‘O BNDES não é como pomada’

‘O BNDES não é como pomada’

Redação

07 de dezembro de 2008 | 06h00

Para José Roberto Mendonça de Barros, não há como obrigar a consumir

Foto: Paulo Giandalia/AE


O economista José Roberto Mendonça de Barros não tem tido um só minuto de descanso. Afinal, é profundo conhecedor da “vida real” da economia, tendo se especializado nos processos produtivos, unindo a macro e a microeconomia com muito pé no chão. A despeito dos erros e das críticas sofridas pelos economistas nessa histórica crise de tamanho ainda desconhecido, continua existindo procura por análises e perspectivas. Quem consegue tocar sua vida – seja ela empresarial, esportiva, sentimental – sem um plano mínimo? A tarefa dos economistas, no ver de Mendonça de Barros, é organizar o conhecimento a partir de conceitos, ajudando governos, instituições financeiras e empresas a se localizarem. “Nossa posição é de alto risco”, reconhece Zé Roberto ao me receber, para almoço, encaixado entre uma reunião e outra, no restaurante Le Vin, na semana passada.

Pessimista em relação ao próximo ano, ele não perde a calma. O mundo está em eterna mudança, que implica invariavelmente em perguntas novas. “E a cada pergunta nova a sociedade responde com uma ação igualmente nova. É assim desde que o mundo é mundo, e ele nunca acabou.”
Praticante de Pilates, amante da música, Mendonça de Barros vê com bons olhos a rápida adaptação das empresas brasileiras à nova realidade, fruto de pesadas experiências do passado. No entanto, não vê como o governo possa obrigar o brasileiro a consumir ou os bancos a emprestar. “Não se pode obrigar alguém a tomar um empréstimo que ele não quer”, adverte.
A seguir, os principais trechos da conversa.

O Brasil leva vantagem ou desvantagem, nessa crise? Nossa grande vantagem é estarmos com a economia arrumadinha, crescendo. Segundo, como chegamos tarde à festa, não temos uma alavancagem grande. A desalavancagem é muito mais cruel lá fora do que aqui. O grau de endividamento dos consumidores de fora é muito maior. Isso é uma vantagem razoável. Temos reservas , a inflação está sob controle. A parte macro está consolidada, salvo o arranjo das contas públicas, que é um desastre.

Por que o Estado brasileiro nunca consegue caber dentro de suas próprias contas? Não sei se tenho a resposta. Mas parte da sociedade brasileira demanda um governo grande. Uma parte mais moderna já entendeu que precisa ser competitiva, aberta, etc. É um pedaço nada pequeno, esse que quer governo grande. Se todo mundo fosse contra isso, não teria acontecido. O governo desenvolveu durante 30 anos uma capacidade de extrair recursos do cidadão e da empresa que é única. A carga tributária, de 37%, é quase o dobro da carga média de países de renda média equivalente à nossa.

No Brasil, o que teria de ser revisto pelo governo? A regulação em geral, a dos transgênicos em particular, a ligada à infra-estrutura é fundamental. Seja na concessão de entradas, de energia elétrica…

E as medidas que o governo vem editando? Poderiam ser ampliadas, reduzidas? Acho que estão muito concentradas numa coisa cuja eficácia acho pequena, que é forçar dar crédito. Sou muito cético com relação a isso. Primeiro, o BNDES não é pomada mágica que resolva todos os problemas do mundo. Ele nem tem dinheiro pra isso. Segundo, o risco subiu mesmo. Você não pode obrigar o banco a dar empréstimo para quem é visto como risco grande. Mesmo que seja o Banco do Brasil. E terceiro, estão esquecendo que a demanda caiu. E você não pode obrigar alguém a tomar um empréstimo que ele não quer. Está tudo voltado para o crédito, como se a demanda estivesse lá em cima e só o crédito atrapalhasse. Não é mais verdade isso. A Rádio Peão já percebeu, as pessoas estão mais cautelosas.

