Brasil ‘é reconhecido por seus museus’, diz diretor

Brasil ‘é reconhecido por seus museus’, diz diretor

Sonia Racy

07 Janeiro 2019 | 00h45

ERIC KLUG. FOTO IARA MORSELLI /ESTADÃO

Responsável pelos museus do Futebol e da
Língua Portuguesa, Eric Klug atribui maturidade
do setor às organizações sociais, à
capacitação do pessoal e à Lei Rouanet

À frente da IDBrasil, gestora do Museu do Futebol e Museu da Língua Portuguesa, Eric Klug comemora os dois momentos dos museus. O do Futebol acumula um dos maiores totais de visitantes em SP e o da Língua Portuguesa segue com a reforma dentro do cronograma, após o trágico incêndio em dezembro de 2015. Para Klug, os dois têm um apelo de sucesso pelo próprio conceito, o de serem baseados em valores imateriais. “É um conceito vencedor porque tem uma potência cultural educativa, o que o torna muito atraente”, explicou em entrevista à repórter Marilia Neustein, no Museu do Futebol.

Klug é um “veterano” da área. Já passou por Cultura Artística, Mozarteum Brasileiro, Museu de Londres e Orquestra de Câmara Inglesa – e acredita piamente no potencial do Brasil como exportador de cultura e de projetos culturais. “Você quer que São Paulo seja uma grande capital cultural? Que o Brasil seja reconhecido pelos seus museus? O Brasil é reconhecido pelos seus museus hoje em dia, o que há algumas décadas seria impossível. E isso é possível por quê? Credito aos sistemas das OSs de São Paulo, à capacitação do setor museológico e também à Lei Rouanet.”

Entre os desafios da área de cultura, ele defende o sistema das organizações sociais. “Tem problemas? Sim, como todos os modelos. Mas tenho a convicção de que é hoje o melhor modelo de gestão e financiamento da cultura. Porque pressupõe uma gestão por uma entidade privada, que é mais ágil, é mais livre para tomar decisões.” A seguir, os principais trechos da conversa.

Os dois museus foram construídos baseados em um conceito que você chama de valor imaterial. Como é isso?
Sim. Veja, o Museu do Futebol não é uma coleção de troféus ou um acervo de algum jogador, mas é o futebol em geral. A mesma coisa do Museu da Língua Portuguesa ou do Museu do Amanhã, no Rio. São baseados em um valor imaterial e em itens também virtuais. Ou seja, proporcionam ao visitante experiências em imagens, em filmes, em games. E acho que esse foi um conceito vencedor porque tem uma potência cultural educativa, é muito atraente.

Isso facilita a questão da itinerância do acervo?
Sim, no caso do Museu da Língua Portuguesa, por exemplo, apesar de o prédio da Luz estar fechado, o museu está mais ativo do que nunca. Nossa última exposição foi para sete cidades do interior de SP e para três países africanos: Cabo Verde, Angola e Moçambique. E foi agora para Portugal. Uma exposição da Língua Portuguesa volta à Portugal… é simbólico. Então, a ideia era essa: que, em uma hora e meia de visita ao Museu de Futebol, por exemplo, a pessoa não necessariamente aprenda sobre o futebol, mas sobre outras relações que fazem o Brasil ser o que é hoje. É uma história de sucesso muito grande.

Pode detalhar?
O visitante vai atraído pelo Neymar e descobre que as mulheres foram proibidas de jogar futebol durante 39 anos, que Getúlio Vargas construiu este estádio (o Pacaembu, sede do museu) para usar politicamente o poder do futebol, descobre que o Pixinguinha compôs “Um a Zero” por causa de uma partida de futebol.

Você acredita que os museus podem ter essa função de reforçar a questão identitária?
Claro! A língua portuguesa, por exemplo, é um produto da nossa cultura. Não é a língua portuguesa per se, é como a música: é língua, é poesia, tudo isso. Então tem uma verdade que é afetiva, identitária, e leva a mil outras relações. O Museu do Futebol, por exemplo, não faz grandes campanhas, não se envolve politicamente, mas aqui tem tudo isso. Então quem visita as salas de origens e vê os cartazes dos campeonatos femininos na Inglaterra, em 1895, descobre que até 1979 as mulheres não podiam jogar futebol. E que o jogavam no circo, por exemplo.

‘ELES VÊM PELO NEYMAR
E FICAM SABENDO
DO GETÚLIO, DO JK,
DO VILLA LOBOS…’

O Museu do Futebol é também um dos mais visitados. Como consegue manter esse bom número de visitantes?
Recebemos cerca de 350 mil pessoas por ano. É um público bastante bom, este é um dos museus mais visitados. Acho que a tecnologia faz parte desse sucesso. Mas não é a tecnologia em si, não são só games, é a transmissão daquele conceito de que lhe falei. É uma linguagem contemporânea. O último jogo não está aqui, mas os fatos realmente importantes, as características importantes do futebol e da sociedade estão representadas.

