“O Brasil vai mostrar ao mundo que é capaz de realizar grandes obras”

“O Brasil vai mostrar ao mundo que é capaz de realizar grandes obras”

Direto da Fonte

10 de junho de 2013 | 01h00

Aldo Rebelo (Foto: Iara Morselli/Estadão)

O ministro do Esporte fala sobre os desafios dos próximos três anos, gastos públicos, Palmeiras, a infância de jogador de futebol, nacionalismo e seu amor pelos cavalos.

Entre um compromisso de Copa do Mundo e outro de Olimpíada, Aldo Rebelo acompanha seu Palmeiras. Esperançoso de que o time vai voltar à primeira divisão e chegará com tudo a 2014, ano do centenário.

Aos 57 anos, este alagoano de Viçosa, comunista e nacionalista ferrenho, está à frente dos dois eventos esportivos mais importantes da história do País. E enxerga neles a chance de mostrar ao mundo um outro Brasil – apesar dos muitos problemas que permanecerão intocados mesmo com os bilionários investimentos do governo e da iniciativa privada.

O ministro do Esporte falou à coluna em seu apartamento em SP – cercado de objetos com o escudo do clube do coração e imagens de D. Quixote –, às vésperas de mais um tour internacional: primeiro, as Ilhas Maurício (onde participou de um congresso da Fifa); depois, Nova York, para palestrar sobre futebol na sede da ONU.

A seguir, os melhores momentos da conversa.

É mais fácil fazer uma Copa e uma Olimpíada ou trocar o Halloween pelo Dia do Saci?

(risos) Acho que o Halloween é um modismo que passa. O saci, personagem de um grande escritor, como Monteiro Lobato, e mascote de um grande time, que é o Internacional de Porto Alegre, tem mais raízes do que o Halloween. É algo muito brasileiro.

Está animado com a Copa das Confederações?

Estou. Inclusive com a seleção. Apesar de o torneio ser muito menor do que a Copa do Mundo, no ano que vem.

O desafio dos aeroportos não será esse torneio?

Não será. Durante a Copa do Mundo é que teremos realmente um fluxo enorme. São mais de 600 mil estrangeiros e em torno de 3 milhões de brasileiros se deslocando pelas doze sedes. A Copa é muito mais exigente em infraestrutura, logística e serviços.

Falou-se muito que a Copa do Mundo seria um evento da iniciativa privada. Mas, com o passar do tempo, o que se viu foi o governo pagando boa parte da conta. O que deu errado?

Nada. Esta é uma Copa com recursos privados. O governo investe em obras para a população. Obras que seriam feitas independentemente da realização do torneio – a maioria delas faz parte do PAC. Evidente que muitas foram antecipadas para atender as necessidades da Copa. No caso dos aeroportos, por exemplo, eles seriam reestruturados mesmo que não houvesse Mundial. A melhoria na mobilidade (metrô, VLT, trens, viadutos, avenidas) também aconteceria.

O governo entregará a infraestrutura toda para o Mundial?

O que a Fifa pede é que entreguemos os estádios, as vias de acesso aos aeroportos e a rede hoteleira. Todo o resto é uma “matriz de responsabilidades” confeccionada por prefeituras, estados e governo federal. Os três entes, reunidos, decidiram que, para melhorar as condições de realização da Copa, seriam necessárias mais obras. A maior parte será entregue, sim, dentro do prazo.

Até que ponto o mau relacionamento entre a presidente Dilma e o presidente da CBF, José Maria Marin, pode afetar as cerimônias oficiais da Copa?

Mas quem disse que há um mau relacionamento? Não há crise entre o governo e o COL. Conduzimos nossa relação com o Comitê de forma institucional. A presidente Dilma nunca estabeleceu veto ao senhor José Maria Marin. Não houve foi oportunidade ou necessidade desse encontro.

O senhor já defendeu que haja participação do governo no futebol brasileiro…

O esporte carrega o interesse público nacional. O esporte educacional, de lazer, de alto rendimento. E o governo tem de encontrar instrumentos para preservar esse interesse público. Isso eu defendo. Acho que, no caso da seleção brasileira, é uma instituição que carrega o nome do País, as cores do País. O governo tem de ter a capacidade de fixar ou defender regras que preservem o interesse público na prática do esporte.

