O Brasil que Ana vê

O Brasil que Ana vê

Sonia Racy

08 Julho 2015 | 01h12

Ana Patricia Botín (Foto: Sonia Racy/Estadão)

Pouco antes de Alejandra Kindelán, diretora do Serviço de Estudos Econômicos e Public Policy do Banco Santander, deixar claro que não trabalha com risco de rebaixamento da nota do Brasil – durante seminário aberto, ontem, em Madri–, Ana Patricia Botín foi categórica ao responder a pergunta da coluna sobre o ajuste fiscal brasileiro: “Joaquim Levy está no caminho certo e sua ação é muito importante para o Brasil voltar a crescer”. Coisa que, segundo aposta o próprio Santander, só vai acontecer, timidamente, a partir de 2016. Neste ano, o projetado é de 1% negativo. Grécia? O banco tem baixa exposição. Mesmo assim, Ana se preocupa com os reflexos de uma possível saída do país da União Europeia.

Há menos de um ano na presidência do Grupo Santander, Ana Patricia, 54 anos, lembra muito o falecido pai Emilio Botín em pelo menos uma coisa: a aversão a conceder entrevistas. Entretanto, diferentemente de dom Emilio – como era chamado o homem que tirou o Santander da condição de sexto banco na Espanha para alçá-lo, em 18 anos, ao maior da eurozona –, ela o faz de maneira politicamente correta. Falando pela primeira vez a jornalistas da AL, a presidente do grupo respondeu calmamente às perguntas depois de seu discurso, na gigante sede do banco nos arredores da Madri. Em estilo cauteloso, falou muito, foi gentil com todos, mas disse… pouco.

A mãe de três filhos, escolhida pelo pai entre três outros irmãos para suceder-lhe, não se furtou, no entanto, a uma questão colocada pela coluna. Culpou o próprio banco, e não a política monetária brasileira, pelo fato de o Santander ainda não ter cumprido promessa de Emilio – feita assim que comprou o Banespa, por um preço para lá de generoso, o triplo do oferecido pelo segundo colocado no leilão do ano 2000. O que o então presidente do grupo assegurou na ocasião foi que a entrada do banco no Brasil significaria prática de juros bem menores. “Não há erro na política monetária brasileira. O que acontece é que estamos ainda em fase de transformação local. Essa resposta terá que vir de dentro, da nossa reorganização, para podermos reduzir taxas”, ponderou a executiva que, antes de trabalhar no Grupo Santander, passou oito anos no JP Morgan. Detalhe: foi Ana quem incentivou o Santander a comprar o banco estatal paulista. Suceder ao pai não é tarefa fácil. Mas Ana, altamente respeitada pelo mercado, dá todos os sinais de estar preparada para tanto. Agressivo nas aquisições, o responsável pelo boom do banco tinha estilo altamente centralizador e arrojado, qualidades adequadas aos tempos da sua gestão. Hoje, Ana sugere crescer organicamente, a não ser que surjam oportunidades como a da compra do HSBC Brasil. “Estamos na competição”, confirmou, sem avançar detalhes sobre a proposta de compra entregue ontem aos dirigentes do banco em questão. Consta que, dos três concorrentes finais (Itaú, Bradesco e Santander), o que tem maior sinergia com o HSBC é o Santander. O que não significa que ele pagará o maior preço.

O fato é que, em dez meses, Ana trocou processos, pessoas e a forma de tocar o banco. A mulher do latifundiário Guilhermo Morenes busca uma diferenciação por meio da “sensibilidade, acompanhamento próximo e equilíbrio” dos clientes. Tudo para fidelizá-los. Dos 50 milhões que o banco tem na América Latina, 13 milhões são tidos como “fiéis”. Na palestra, ela falou sobre as mulheres, destacando que 70% dos tomadores de microcrédito são do sexo feminino. E defendeu também a descentralização e independência do grupo – mas deixando escapar um ressalva: “Independente não quer dizer autônomo”. Sinal de que quem é filho de peixe largatixa não é…

* Sonia Racy viajou a convite do Santander