Esse governo manteve muitas políticas do anterior. Isso o surpreendeu? Num primeiro momento, honestamente, sim. Mas estaríamos numa situação muito mais complicada se isso não tivesse ocorrido. Entretanto, isso ocorreu até um certo ponto. Porque uma característica do governo atual é um modelo PRI – o partido mexicano. É querer acomodar embaixo da coalizão governamental da extrema esquerda à direita. E a forma de fazer isso é distribuir um pouco de poder pra todo mundo.

Como assim? Olha a agricultura. O Ministério da Reforma Agrária e o Ministério da Agricultura. Um ideologicamente empaca o outro. Meio ambiente: a mesma coisa. Organismos geneticamente modificados… Montam uma comissão técnica e dão poder de veto para os ongueiros religiosos. Existe uma análise do Bolívar Lamounier que diz assim: há sistemas políticos que são desenhados pra gerar consenso e maioria, como o parlamentarismo. E outros que são construídos para dar poder de veto para minorias, como na Itália e no Brasil. Com isso, você concede poder de veto em coisas fundamentais, por anos e anos a fio, para pequenas representações. Então, a cláusula de barreira cai, porque o PC do B tem uma história. Só que ele é irrelevante no Brasil de hoje.

A atual crise mundial foi inesperada? Foi diferente das experiências passadas. Esta, como se sabe, veio de fora pra dentro, mas veio online. Chegou imediatamente após a queda do Lehman & Brothers. O que é surpreendente é que houve a percepção imediata, nas empresas por aqui, de que a coisa desta vez era grande mesmo. Elas imediatamente perceberam o tamanho do problema e começaram a tomar providências.

Quais? Postergar novos projetos pelo maior prazo possível foi uma delas. Tudo o que não está no meio do caminho deixa pra mais adiante. Ao mesmo tempo, quando o crédito trancou nas empresas, todos viram que o mais importante era administrar o caixa. Mudou-se o foco.

E tomaram quais medidas? Postergaram despesas. As montadoras, por exemplo, 15 dias depois, já tinham férias coletivas programadas. A percepção era de que havia um problema grande no crédito, que levaria a uma redução no financiamento de veículos – como ocorreu. E o mercado de veículos opera numa base de trocas, não? O sujeito vende o carro dele e compra um novo. Mas a concessionária só faz isso se puder vender o usado. Quando o mercado de crédito pára, também pára o de trocas. Por isso, não adianta você ter crédito para novos, como hoje, pois não há o que fazer com o carro usado.

As brasileiras foram rápidas? Imensamente rápidas. Nunca vi uma coisa tão rápida.

É porque já temos um know-how de crises, coisa que nos EUA e Europa talvez não tenham? Em boa medida, acho que sim. Não só nós temos know how como estamos abertos ao mundo. Empresários, que antes viajavam como turistas, hoje viajam a negócios. Então, foi rápida a percepção de que o crédito tinha parado. Como o dinheiro ficou curto e caro, aumentar estoques significa um dreno no capital de giro. Até setembro, todas as empresas estavam olhando pra frente, pra aumentar a produção, aumentar vendas. O foco era no share de mercado. Estavam dispostas a vender com margem menor para crescer. Isso mudou. A crise exige exatamente o inverso. Você tem de olhar margem, administrar o caixa, os estoques, os créditos pra fornecedores, a clientes.

Isso vale para a vida das pessoas? Vale. E foi por isso que as pessoas reagiram rapidamente. Volte ao caso dos automóveis. Não é só que está vendendo menos automóveis porque o financiamento está menor. O tráfego dos clientes é menor. Veja o nível de emprego. Não mudou muito até agora. Mas as pessoas estão antevendo maiores dificuldades que já começaram nesta semana. A Rádio Peão, como se diz, agiu depressa, a reação foi imediata. Neste ano, em vez de grandes gastos de Natal, vamos fazer um Natal bom, talvez uma boa ceia. Vamos trocar uma TV, mas não vamos comprar um segundo carro.

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