“Nunca houve tanto ex no mundo”, diz Oswaldo Montenegro que retoma a turnê do ex-amor

“Nunca houve tanto ex no mundo”, diz Oswaldo Montenegro que retoma a turnê do ex-amor

Sonia Racy

30 de agosto de 2021 | 00h50

Oswaldo Montenegro em seu apartamento no Rio de Janeiro. Foto: Kamila Pistori.

Preparado antes da pandemia, o show Balada para um Ex-Amor conversa com os tempos atuais, em que os cartórios registram grande aumento no número de separações. “Nunca houve tanto ex espalhado pelo mundo”, diz o cantor Oswaldo Montenegro, de 65 anos, que saiu das relações, mas se tornou amigo das ex: a atriz Paloma Duarte e a flautista Madalena Sales – parceira de música há 45 anos.

O compositor fez show no Tom Brasil, em SP, neste fim de semana com os ingressos esgotados e fará outro em São José dos Campos, em 20 de novembro. São já 80 apresentações suas acumuladas, adiadas por conta da crise sanitária.

Montenegro passou a infância em São João del-Rei, influenciado pelas serestas, barroco e as coloridas casas coloniais mineiras. Ele mesmo pinta seu apartamento no Leblon no Rio para viver dentro de um quadro.

Dirigiu, escreveu roteiros de quatro longas-metragens, séries; compôs trilhas para filmes e balé, além de produzir para teatro. Sua peça foi censurada em Brasília pela ditadura militar, “a censura é abominável em si”, diz. Defende a democracia, mas se esquiva de fazer críticas aos programas do governo federal na área cultural. Confira a entrevista concedida à repórter Paula Bonelli, semana passada, por videoconferência.

Como surgiu seu último single Respire Fundo.

Normalmente, eu gravo as músicas que componho e às vezes eu enjoo de mim e dá vontade de cantar alguma coisa de outra pessoa. No caso aí eu escolhi o Walter Franco, que é um compositor que admiro muito. E o tema da canção atualmente me é muito caro. A escolha do Respire Fundo foi exatamente a vontade de alguma maneira contribuir para a paz, o bem-estar de quem estava ouvindo.

Ele tem um tom religioso?

Eu não tenho religião definida, acho que é um tom que sugere mais a meditação. Não há, porém, nenhum pensamento filosófico que eu admire mais do que o de Jesus. Porque todos os filósofos sempre tentaram apontar o que seria a vida boa. Para Aristóteles, é quando você faz aquilo que você nasceu pra fazer; para Nietzsche é quando você explora a sua potência ao máximo. E para Jesus a vida é boa quando você sente felicidade pela alegria do outro. Esse pensamento insuperável.

 Você continuou pintando as paredes do seu apartamento na quarentena?
Continuei. Isso funciona para mim como um grande divertimento, quase como uma terapia, e eu pinto sempre de cores muito alegres, para que seja quase que uma casa de criança. Eu decidi que queria morar dentro de um quadro infantil. Quando meu neto vem pra cá, eu sinto que nesse quesito eu acertei, porque para ele é uma coisa absolutamente normal.

Existe a ansiedade do artista por fazer hits?

No meu caso, não. É claro que o hit me dá muito prazer, que o sucesso é sempre bem-vindo, a gente vibra com ele. Mas eu gosto dessa situação em que muitas canções são conhecidas e apenas algumas são muito conhecidas. Eu acho que estabelece uma relação de cumplicidade com o público, de menos desgaste, porque o veículo de massa te coloca num lugar que tem até um pouco de desconforto, fica exposto demais, não é um lugar que eu me sinta muito bem.

Sobre a volta aos palcos, o público está comparecendo?

Sim, está comparecendo. No nosso caso, a volta aos palcos presencial ocorreu no último final de semana em São Paulo no Tom Brasil com os ingressos todos esgotados nos dois dias. Havia 80 shows marcados que a pandemia estraçalhou Agora vamos ter que cumprir, vamos ter que remarcar essa agenda. Olha só, vai ser um trabalhão.

De que modo a turnê Balada para um Ex-amor conversa com os tempos atuais?

