‘Nunca deixei pra amanhã o que posso falar hoje’, diz Alcione

Sonia Racy

06 de setembro de 2021 | 00h28

Cantora comemora volta aos palcos e aguarda ‘ansiosa’ seu musical biográfico

Alcione. Foto: Marcos Hermes

Com 45 anos de estrada, “sem brecha”, como gosta de lembrar, Marrom comemora sua volta aos palcos – sábado, com o show Tijolo por Tijolo, no Tom Brasil – após quase dois anos sem se apresentar. “Nunca tirei férias. Essa pandemia me deu férias forçadas, mas agora já vou voltar pra atividade de novo”, disse à repórter Sofia Patsch durante entrevista por telefone, direto de sua casa no Rio de Janeiro.

Em 2022 Alcione vai ganhar um musical biográfico de Miguel Falabella. “Tinha que ser o Miguel, ele é craque”, disse a cantora, que está muito feliz com a homenagem. “Fiquei muito envaidecida”, confessou a quarta filha de uma família de nove irmãos, todos nascidos no Maranhão, de onde saiu aos 19 anos para cantar na noite carioca e acabou conquistando o mundo. “Já cantei nos 36 países”, diverte-se.

Outra coisa que Alcione sentiu falta nessa pandemia foi de fazer festa. Conhecida por ter muitos amigos e ser agregadora, ela adora receber e cozinhar, “minha especialidade são pratos do mar. Faço uma torta de caranguejo divina”, disse.

Notívaga assumida, a cantora emprestou seu nome para um bar na Barra da Tijuca, onde, vez ou outra, dá uma palhinha. “É um lugar muito confortável, com muita gente amiga, tem um visual parecido comigo, com a Mangueira”. Confira os melhores trechos da conversa a seguir.

Como está a expectativa de se apresentar em um palco depois de tanto tempo?
Muito grande, porque depois da pandemia sabe como é que é, a gente fica louca pra botar o pé no palco pra valer.

Sentiu muita falta do palco nesses tempos aí?
Muita. Não há quem não tenha sentido, não acredito que alguém não tenha sentido.

São 45 anos de carreira?
Não é? Sem nenhum brecha, sem nenhum espaço, ai veio essa pandemia e fui obrigada a ficar tanto tempo sem contato com as pessoas. Nossa senhora, preciso renovar isso.

Nunca deu um tempo na carreira, só agora na pandemia?
Nunca dei um tempo porque sempre gostei do que faço. Nunca tirei férias. Essa pandemia me deu férias forçadas, mas agora já vou voltar pra atividade de novo. Gosto, porque acho que o nosso corpo tem que estar ativo. Principalmente a cabeça, né. Especialmente a cabeça.

Vai ganhar um musical biográfico do Miguel Falabella ano que vem. Como está a expectativa?
É. Miguel Falabella. Lógico, tem que ser com ele, o craque. Não vejo a hora de ver esse musical estrear, graças a Deus nós já estamos, quer dizer, nós não porque eu não tenho nada com isso, ele que prepara tudo junto com o João Santana, são eles, não vejo a hora de ver acontecer.

Foi o Miguel que veio atrás de você com essa ideia, vocês já eram amigos?
É. Nós somos amigos, sempre fui muito fã de Miguel Falabella, além de muito generoso, é um cara muito confiante, inteligente, trabalhador. Sempre gostei muito dele. E aí, quando ele falou em fazer o meu musical, fiquei muito vaidosa e tô muito feliz que isso vai acontecer.

Conta algum fato curioso da sua carreira que ninguém conheça.
Tenho tantas histórias da minha carreira. Meu Deus do céu. Sempre gostei de tocar um trompete. Quando comecei a cantar na noite carioca, colocava o meu trompete numa sacola. Um dia, passou um camburão da polícia, parou perto de mim e um policial disse: “oh neguinha, o que é que você leva nessa sacola?”. Falei neguinha é seu passado, nunca deixei pra amanhã o que posso falar hoje. Por causa disso ele falou que eu era muito abusada. Entra aqui. Mandou eu entrar no carro da polícia. Estava presa, minha colega.

