‘O afeto é o principal ingrediente de qualquer relação’, diz Morena Leite

‘O afeto é o principal ingrediente de qualquer relação’, diz Morena Leite

Gilberto Amendola

01 de agosto de 2022 | 00h40

A chef Morena Leite. Foto: Mario Rodrigues

Quando a coluna tentou entrevistar a chef Morena Leite, ela estava em um café de Paris – tentando encontrar um wi-fi mais confiável. Não foi possível estabelecer uma conexão – e a nossa conversa aconteceu mesmo por meio de troca de mensagens. O importante era não deixar Morena escapar pelas esquinas de algum país distante. “Agora estou em Paris, indo para Londres amanhã, depois Madri e Lisboa. Estive no Quênia e Tanzânia. Depois, em outubro, volto para Angola, Moçambique, Madagáscar, Etiópia e, em uma terceira etapa, Benin, Senegal e Congo”.

Além de viajar pelo mundo com a família, a incansável chef abre no dia 10 a Casa Capim Santo, dentro do Instituto Tomie Ohtake – um espaço para realização de eventos (que estará disponível ao público no almoço). Ela também está treinando cozinheiros de embaixadas brasileiras pelo mundo e preparando mais um livro. Tudo isso levando sempre na mala aquilo que ela considera o principal ingrediente da vida: o afeto. Leia a seguir.

Como você enfrentou a covid nos seus negócios?
A covid foi muito difícil – principalmente porque a gente não sabia o que ia acontecer, não tinha controle da situação. Isso sem falar nos enormes prejuízos financeiros e emocionais. Mas agora, claro, é gratidão por estarmos vivos e por ter força para reconstruir o que foi afetado nos negócios.

Foi possível aprender alguma coisa neste período?
Após esses dois anos, as pessoas sentem muita falta de estarem juntas, de compartilharem crenças…Tivemos muitos aprendizados com o isolamento, aprendemos a trabalhar online, fiz várias lives ensinando a cozinhar. Mandei para casa de cerca de 500 pessoas ingredientes para que preparassem comigo os seus pratos. Mas nada como estar juntinho, né?

Abrir a Casa Capim Santo, um espaço para eventos, é acreditar na retomada…
Acabamos nos especializando em organizar processos e fazer de forma artesanal eventos de grande escala. Acho que o segredo é manter uma equipe apaixonada.

Você sempre fala do afeto como um ingrediente da sua cozinha. É possível ter tanto afeto em um meio que, dizem, requer tantos sacrifícios?
A cozinha pode ser um sacrifício, mas é um sacro ofício. Quando amamos o que fazemos, trabalhar muitas horas e a pressão não cansam. A adrenalina e o prazer de proporcionar prazer nos nutrem. Acredito que o afeto é o principal ingrediente de qualquer relação.

Foi o afeto que fez nascer o Instituto Capim Santo?
O Instituto Capim Santo nasceu do sonho de compartilhar técnicas gastronômicas com as pessoas. Mas, rapidamente, entendi que antes de treinar a mão, eu precisava nutrir o coração, que mais do que ensinar receitas, precisava trabalhar o lado comportamental.

A cozinha abre portas, gera mobilidade social?
Tenho um cozinheiro que se chama ‘Meia Noite’. Ele diz que a cozinha é uma maçaneta para o mundo. Acredito nisso – acredito que por meio do conhecimento podemos dar a oportunidade para que cada um seja protagonista da sua própria história.

O que acha dos chefs se transformarem em celebridades?
Temos celebridades em várias áreas. Para ter sucesso em algo, você tem que fazer bem feito o que você faz, tem que ter carisma… Para mim, sucesso tem a ver com felicidade. Quando você ama o que faz, você é alguém de sucesso.

Nas suas redes sociais, vida profissional e pessoal também se misturam…
Quando conheci meu marido ele primeiro me disse que sonhar pequeno era ter pesadelo. Depois disse que estava sempre trabalhando, nunca trabalhando, sempre de férias, nunca de férias, sempre cansado, nunca cansado, sempre de dieta, nunca de dieta e eu me identifiquei. Pois não consigo separar a vida pessoal do trabalho. Vivo minha vida intensamente o tempo todo.

Fale um pouco sobre sua relação com o Itamaraty?
Em muitos países não conseguimos ter cozinheiros brasileiros em nossas embaixadas, então a ideia é capacitar os cozinheiros locais para que possamos receber com nossa identidade. Somos cinco chefs selecionados no projeto: eu, Janaína Rueda, Manu Buffara, Saulo Jennings e Paulo Machado.

E com tudo isso você ainda tem tempo para escrever?
Tenho oito livros lançados e outros oito no forno, quase prontos. O próximo é o Axé – sobre a relação da cozinha com a mitologia dos Orixás, que estou fazendo com o babalorixá Paulo de Oyá.

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