Antes o show era muito baseado na ideia de retratar esse tempo que a gente vive que é recorde de ex. Eu procuro falar das diversas separações: quando o ex se torna muito amigo; aquela que causa muita dor; a que você não se recupera e aquela em que sente grande alívio. Agora com a pandemia, além dessa abordagem, eu retomei canções sobre outros assuntos como Lista, Intuição, Bandolins.

E as suas separações?
Tenho um privilégio na vida: sou muito amigo das minhas ex, mas muito mesmo. Se você viveu um tempo importante, tem que sobrar coisa bonita, e para mim isso se confirmou.

Você e Paloma Duarte se separaram em 2009, após seis anos casados. Por quê?

Paloma é uma pessoa excepcional, com quem eu conto nos momentos difíceis. Foi um caminho normal da coisa se fraternizar. Viramos amigos.

Você tem uma música que reflete sobre amor sem sexo.

Muitas. Quando tem aquele bem-querer sem o fogo, sem o ciúme, é uma coisa inegavelmente linda. E como dizia o meu grande amigo Domingos Oliveira: amar é querer bem ao outro. Lua e Flor é uma música que eu fiz quando eu estava em uma turnê em Portugal e fiz para a Adriana Sales, flautista que toca comigo desde os 15 anos, fomos namorados na adolescência e hoje somos irmãos. Então é uma canção que pode até soar romântica, mas é feita para uma irmã.

Os novos formatos familiares já são bem compreendidos no Brasil e são positivos?

Não sei falar em termos de massa, estatisticamente, mas os novos formatos familiares são inevitáveis. Eles são bem-vindos. Todos que tiverem como conteúdo o amor terão que ser aprovados, cultivados e aplaudidos.

Como se tornou pai do filho da Madalena, o caminho da adoção?

A gente já não namorava há muito tempo. Nós já éramos irmãos e aí ela ficou grávida, o cara foi morar na Europa e eu acompanhei a gravidez esse tempo todo, fui pra sala de parto com ela, e desde que nasceu eu já o sentia como filho, mas depois isso foi se aprofundando mais ainda, ele me sentiu como pai e hoje tem o meu nome e eu nem me lembro que seja adotado. É um amor que não tem como descrever, é um amor insuperável.

Gostaria de falar agora sobre como avalia a gestão cultural do governo federal.

Não há dúvidas de que a cultura é uma coisa importante. O problema do Brasil é muito mais ético do que político. A polarização está fazendo com que pessoas de bem acabem odiando pessoas de bem, quando o problema são os ladrões, que exploram um povo tão bacana. Eu não entro nessa campanha de ódio seja de que lado for, defendo teses inegáveis, como: democracia, liberdade, respeito, e entre essas teses está a cultura.

E como lida com as críticas às suas músicas?

Aceito elas. O artista tem que ter uma marca, uma impressão digital, e se você coloca a sua assinatura, obviamente vai ter alguém que não gosta. Acho que o sucesso do artista começa quando alguém não gosta dele.
De que modo a infância em São João del-Rei te influenciou na música?
Foi determinante na minha vida, porque ali eu comecei a ligar a música ao afeto. Meus pais saiam com os seresteiros de Minas Gerais na madrugada, me levavam junto, e aquilo invadiu a minha alma de uma doçura que até hoje eu persigo.

Depois foi para Brasília, chegou lá na ditadura militar?

Eu cheguei em Brasília no auge da ditadura militar, e ainda como adolescente, a minha peça foi censurada, ela chamava Jesus Cristo – Rei do Cangaço. Era uma analogia juvenil, que não escreveria hoje, mas que foi recebida pela censura como uma grande ofensa, eu fui chamado lá e senti medo. A censura é abominável em si. Eu tinha 17 anos, um garoto, e as pessoas falaram comigo como se eu fosse um bandido.

E o teatro continuou presente na sua carreira?

Sim, eu fiz teatro e cinema por paixão, porque adoro arte, mas principalmente devido à uma certa incapacidade minha de viver fora dela. Fora da arte a melancolia me pega, a ansiedade me toma e a depressão me invade. É assim…

 

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