‘O design é a arte democrática’

‘O design é a arte democrática’

Dado Carvalho

03 de janeiro de 2009 | 08h14

Foto: Renata Jubran


Karim Rashid é alto, magro, só se veste de branco e rosa e usa óculos de aro grosso combinando com as roupas. Seu corpo é coberto de tatuagens bem originais, com símbolos que também ilustram suas criações, e ele não economiza em acessórios futuristas e coloridos. Quem bate o olho em Karim Rashid não tem dúvidas: ele é uma peça de design.

Foi por isso que ninguém estranhou sua estátua de silicone em tamanho natural sentada na entrada da exposição Arte e Design Num Mundo Global, que termina amanhã no Instituto Tomie Ohtake. “É a obra favorita dele”, brinca o curador da mostra, o alemão Albrecht Bangert.


Rashid é global até na biografia. Nascido no Cairo, Egito, morou no Canadá, estudou na Itália e hoje mora em Nova York. O designer que cria desde embalagens de detergente a poltronas para a marca de champanhe Veuve Clicquot teve agenda intensa nos poucos dias que passou em São Paulo, no fim de outubro. Deu palestra no fórum internacional Boom SP Design, inaugurou um painel na Estação Clínicas do metrô e participou da abertura de sua exposição no Tomie Ohtake. Foi lá que reencontrou o arquiteto Ruy Ohtake, que também projetou o Hotel Unique, onde Rashid estava hospedado. “Admiro o trabalho de Ohtake e conversamos sobre fazer algo juntos. Talvez eu crie o interior para um prédio dele”, afirmou.
Por que o mundo precisa de design? Porque precisamos de bens materiais, precisamos viver em ambientes criados pela mão do homem. Design não é apenas parte da cultura. Tudo que já foi inventado até hoje é design, para o bem e para o mal.


Você já criou centenas de objetos. Quando você sabe que uma criação sua está pronta para seguir para a linha de montagem? Essa é uma pergunta engraçada. Sigo uma intuição aparentemente imediata, mas na verdade ela foi construída em 25 anos de experiência. Às vezes vejo um produto à venda e percebo que ele não estava pronto. É vergonhoso, porque a essa altura da história cultural não há razão para se colocar um produto ruim à venda. Tantos objetos já foram produzidos, tanta pesquisa já foi feita… como alguém tem coragem de lançar uma cadeira desconfortável quando já foram criadas mais de um milhão de modelos de cadeiras? O designer deve sempre se preocupar com isso, não há desculpa.

A sua exposição no Brasil se chamava ‘Arte e Design Num Mundo Global’. Arte e design são coisas diferentes? Sim, o design é a arte democrática. É produção em massa, algo que faz parte da vida de todos. Arte é um conceito elitista. Poucos têm a chance de ter ou apreciar arte porque é algo distante do cotidiano. Me sinto realizado quando trago uma noção artística para as coisas do dia-a-dia porque isso cria uma nova e globalizada estética cultural.

A mostra que passou por São Paulo teve prateleiras com objetos, como um supermercado. O que significa? Devo isso a Albrecht Bangert, curador da mostra. A idéia é mostrar que são objetos produzidos em massa. É possível atribuir conceitos sofisticados de forma, função e experiência a produtos banais do dia-a-dia? Sim, teremos um mundo mais bonito se prestarmos mais atenção à condição humana. Imagine se todas as empresas que fazem produtos no mundo tivessem como preocupação principal o ser humano, não os velhos objetivos empresariais… Seria muito melhor. Empresas modernas como Yahoo e Google, por exemplo, oferecem bons serviços porque sabem que o negócio melhora quando as pessoas têm boas experiências.

A pop art passa sempre a impressão de algo novo, jovem, mas o movimento já tem quase 40 anos. O que seria o novo para você hoje em dia? Acho que a pop art de 40 anos atrás é igual ao design de hoje. Inicialmente, a pop art tinha a idéia de democratizar a arte; hoje o design é a arte democrática. Eu diria que o design é a nova pop art.

Você se veste de maneira única, com cores fortes, acessórios, tatuagens. A expressão pessoal também é uma forma de design? São coisas inseparáveis. Eu faço o que eu sou. Eu vivo, penso, me comporto e tenho valores de acordo com meu trabalho porque ele é uma extensão da minha arte.

Na sua última visita ao Brasil, em abril, perguntei o que você achava dos irmãos Campana e você me disse que eles não eram designers, mas artesãos. Eu disse isso? Então deve ser por isso que eles não vieram na abertura da exposição (risos). Não, sério… mas o que é design? Desenvolver um projeto de acordo com certos critérios. Uma empresa quer fazer uma embalagem de perfume e diz ‘esse é o cheiro, essa é a nossa empresa’, etc. Os irmãos Campana estão no universo da criação de móveis artísticos. Eu nem diria que eles são artesãos, eu diria que eles são artistas.

Você conhece algum designer brasileiro? Gosto de vários arquitetos, mas não conheço bem o design brasileiro. Gostaria, mas muito do conhecimento hoje vem da mídia, então se a mídia não fala sobre o design brasileiro é difícil para um estrangeiro – mesmo eu, que trabalho em 38 países – conhecê-lo. Conheço os irmãos Campana porque a mídia divulga o trabalho deles pelo mundo. Mas há várias empresas brasileiras que podem ser globais. Fiquei surpreso quando trabalhei com a Melissa. Poucos conhecem a empresa fora daqui, mas eles têm o potencial para se tornar uma marca enorme. Não há razão para a Melissa não ser tão grande quanto a Armani ou a Nike.

Por que havia uma estátua sua na exposição? Você gosta de se ver como uma obra de arte? O curador queria que eu ‘recepcionasse’ as pessoas mesmo sem estar presente fisicamente. A idéia é engraçada. Sou tão ligado ao trabalho que me tornei uma peça do meu próprio design.

Por Felipe Machado

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