Em relação à Olimpíada, como estão os gastos do governo?

Aí, sim, de uma forma distinta, a Olimpíada é um evento muito mais público, que requer investimento do governo. Temos de construir os equipamentos esportivos, a vila olímpica. Sem falar no investimento na preparação dos atletas. Claro que contamos com a participação importante dos clubes, que também apoiam e ajudam. Mas é um esforço grande, do governo, das empresas estatais, que patrocinam o basquete, o vôlei, a ginástica, o atletismo. Estamos procurando construir um legado – fazer 5 mil quadras, cobrir outras 5 mil, construir 253 centros de iniciação ao esporte.

Qual o desafio de assumir o ministério após a saída conturbada de Orlando Silva, envolvido em denúncias de corrupção?

Eu peguei a parte mais fácil. Complicado era trazer a Copa e a Olimpíada para o Brasil. Isso já tinha sido feito. O resto não tem mistério, não tem segredo. O que tem é muito trabalho. Difícil mesmo foi ser relator do Código Florestal.

Ficou satisfeito com o Código?

Fiquei, sim. Foi um avanço, que deu garantias para a defesa do meio ambiente e segurança aos agricultores, algo muito importante para o Brasil.

Qual a emoção para o senhor, um conhecido nacionalista, de ver uma Copa do Mundo sendo realizada no Brasil?

O Brasil não é só um país, uma nação, mas um projeto civilizatório próprio, distinto. Darcy Ribeiro dizia que somos uma espécie de Roma renovada, mais democrática, porque batizada e lavada pelo sangue africano e indígena. O Brasil já fez coisas muito difíceis, como expandir suas fronteiras para o oeste. A gente corria o risco de se tornar um “Chile do Atlântico”. O Brasil precisa desses eventos para mostrar ao mundo que é capaz de fazer grandes coisas e que não alimenta o ódio nem a intolerância.

Está esperançoso com o seu Palmeiras? Acha que volta para a primeira divisão?

Claro que volta. Mas tem de respeitar os adversários. A série B é um torneio muito difícil. Eu fui a Itu ver a estreia, vitória apertada contra o Atlético-GO. Será o ano todo assim. Mas temos condições de vencer e marchar para o centenário, em 2014, ambicionando títulos importantes. Até porque já teremos o nosso belo estádio.

Gostou do projeto da arena?

Quando ficar pronta, será a mais bonita do Brasil… e do mundo!(risos)

Quando jovem, o senhor jogava futebol?

Era lateral-direito. Mas, como todo menino, comecei lá na frente, querendo ser centroavante. Aí me disseram que não era o meu ramo, eu devia ir para o meio. Dali fui para a zaga, e acabei no gol. A gente jogava no ginásio, em Viçosa, interior de Alagoas. Depois, fundei um time com os amigos – uma homenagem ao Galicia, da Bahia. E, acho, o primeiro naming rights de clube. Pedimos contribuição aos comerciantes locais e um deles era baiano. Ajudou muito, sob a condição de a gente batizar o time como Galicia.

O que o senhor costuma fazer no tempo livre?

Costumo ler bastante e vejo muito esporte na TV. Agora mesmo estou lendo uma biografia do marechal Lott, chamada Soldado Absoluto. E o romance Trem Noturno para Lisboa (sobre a mesa da sala, chama a atenção o livro ‘Da Felicidade’, de Sêneca).

O senhor também é cavaleiro dos bons…

Esta semana mesmo cavalguei em São Pedro, perto de Piracicaba. Cavalgo sempre em Brasília, no regimento de cavalaria do Exército. Além disso, criei a Cavalgada da Independência, que sai de Santos, de onde D. Pedro I saiu, e vai até o Ipiranga. E também a Cavalgada da Liberdade, em homenagem a Zumbi dos Palmares.

O amor pelos cavalos vem da infância?

Herdei de meu pai, que era vaqueiro. Com 3 anos de idade, ele me pôs em uma sela. Não saí mais.

Depois do Ministério do Esporte, o senhor pensa em algum outro desafio político?

Vou fazer esse serviço primeiro. Já me dá bastante trabalho./DANIEL JAPIASSU

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