‘Nosso cinema precisa ter coragem para falar sobre a classe média’

‘Nosso cinema precisa ter coragem para falar sobre a classe média’

Sonia Racy

24 de março de 2014 | 01h00

Foto: Iara Morselli/Estadão

A passagem do tempo é o mote da atriz, que, além de estar no elenco de Entre Nós, estreia seu segundo documentário, uma declaração de amor ao Los Hermanos.

Maria Ribeiro está transbordando de alegria. O motivo é o filme Entre Nós, dirigido por Paulo e Pedro Morelli, que estreia dia 27 e no qual atua. O longa – que conta a história da passagem do tempo para um grupo de amigos – é, segundo a atriz, “uma marmelada”, no bom sentido. “Ficamos muito amigos. A gente podia passar a vida inteira lançando esse filme, queríamos fazer uma série. Foi incrível e muito louco”, conta, entusiasmada, à coluna durante a rotina de lançamento em SP.

O que ela diz não é à toa. No elenco do filme estão seu marido, Caio Blat, e sua melhor amiga, Carolina Dieckmann. Indagada sobre como é filmar com pessoas tão íntimas, a atriz conta que procura não trabalhar com o marido, mas que esse projeto foi irresistível.

Quanto a Carolina, enche a boca para tecer elogios: “Sou amiga dela desde os 19 anos, embora sejamos muito diferentes. E, durante as filmagens, participei de uma mudança dela como artista. Isso foi uma coisa tão bonita para a nossa amizade, porque ela faz um trabalho esplendoroso no filme”, diz, emocionada.

As relações afetivas são o mote de muitos trabalhos da atriz, como os dois documentários que dirigiu: Domingos – sobre o diretor Domingos de Oliveira – e Los Hermanos – Esse é só o começo do fim da nossa vida – que estreia em SP dia 11, no Festival É Tudo Verdade. “Os dois filmes têm um discurso de amor muito forte, muito corajoso, quase rasgado”, explica. Sobre a banda, adianta aos fãs: “Não quis falar sobre a separação, as brigas. O que vi foi um grupo de amigos que têm um laço fortíssimo”. O afeto também percorre o próximo longa da atriz/diretora, este sobre seu pai: “Acho que acabei virando documentarista”, ri. Ou escritora. Ela prepara um livro de crônicas reunidas com ilustrações de Rita Wainer, a ser lançado em julho pela editora Língua Geral.

Além dos projetos autorais, Maria expõe, semanalmente, suas opiniões sobre os mais diversos assuntos no programa Saia Justa, no GNT. “Topei fazer. Assinei o termo de estar nesta vida para ser quem eu sou”, comenta, emendando que foi aconselhada a fechar redes sociais: “Prefiro ter um Instagram aberto do que fazer um comercial de xampu com meu marido. As pessoas que me seguem são as que me escutam no programa. Minha arte vem da minha vida, não vou fingir que não tenho filhos, marido”, afirma ela, que é mãe de Bento, 4, João, 10, e casada há seis anos com Caio. Indagada sobre feminismo, é enfática: “Não tenho muito saco para sexismo em geral. Quero que seja normal e não uma categoria. Sei lá, quero que meu marido conserte meu carro, não quero trocar pneu, entendeu?”.

A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Entre Nós é sobre amigos. E vocês ficaram tão próximos que até seguiram o roteiro do longa e escreveram uma carta para ser aberta daqui a dez anos.

Sim! Desde o começo pensei: ‘Cara, esse é o tipo do filme que eu poderia ter escrito, que eu quero fazer’. São as questões que me importam na vida: a passagem do tempo, pensar quem eu era, quem eu vou ser…E minha personagem tem uma coisa meio ingênua, de reunir os amigos, de adolescência, que eu não consigo ter. Fujo de encontros de turma. A gente vai mudando muito no decorrer da vida, não quero encontrar quem eu era aos 20 anos, porque acho dolorido.

Você fez o filme com seu marido, Caio Blat, e com sua melhor amiga, Carolina Dieckmann…

Esse filme foi uma marmelada (risos), no bom sentido. Tanto que eu e a Carol fizemos o teste. Eu procuro não trabalhar com o Caio. Não fazemos comercial juntos. Mas, às vezes, aparecem projetos que são mesmo irresistíveis.

Entre Nós foi um deles?

Sim. Fiquei muito a fim de fazer. Porque falava sobre amizade, sobre passagem do tempo, num sítio, durante um mês… Sobre as escolhas que a gente vai sendo obrigado a fazer na vida. É tão comum isso, né? Coisas que a gente tem de abrir mão, porque precisa pagar as contas. Vamos endurecendo, ficando céticos. E aí foi muito interessante, porque, independentemente da amizade com a Carol, aconteceu uma coisa muito especial.

O quê?

Eu e ela nos conhecemos quando ficamos dois anos em cartaz com Confissões de Adolescente. Eu tinha 19 anos, ela 16. Somos melhores amigas, mesmo sendo muito diferentes. As pessoas não entendem isso (risos). Durante o processo do filme, a Carol me confessou que estava um pouco tensa com a improvisação. Ela está muito acostumada a decorar texto, ao contrário de mim, que venho do Tropa de Elite, Fátima Toledo, só improviso. Mas foi lindo, eu participei de uma mudança da Carol como artista. Isso foi uma coisa tão bonita, porque ela faz um trabalho esplendoroso no filme. Eu até me emociono de falar…

O filme trata da passagem do tempo. Acha que, no cinema brasileiro, ainda faltam temáticas existenciais, como há na Argentina? Ainda estamos muito apegados às questões sociais?