Não gosta de deixar para amanhã o que pode falar hoje. Ano passado teve uma discussão com Sérgio Camargo (presidente da Fundação Zumbi dos Palmares) após algumas declarações que ele deu. Recentemente Camargo foi acusado de assédio moral por funcionários da fundação, o que pode falar sobre isso?
Aquele homem é um imbecil, não vale nem a pena falar desse homem. Vou dizer uma coisa, se eu me pego de frente com ele, dou-lhe uma pedrada ou dou na cara dele. Mas sinceramente, não vou sujar minha mão com essas coisas.

Como uma mulher negra e tão respeitada por todos, como vê o lugar de fala das mulheres negras na sociedade de hoje, perto de quando começou sua carreira?
Acho que ainda precisamos preencher muitos lugares, precisamos estar mais na política, estar mais no seio das coisas que acontecem nesse País. Acho que falta muitas coisas ainda pra nós, mulheres negras, mas também acho que já melhorou muito do que era. Inclusive as mulheres do movimento negro, as mulheres negras têm hoje um posicionamento maior. E é partindo disso aí que acho que vai alavancar uma série de coisas muito boas.

Gosta de receber amigos, de festa, de cozinhar. Conta um pouco desse seu lado agregador.
Pra falar a verdade, sempre gostei. Com a pandemia não pude fazer esses encontros, mas sempre gostei de fazer festa, cozinhar para as pessoas, de pensar em um cardápio para as pessoas virem pra minha festa, comer bem, conversar. É isso aí, festa é pra isso, é pra agregar.

E o que é que você gosta de cozinhar?
Gosto de fazer coisas do mar. Bobó de camarão, torta de camarão, torta de mexilhão, faço torta de caranguejo que vocês não imaginam.

Sua formação é professora primária? Já chegou a exercer?
Sim, cheguei a exercer quando morava em São Luís. Entrei no lugar de uma professora que tinha saído de férias, ocupei o lugar dela durante o tempo em que ela esteve viajando. Ensinava música e português, teoria musical. Gostei dessa época, mas não sou uma boa professora, não (risos).

Como professora, é uma excelente cantora…
Isso aí tudo bem, posso me comprometer.

Começou sua carreira se apresentando na noite carioca. Como foi a decisão de sair do Maranhão e vir para o Rio cantar?
Quando decidi que vinha pro Rio, também decidi que vinha pra cantar. Mas claro que não é só chegar no Rio de Janeiro e sair cantando, tem que conhecer os caminhos. Passei um bocado de tempo cantando na noite, pra depois vir cantar profissionalmente. Cantei muito com Emílio Santiago, com Djavan naquela praça perto do Leblon.

Foi nessa época que se tornou a Marrom?
A Marrom surgiu em uma viagem ao Nordeste, um amigo me botou esse apelido, ele chamava a mulher dele de Marrom, ela também era uma mulher negra, uma mulata, e começou a me chamar de Marrom também. E não é que o apelido pegou até hoje.

E gosta desse apelido?
Não tenho nada contra, pelo contrário, as pessoas me chamam de Marrom com muito carinho.

Abriu recentemente um bar na Barra da Tijuca, como está indo o negócio?
Na verdade só emprestei meu nome. As pessoas gostam demais de lá, tem um visual parecido comigo, com a Mangueira. De vez em quando saio de casa pra dar uma palhinha lá no bar, é um lugar muito confortável, tem muita gente amiga, gente conhecida, gosto muito. Gente que gosta da noite.

É uma pessoa notívaga?
Sim, bastante. Gosto da noite, gosto mesmo.

É verdade que mantém uma coleção de bonecas até hoje? De onde vem essa paixão?
Já tive 300 bonecas, separei um quarto da casa só pra elas. A paixão vem desde que era menina e tinha vontade de ter uma boneca, ai no dia que eu pude me sustentar falei: vou comprar quantas bonecas eu quiser. Aí comprei logo 300 (risos).

Como foi sua infância lá no Maranhão?
Minha infância foi pobre e feliz. Porque nós sempre tivemos criatividade pra construir nossos brinquedos, meus irmãos construíam os carrinhos deles de rolimã, eu costurava minhas bonecas. Nós construíamos nossos brinquedos. Tive uma infância, graças a Deus, muito criativa e feliz.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.