‘Nosso cinema está mais maduro’

‘Nosso cinema está mais maduro’

Redação

18 de maio de 2009 | 07h27

Ao trocar a O2 pela Celluloid Dreams, o cineasta Heitor Dhália sonha alto e quer buscar o grande mercado sem perder a arte

O cineasta Heitor Dhália está saindo da produtora O2. Após três anos de trabalho com Walter Salles e Fernando Meirelles, vai comandar sua própria empresa – a Celluloid Dreams Brasil, o braço nacional da companhia. A notícia será anunciada amanhã, no Festival de Cannes, onde seu filme À Deriva briga por um prêmio. Sem medo da crise, que considera um desafio à criatividade, ele vê o mercado brasileiro mais maduro e diz à coluna que pretende investir em filmes de qualidade, mas “que as pessoas queiram ver”, ao contrário do que ocorreu com seu primeiro longa, Nina. A seguir, trechos da entrevista:

O Brasil tem mercado, hoje, para consumir seus próprios filmes? Temos filmes que fazem muita bilheteria, um cinema mais de mercado, cada dia mais maduro na comunicação com o público. Mas o fortalecimento dos mercados locais é uma tendência. Os americanos sacaram isso e estão descentralizando, fazendo acordos localizados.

Como responsável pela Celluloid no Brasil, vê a crise como um problema? É uma hora em que o mundo precisa se reinventar, as velhas respostas não são mais válidas. É como o ideograma chinês: crise e oportunidade têm o mesmo significado. E eu também estou me reinventando.

De que modo? Minha filosofia será a criação. As pessoas se movem pelo desejo, devem atuar de acordo com o desejo delas, não o da companhia. Por exemplo, o criador do Facebook era um cara do Google, onde o princípio é você ter 20% do tempo para projetos pessoais. Quero fazer mais de 20%, e isso tem muito a ver com aCelluloid e a Paranoid, que são superlivres.

Na prática, como será a Celluloid Dreams Brasil? Uma butique, um ateliê. Com foco na qualidade. Filmes grandes, jovens diretores, ideias ousadas, foco no mercado internacional. Talvez seja a primeira empresa internacional de cinema vindo para o Brasil. Eu desconheço outras. Teremos roteiristas de fora, filmes em inglês, português e espanhol, também com produtores brasileiros. Queremos centrar no trabalho criativo. Não na estrutura, que será enxuta.

Como você chegou a essa parceria com a Celluloid? Fui a Los Angeles mostrar um roteiro e conheci a Hengaméh Panahi, uma iraniana visionária, dona da Celluloid Dreams. Ficamos na mesma casa e ela disse: “Adoro seus projetos e filmes, quero ser sua produtora internacional”. Eu pedi para ter a marca no Brasil – a Celluloid já tem braços na Alemanha e no Japão. Montamos a sociedade: eu, o produtor Patrick Siaretta, fundador da Casablanca/TeleImage, a Hengaméh, a produtora Tatiana Quintella e o Fernando Menocci na área de finanças e estrutura.

A saída do O2 está sendo fácil? Chegou a hora de dar um passo adiante, eles entenderam. A Celluloid é um selo muito chique. É mais uma prova de maturidade do mercado local. Alguns diretores já vêm apontando para esse caminho, como o Waltinho (Moreira Salles) e o Fernando (Meirelles).

E vai dar dinheiro? Com certeza. São projetos grandes. E estamos abrindo uma empresa de publicidade com a Paranoid. Para trabalhar projetos de cinema, publicidade, ficção.

Por que é importante tornar a produção internacional? Por duas coisas. Uma, que vamos continuar fazendo filmes para o mercado local, em português. Mas queremos que os filmes viajem o mundo. O filme francês é visto no mundo inteiro, o americano também. A gente quer apostar na qualidade, para ter chance no mercado internacional.

Quais são os projetos da Celluloid Brasil? Temos dois mais adiantados: Uma Mulher e uma Arma, um road movie rodado na Patagônia. Os atores serão internacionais, do “time A”. Teremos também atores espanhóis e argentinos e produtores daqui. O outro projeto chama-se Serra Pelada, A História do Garimpo, um faroeste na Floresta Amazônica. Mistura a corrida do ouro, cem mil trabalhadores na maior mina a céu aberto do mundo, o campo sem lei em que se transformou a região, com um toque de Martin Scorsese. É um Sangue Negro com mais violência, porque vivido em ambiente mais cru.

Na época de “O Cheiro do Ralo” vocês captaram pouco… O dinheiro virá de onde? Não captamos nada. No roteiro o pessoal dizia “Isso vai ser um lixo”. E quando eu disse que ia filmar com R$ 300 mil, até riram. Mas eu acreditava muito. Neste caso, o dinheiro será misto. Terá lei de incentivo e dinheiro estrangeiro, os sócios têm capital.

Você tem acompanhado as propostas para a Lei Rouanet? Não é muito minha área, mas defendo que seja aprimorada ao máximo. É um mecanismo de uso do dinheiro público absolutamente necessário para a indústria.

Muita gente acha que o cinema brasileiro anda viciado nesses incentivos. Nenhum mercado, fora o americano, sobrevive sem ajuda estatal. Defendo que continue. Mas o mercado deve buscar outras maneiras de se financiar. Os últimos dois filmes que fiz foram uma combinação de dinheiro próprio, estrangeiro e de captação.

Vocês têm projetos nesse sentido? A Celluloid Dreams internacional tem um projeto chamado The Auteurs (Os Autores), uma comunidade internacional de cinéfilos. É um projeto visionário, que disponibilizou vários filmes da Criterio Collection, de filme de artes. Você debate filmes, discute plataforma para lançamentos, divulgação, festivais.

Quando você fala em fazer um filme que as pessoas vejam, está com um espírito diferente do que tinha ao fazer Nina? Sim. Eu assumi uma proposta muito intransigente, não estava interessado no diálogo. E foi meu primeiro filme, eu queria romper. Acabou sendo mais pesado do que eu gostaria, mas Nina foi muito sincero. Acho que À Deriva será o meu filme mais querido.

É um sinal de que está fazendo as pazes com o mundo exterior? Talvez. Quem sabe esteja vindo por aí um lado meu mais solar. Acho que a vida é muito dura, mas o pessimismo não ajuda em nada. Por outro lado, não quero um otimismo ingênuo. A base da dramaturgia é o conflito, mas entendo que fazer uma obra de arte já é ser otimista.

Por Débora Bergamasco

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