Vivemos um momento ruim, de segmentação do cinema brasileiro. Há muitos filmes para atrair público que desprezam a inteligência do espectador. Particularmente, eu gosto de filmes que falam de relações. Gosto de cinema argentino. Acho que o cinema brasileiro tem de ter mais coragem para falar sobre a classe média. Porque, se você retrata verdadeiramente uma relação, não importa a classe social, você alcança qualquer público.

Seu documentário Los Hermanos – Esse é só o começo do fim da nossa vida será exibido em abril no É Tudo Verdade. Por que decidiu fazer esse filme?

Outro dia me perguntaram qual era a conexão dos meus dois documentários – Domingos com o Los Hermanos. Os dois têm um discurso de amor muito forte, corajoso, quase rasgado. Queria mostrar que não só eles são músicos incríveis, mas que mantinham uma atitude muito legal de não fazer sucesso a qualquer custo. Eles estão sempre com a mãe, com a avó (risos). O que tenho gravado – camarins, vans, ônibus – ninguém tem. O que vi foi um grupo de amigos que têm um laço fortíssimo, que se separou porque queriam fazer coisas novas. Foi uma opção artística.

Você não quis mostrar a separação da banda?

Meu pai, antes de morrer, disse: “Com gente de bem não precisa de contrato. Com gente errada, não tem contrato que amarre”. Minha relação com o Los Hermanos é assim. Somos legais (risos). Por isso eles me permitiram entrar na intimidade deles. Não estou interessada em falar sobre por que a banda acabou, mas sobre a amizade, a chegada aos 40 anos.

Você usa o Instagram. Acha que expõe muito sua vida?

Não concordo com essa divisão de Instagram fechado ou aberto. Não quero fazer do meu Instagram um business. As pessoas me aconselham a ter um fechado, para postar fotos dos meus filhos, e um aberto, para outras coisas. Mas eu faço o Saia Justa, onde me exponho. Eu topei. Assinei o termo de estar nesta vida para ser quem eu sou. Prefiro isso do que fazer um comercial de xampu com meu marido. As pessoas que me seguem são as que me escutam no Saia, e minha arte vem da minha vida.

E os seus filhos?

O João tem 10 anos, eu posto foto, ele é lindo e já foi chamado para fazer 200 trabalhos, novela, mas eu não deixo. Eu disse: ‘Quando você tiver 20 anos, se quiser estudar e fazer isso da vida, ok. Mas agora você é uma criança’. Não vou fingir que não tenho filho, marido e fazer um Instagram asséptico, não sou asséptica na vida.

Você afirmou que não se considera uma feminista.

Tenho bode dessa coisa de Dia Internacional da Mulher. Não quero um dia, quero que seja normal, não uma categoria. Não tenho muito saco para sexismo em geral. Sei lá, quero que meu marido conserte meu carro, não quero trocar pneu, entendeu? A gente tem uma estrutura física mais frágil. Ao mesmo tempo, em casa, sou superforte, às vezes até masculina. Mas não acho que isso tenha de ser uma bandeira, nem para um lado nem para o outro. O feminismo foi fundamental para a gente viver o que vive. Mas, hoje em dia, deveria prescindir da questão.

Você queria ser mais inteligente do que bonita. Depois, mudou de opinião. E hoje?

Quero os dois (risos). Passei muito tempo da minha adolescência preocupada em ser inteligente e fui tarde curtir a vida. Estou ficando mais velha e quero aproveitar cada idade com o que ela tem. Não quero pirar no botox. Quero poder ser bonita de outras maneiras. Claro que você vai perdendo a beleza física, por isso é importante construir outras coisas. Quero ser como a Susan Sarandon (risos), uma mulher interessante.

Você também se diz contra bandeiras em geral.

Tem uma frase do Millôr Fernandes que eu amo: “Desconfio de qualquer idealista que lucra com seu ideal”. Gosto de confundir, me confundir, mudar de ideia. Não quero acreditar que sou uma coisa única.

Você fez parte do Tropa de Elite, e a violência do Rio de Janeiro está nas manchetes novamente. Como vê a situação da cidade onde vive?

O Brasil é uma barbárie. Quando a Rachel Sheherazade falou aquilo sobre os justiceiros, pensei que ela era ignorante. Mas, ao mesmo tempo, as pessoas não têm nenhuma consciência. Acho que tinha de colocar essa mulher no poste. Nosso País é racista, o que a gente vive é inaceitável. Teve um menino de 8 anos que morreu espancado pelo pai porque ele gostava de lavar louça. É um país machista.

O caso mais recente é o da auxiliar de serviços gerais Cláudia Silva Ferreira (que foi arrastada por um carro da Polícia Militar e morreu).

Fiquei absolutamente chocada. Não existe uma política de segurança que se preocupe com o cidadão. Nossa polícia trabalha na barbárie. As UPPs, sozinhas, não seguram a onda. Os policiais não têm nenhum preparo, ganham mal e saem de casa pra morrer. O Tropa de Elite abriu essa questão, só que pouco mudou desde então.

E a pacificação?

Se junto com a pacificação chegasse investimento em escola, segurança, preparação policial, seria lindo. Mas só a pacificação? O pedreiro Amarildo foi morto dentro de uma UPP. Mas não tem de pegar essa caso para fazer publicidade. “Amarildos” acontecem todos os dias. /MARILIA NEUSTEIN

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