A concepção de museu tem mudado nas últimas décadas e muitos deles têm se transformado em centros culturais. Isso é uma preocupação de vocês?
É uma preocupação, e das grandes. O Museu do Futebol não é só uma exposição. Temos um centro de referência, por exemplo, no qual um pesquisador encontra o material sobre o grande futebol profissional, o futebol de várzea, o indígena, o feminino… Também fazemos seminários sobre esses temas. A ideia é que ele seja um espaço para tudo isso.

Você já gostava de futebol antes de trabalhar aqui ou o gosto veio aos poucos?
A minha atração pelo futebol é muito mais de ordem antropológica, histórica… Por exemplo, entender por que há preconceito contra goleiros negros. Por quê? Por causa de uma Copa do Mundo em 50. Por que chamam os são-paulinos de pó de arroz? Porque havia preconceito racial, não só racial… Tudo isso está presente aqui no Museu.

Sobre a gestão de aparelhos culturais, acha que a OS é um bom modelo? Deveria ser mais replicado?
Trabalhei com música durante muito tempo, numa orquestra do Reino Unido, depois fui diretor aqui do Conselho Britânico e assumi o IDBrasil faz um ano e pouco. É um modelo muito bom, muito robusto. Tem problemas? Sim, como todos os modelos, mas tenho a convicção de que é hoje o melhor modelo de gestão e financiamento da cultura. Porque pressupõe uma gestão por uma entidade privada, que é mais ágil é livre para tomar decisões.

Por ter menos burocracia?
Sim, mas, ao mesmo tempo essa decisão é checada, verificada e auditada pela sociedade civil e pelo Estado. Todas as nossas contas passam pelo Tribunal de Contas do Estado. Cada despesa é auditada da mesma maneira como acontece a uma despesa pública – mas os nossos processos são menos morosos, mais ágeis. Também é interessante contar com os conselhos compostos pela sociedade civil. Temos o conselho fiscal, o conselho administrativo, o conselho consultivo, pessoas envolvidas no futebol e na academia, que dão essa visão de um museu que se propõe múltiplo, de todos.

E isso funciona tanto para o Museu da Língua quanto para o Museu do Futebol?
Sim é um sistema muito robusto, muitos controles. Quando digo que ele é menos burocrático, talvez menos entravado, cabe explicar que tem uma burocracia imensa, relatórios trimestrais que dão centenas de páginas, cada evento, cada visitante e cada atividade são detalhados, tudo sujeito ao crivo, à análise do Estado, do público em geral, da imprensa. Acho que tudo isso produz um momento muito forte de gestão.

Existe um senso comum segundo o qual o brasileiro não valoriza a cultura, não tem o hábito de ir a museus. É uma falácia?
Não há dúvida nenhuma. Temos 350 mil pessoas visitando o Museu do Futebol todos os anos e o número só aumenta. Trazemos grupos que têm dificuldade de visitar. Damos gratuidade às escolas públicas, patrocinador para os ônibus… Não existe, é o que constatamos, falta de interesse.

Com a eleição abriu-se uma discussão inflamada sobre o uso da Lei Rouanet. Qual sua avaliação disso?
Essa questão do financiamento tem vários aspectos. O orçamento, mesmo no Estado de São Paulo, que investe muito, caiu demais. Hoje é mais ou menos 0.3% do orçamento total. Mas a potência dessa transformação de que são capazes os museus e salas de concertos, é imensa. Temos 60 mil crianças de escolas públicas e privadas que passam por esse equipamento e que descobrem quem foi Getúlio Vargas, JK, Villa Lobos. Descobrem isso dentro do Museu do Futebol.

A cultura é rentável então?
Sim. Trabalhei bastante tempo em Londres e, assim como nas grandes capitais do mundo, os governantes sabem que a cultura, a economia criativa, é a que mais emprega. Então pra cada real você gera 20 reais de retorno. Eles chegaram num outro ponto. Disseram: que “se queremos ser os centros do mundo, temos que investir em cultura”. Então é muito mais o que uma transação financeira, um incentivo fiscal. Se, enfim, pra cada real você vai gerar 20 reais, é burrice você não investir.

Não deixa de ser um investimento em conhecimento, pelo que você está falando. Tem outro aspecto ainda: você quer que São Paulo seja uma grande capital cultural? Que o Brasil seja um lugar reconhecido pelos seus museus?
O Brasil pode e é reconhecido pelos seus museus hoje em dia, o que há algumas décadas seria impossível. E hoje é possível por quê? Credito aos sistemas das OSs de São Paulo, à capacitação do setor museológico, à Lei Rouanet também.

Esses mecanismos são essenciais na sua opinião?
Eles são imperfeitos, mas são essenciais.

As pessoas viajam para o exterior e usam ciclovia, vão aos museus. Mas criticam o consumo de cultura e a construção de ciclovia aqui. Por que acha que isso acontece?
Eu já recebi dezenas de ministros, que quando me ouviam, reagiam: “Espera aí, como é que…? Queriam saber mais. Então o Brasil poderia ser exportador de tecnologia de financiamento das artes. Lei Rouanet, OS, o sistema S são sistemas que funcionam muito bem. O sistema S tem 45, 50 anos, funciona de maneira incrível.