‘Nossa meta é fazer o DEM chegar forte em 2022’, avisa ACM Neto

‘Nossa meta é fazer o DEM chegar forte em 2022’, avisa ACM Neto

Sonia Racy

03 de fevereiro de 2020 | 00h41


ACM Neto. Foto: Lúcio Távora/A Tarde

 

 

Já em seu oitavo ano como prefeito de Salvador — a cidade passou da posição de 23 no ranking de gestão fiscal de capitais feito pela Firjan para o primeiro lugar, portanto em boas condições para fazer seu sucessor em outubro –, Antonio Carlos Magalhães Neto tem resposta pronta quando alguém lhe pergunta se ele poderia ser candidato a presidente em 2022. “Sou candidato a concluir meu mandato”, desconversa o presidente do DEM. “Preparei minha cabeça para, em 2021, mudar o chip e organizar o partido para que tenha papel protagonista na próxima eleição presidencial”.

O que não o impede de fazer cobranças. “Acho que o governo, em 2019, não olhou a região Nordeste como devia”, afirma, garantindo que essa não é “uma posição bairrista”, pois sempre procurou ter “uma visão nacional”. O que reclama é que “há um diferencial regional muito grande” no País, que pede “medidas compensatórias”.

Nesta conversa com a coluna, semana passada em Salvador, ACM Neto fez elogios ao governo Bolsonaro pelo empenho nas reformas, relatou sua experiência como prefeito em Salvador – tem 85% de aprovação e R$ 2 bilhões em caixa. E avisou: seu projeto este ano é “comandar o fortalecimento do DEM”, o que inclui ampliar as bases digitais, atrair jovens e mulheres e tentar emplacar prefeitos em 8 ou 10 capitais. A seguir, principais trechos da conversa.

O Brasil vive uma fase turbulenta, com a política, como disse o ministro Paulo Guedes, afetando a economia. Concorda com ele?
Desde que o mundo é mundo a política afeta a economia. As duas estão diretamente ligadas e é impossível imaginar uma decisão política que não tenha consequências na economia. Neste momento, ainda mais.

Não é o ritmo da economia que afeta o voto?
Exatamente. Se você volta a 2014, vê que a gente tem tido anos sucessivos de crise e baixo crescimento. Isso pesa na vida das pessoas. Eu ando nas ruas, vejo o efeito mais duro dessa longa crise que desde ainda não acabou. Neste momento, mais que em qualquer outro, a política interfere na economia. Mas se você olhar 2019, a interferência política foi mais positiva do que negativa.

Pode explicar isso?
O governo deixou claro seu compromisso com as reformas. O Congresso entendeu que vivia um novo momento na relação com o Executivo. Acabou aquela história de partido político que indicava ministro, presidente de estatal etc. Por outro lado, o Congresso passou a ter muito mais poder.

Ocupou o seu lugar, determinado pela Constituição?
Isso. O presidente fez uma opção, a de não manter um diálogo com os partidos. Isso trouxe a possibilidade de o Congresso agir com independência, o que não ocorria antes.

Na reforma da Previdência, o que ele fez?
Aí é que eu quero chegar. Em 2019 as posições na área econômica foram mais positivas que negativas, e o Congresso teve aí papel essencial. Sem ele não teria havido a reforma da Previdência. Temos de dar os méritos ao governo também, foi ele que encaminhou. Mas ele não teria conseguido aprovar essa reforma se o Congresso não tivesse consciência de sua importância para o País.

Houve alinhamento de Congresso, STF e Guedes, não?
Acho que houve uma mudança de humor na população. Até o final do governo Temer a grande maioria era contraria a essa reforma. Depois chegamos a uma situação tão crítica que as pessoas perceberam que não tinha outra saída – a opção seria conviver com desemprego e miséria. Além dessa mudança de humor, a imprensa teve um papel importante nisso.

Concorda com a queixa de Bolsonaro de que a imprensa está sempre atrapalhando?
Pelo contrário, nós que estamos na vida pública precisamos ser questionados, fiscalizados. Uma imprensa livre é essencial para a democracia.

A sua popularidade em Salvador também facilita essa avaliação. Ou não?
Eu fiz uma opção quando assumi a prefeitura: vou colher tudo que vem da imprensa e filtrar. Porque você não pode governar apenas pela cobrança que vem da imprensa. Nunca tive medo de corrigir rumo. Mas, no caso da Previdência, eu queria acrescentar o seguinte: ela tem de ser vista como o primeiro passo da reconstrução da agenda econômica do País.

