“O carnaval não é visto como cultura”

“O carnaval não é visto como cultura”

Sonia Racy

09 Fevereiro 2013 | 01h06

JF DIORIO / ESTADÃO

Solange Cruz Bichara Rezende acha que dá para levantar o bicampeonato. Só torce para que não seja como no ano passado, quando a confusão no dia da apuração manchou o título de sua Mocidade Alegre. Presidente da escola desde 2003, ela sonha também com a profissionalização do samba, o carnaval transformado em negócio – com renda garantida o ano inteiro e mais independência.

Como a escola se preparou para defender o título?

Este ano teremos uma mudança grande em relação a 2012, porque o enredo é abstrato, fanasioso – uma história que precisamos contar do zero. Ano passado, cantamos Tenda dos Milagres, do Jorge Amado.

A Liga tomou providências para evitar tumultos como o da apuração de 2012?

Este ano as notas são carbonadas e transportadas em dois malotes. Além disso, o regulamento também sofreu uma alteração importante: se qualquer integrante de uma escola causar tumulto durante a leitura das notas, a agremiação perde 3 pontos. Como o carnaval é decidido nos detalhes, faz muita diferença.

Ficou uma sensação ruim de ver o campeonato do ano passado terminar daquele jeito?

Ah, ficou, né? Porque foi muito grave, não aconteceu da maneira que deveria ter sido. E o pior é que a questão dizia respeito às escolas rebaixadas… A imagem do carnaval paulistano saiu arranhada. Mas trabalhamos muito desde então, aprendemos com o erro e vamos fazer um carnaval bonito em 2013.

Como vê o patrocínio de empresas no carnaval, que influencia os enredos das escolas?

Não critico. A maioria das escolas vive de forma precária, precisa de dinheiro. A gente luta pela mudança desse cenário. Porque o carnaval não é visto como cultura. Quem sabe quando as escolas tiverem infraestrutura, quadras regularizadas, estabilidade financeira, isso mude. O que posso dizer é que, na Mocidade, quem manda é o enredo. Se a gente não gosta, muda.

Você está há dez anos no comando da escola. É difícil ser mulher presidente?

Já foi mais complicado. Tem sempre um machista… mas eu não deixo barato, não. (risos) Sou brava, me igualo a eles. Mulher é mais esperta, consegue fazer mais coisas ao mesmo tempo do que os homens. Além do mais, sou a presidente da Mocidade, não a dona da escola. Eu me considero uma porta-voz da comunidade. /DANIEL JAPIASSU