‘O Brasil não é conhecido por sua literatura no resto do mundo’

‘O Brasil não é conhecido por sua literatura no resto do mundo’

Sonia Racy

17 de junho de 2013 | 01h00

Liz Calder (Foto: Fabio Motta/Estadão)

Liz Calder tem uma nova missão: fazer com que os ingleses se interessem pela literatura brasileira. Idealizadora da Flip, esta elegante senhora acha que chegou a hora de o mundo olhar para a nossa produção literária e não apenas para “outras coisas pelas quais o Brasil é conhecido”. Para tanto, formulou a FlipSide, que reunirá, em outubro, representantes brasileiros da escrita e da música em Snape Maltings, na Inglaterra. A versão pocket da Flip contará com homenagem a Vinicius de Moraes e Tom Jobim.

Liz sabe que tem um grande desafio pela frente. “Este será o primeiro festival de literatura dedicado a um país fora do Reino Unido, com cultura e idioma diferentes”, destacou, em entrevista por telefone à coluna.
Entre os convidados a participar do evento estão Ana Maria Machado, Adriana Lisboa, José Miguel Wisnik e Bernardo Carvalho – cujo romance Nove Noites ela acaba de ler. “Achei a narrativa muito intrigante, misteriosa e maravilhosa”, analisa. Indagada sobre seu escritor brasileiro favorito, Liz não titubeia: “Machado de Assis”.

A história de admiração pelo Brasil é de longa data. Desde os anos 60, ela cultiva particular paixão pela atmosfera tropical, à qual atribui as bem-sucedidas experiências dos escritores que participam da Flip: “Neste ano, convidamos, entre muitos, um norueguês. E tenho certeza que irá se divertir muito – afinal, ele vem do hemisfério norte, que é cheio de neve”, diz.

Fundadora da Bloomsbury, editora que lançou sucessos como Harry Potter, afirma que a crise das livrarias inglesas não a assusta: “Sempre haverá mercado para livros impressos. Não creio que eles desaparecerão. São muito fortes e difíceis de se reproduzir a sensação, entende? A experiência é diferente”, destaca.

A seguir, os principais trechos da conversa.

Este ano haverá a primeira Flip na Inglaterra. Como a senhora chegou a essa ideia?

Não foi imediatamente. Aqui em nossa editora fazemos muitos eventos, como oficinas e leituras. Então, pensamos: por que não tentar fazer isso com literatura brasileira? Por causa dos interesses no relacionamento entre o Reino Unido e o Brasil, devido aos Jogos Olímpicos, pareceu um momento propício para continuarmos a tentar espalhar as grandes riquezas da cultura brasileira. O Brasil não é conhecido por sua literatura no resto do mundo, mas por outras coisas.

Como o futebol?

Exatamente. E sabemos que há muito mais do que futebol acontecendo no País. Dessa forma, temos muita sorte de morar perto de um lugar maravilhoso, com um auditório muito bom e locais e instalações incríveis que abrigarão a FlipSide.

A ideia é levar escritores brasileiros e fazer uma homenagem a Vinicius de Moraes, certo?

Sim. Queremos músicos também. A Flip sempre teve uma relação forte com a música. Queríamos a mesma coisa. Então, teremos um tributo a Vinicius de Moraes e Tom Jobim, com José Miguel Wisnik. Estou muito empolgada, mesmo sabendo que é um grande desafio. É algo bem incomum no Reino Unido. Temos, como você sabe, realmente muitos festivais de literatura. Mas este será o primeiro dedicado a um país de fora do Reino Unido, com cultura e idioma diferentes. É inédito. Por isso, também teremos comida brasileira, capoeira…

Muitas livrarias estão sendo fechadas na Inglaterra. Esse fenômeno está afetando as editoras? A senhora planeja publicar no formato para tablets? Como vê a questão dos livros digitais?

A publicação que fazemos é completamente não-digital. Nós nos especializamos em papel de alta qualidade, em design qualificado e em produção. Provavelmente, não trabalharemos com o formato digital, mas, pelo que sei, as pessoas continuarão a ler no papel. Se elas leem em tablets, isso é bom também. Acho que sempre haverá mercado para livros impressos. Não creio que eles desaparecerão. Os livros impressos são muito fortes e é difícil de se replicar essa sensação, entende?