Está sendo mencionado, em todas as previsões, que em 2020 o Brasil vai mesmo crescer. Como sente isso? Começando por Salvador e a Bahia?
Primeiro, nós esperamos que isso aconteça mesmo, né? Eu sinto, em Salvador, pelo aumento nas negociações de terrenos. O mercado imobiliário já se movimenta mais, construtoras consultam a prefeitura sobre projetos. Vejo, por exemplo, na arrecadação de ISS. E nós fomos, pelo Caged, a capital do Nordeste que mais gerou empregos.

Como você planejou, nesse ambiente, sua administração?
Estruturei um programa, o Salvador 360, que tem oito eixos e 360 iniciativas, para ativar a economia…O Centro de Convenções, inaugurado agora, é um exemplo das entregas do programa. Conseguimos costurar parceria e vender terrenos para viabilização do projeto que vai atrair feiras, negócios e shows.

No Brasil de hoje, políticos com habilidade para gerir estão ganhando espaço. Concorda?
É uma coisa que veio pra ficar. Nos ajuda a vencer uma página grave da nossa história – de populismo, de irresponsabilidade fiscal. A verdade é que a Dilma conseguiu quebrar o País. E a crise foi tão forte que a população acordou. A mudança de humor quanto à reforma da Previdência já foi um reflexo disso.

Esse pós-Lava Jato também veio pra ficar?
Acho que sim, e acho que o mundo hoje é outro. Muitas empresas tiveram que se reinventar, mudar a postura. Dou o exemplo as nossas novas obras. Estou fazendo uma BRT aqui, e na primeira etapa da licitação, a vencedora ganhou com desconto de quase 50%. Ou seja, tem muito mais disputa. E preços bem menores.

Como você vê o DEM para as próximas eleições?
Você diz 2022? O partido tem hoje uma posição política muito relevante, especialmente porque preside a Câmara e o Senado. Mas precisamos transferir isso para o que de fato importa, que é o voto na urna. Por isso, nossa prioridade absoluta é focar nas eleições municipais. Planejamos lançar de 8 a 10 candidatos a prefeito em capitais – quatro anos atrás era só um, que fui eu. Em suma, meu foco é estimular o maior número possível de candidaturas em cidades acima dos 50 mil habitantes. Até porque, com o fim das coligações proporcionais, qualquer partido, para sobreviver, vai ter que ter musculatura na base.

Que tipo de ações imagina para fazer isso?
Fizemos um trabalho ao longo de 2019 de reestruturação da comunicação e de estratégia para o digital ambiciosa, com o horizonte já em 2022. E começamos a montar uma rede, no Brasil todo, de militantes, multiplicadores que ajudem a repercutir ideias e posições do partido e a perceber o sentimento do cidadão comum. Articulamos com as direções estaduais para atrair pessoas de fora da política. Mobilizar jovens e mulheres e aproveitar 2020 como base para 2022.

O DEM preside hoje Câmara e Senado. Acredita que vão conseguir manter isso?
Temos de ver como ficarão as coisas até o fim do ano. Não discuti ainda esse assunto com o Rodrigo (Maia) e com o Davi (Alcolumbre). Quando conversarmos, o partido vai procurar, nas articulações no Congresso, manter a posição de protagonismo a partir do próximo ano.

O Rodrigo Maia tem se destacado como oposição?
Como oposição, não, isso é exagero. Ele tem tido uma postura de independência.

Nas municipais pretendem fazer alguma aliança, por exemplo, com Ciro Gomes?
Veja, o Democratas talvez seja um dos partidos, no Brasil, com melhor condição para dialogar com diferentes correntes. Temos dificuldade de construir aliança com o PT, com a esquerda clássica, mas fora isso não há restrição a falar com ninguém. Estou conversando com o presidente (Carlos) Lupi, do PDT, já estive com o Ciro, temos uma conversa entabulada sobre Salvador, sobre Fortaleza, São Luiz do Maranhão. Isso não quer dizer, entretanto, que o que se articular pra eleição municipal vai valer para 2022.

Ou seja, é uma eleição totalmente separada da outra.
Totalmente. E por que não tratar de 2022 agora? Porque não é o momento. É uma irresponsabilidade querer antecipar o calendário dessa maneira. E dentro do DEM há várias correntes, algumas próximas do governo, outras em ministérios. E os que gostariam de uma posição mais distante do governo. E como presidente tenho de dar conforto a todo mundo.

E em São Paulo o partido segue com o Doria pra reeleger Bruno Covas?
O caminho é esse. Claro que caberá a Rodrigo Garcia, como presidente estadual, conduzir o assunto.

E Garcia como candidato à sucessão do Doria em 2022?
Creio que esse é o projeto principal do DEM. Claro que isso passa pela decisão de Doria de não tentar a reeleição.

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