?
Isso com certeza, sem dúvidas. Valeu super a pena, eu faria novamente sem pensar. Eu aceitei o convite sabendo que era um risco para a minha carreira, mas eu fui pra poder fortificar a minha marca, a minha carreira artística. Também entrei pela minha filha… Mudou ainda mais a minha vida.

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