Quais as expectativas da senhora para a Flip deste ano?

Estou muito feliz. Há escritores que nunca encontrei, mas, como já li, anseio por encontrá-los. Como Alejandra Ramon e Lydia Davis. E alguns dos meus velhos amigos, como Tobias Wolff e Geoff Dyer.

No ano passado, a Flip cresceu, e os organizadores disseram que não pode ser maior. A senhora concorda com isso?

Seria um desastre tornar a Flip grande, a ponto de perder o encanto. O Hay-on-Wye Festival, que inspirou a Flip e tantos outros festivais, tornou-se tão grande que se mudou da cidade pequena e não é mais o que era. Claro que tem sucesso, mas não é mais o mesmo, e eu não gostaria que isso acontecesse à Flip de maneira alguma.

E tem Paraty…

Claro. A cidade é essencial. As pessoas se encontram nas ruas, nos bares, nos restaurantes e, depois, vão ver os mesmos shows e os mesmos eventos. E isso acaba criando um ar de intimidade, o que é muito importante para nós.

Uma das críticas à Flip é a escolha dos mediadores. Qual a dificuldade de encontrar alguém que possa conduzir a conversa com humor e, ao mesmo tempo, com curiosidade?

Sim, houve críticas. Entretanto, acho que isso melhorou atualmente. Existem, agora, mediadores fantásticos, como Angel Gurría. Foi um problema, mas está melhor agora. O pior é quando o mediador fala demais. O público não está lá para ouvir o mediador. Mediar é uma arte. E, como você diz, é preciso um pouco de humor e flexibilidade.

Este ano a programação está menos política. Por quê?

Algumas pessoas disseram que esta edição é a mais séria de todas. Não entendo muito bem o que querem dizer com isso. Na verdade, acho que a Flip é particularmente popular. E fico satisfeita de conseguirmos manter a qualidade sem nunca precisar recorrer à participação de celebridades. No Reino Unido, nós temos muito disso.

Explique melhor.

São políticos, astros pop, atores ou atrizes que escreveram livros e começam a ir aos festivais de literatura. Não acho que isso aconteça de forma alguma na Flip. É uma festa muito mais intelectual e séria, sem ser pesada por causa disso – não é acadêmica. Desde a primeira edição, o público é bem atento e receptivo. São interessados, o que, novamente, nem sempre acontece aqui no Reino Unido.

Na sua opinião, quais foram os melhores momentos nesses anos de Flip?

Houve muitos (risos). O encontro de Nadine Gordimer e Amós Oz foi muito especial. Uma das coisas que achei mais maravilhosas foi Colm Tóibín durante a palestra sobre James Joyce. Fantástico. E David Grossman, que sempre que aparece faz com que as coisas mais incríveis aconteçam. Ele é um homem incrível. E, para finalizar, claro, devo dizer que a participação de Chico Buarque foi inesquecível.

A maioria dos escritores que participam da Flip afirma ter uma experiência positiva. O que a senhora acha que faz do festival tão especial?

Eles são todos muito bem cuidados. A organização da festa é impecável. Os escritores têm a oportunidade de conhecer um lugar maravilhoso, podem passear em barcos, ir à praia, comer bem, encontrar outros autores. Quer dizer, o que não apreciar?

É uma experiência que explora muito o apelo tropical.

Exatamente. Paraty é exótica para um visitante do hemisfério norte. Este ano, haverá um norueguês. E tenho certeza que ele irá se divertir muito – afinal, vem lá de cima, onde é cheio de neve.

Que livro a senhora está lendo neste momento?

Terminei Nove Noites, romance de Bernardo Carvalho. Devia ter lido há muito tempo, porque foi lançado no Reino Unido em 2007, mas só li agora. Adorei. Achei a narrativa intrigante, misteriosa e maravilhosa. Li porque ele virá para cá. Mas já li Nelson Rodrigues, Patrícia Melo e Chico Buarque.

A senhora tem um escritor brasileiro favorito? Só por curiosidade.

Machado de Assis./MARILIA NEUSTEIN

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