“Nossa fragilidade é o desmatamento e os crimes ambientais na Amazônia”, diz ministro Joaquim Leite

“Nossa fragilidade é o desmatamento e os crimes ambientais na Amazônia”, diz ministro Joaquim Leite

Sonia Racy

22 de novembro de 2021 | 04h00

O ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite. Foto: REUTERS/Adriano Machado

O ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite. Foto: REUTERS/Adriano Machado

Joaquim Álvaro Pereira Leite voltou animado de Glasgow, na Escócia, onde acaba de acontecer a Conferência do Clima, também chamada de COP-26. O ministro do Meio Ambiente trouxe na bagagem a criação do mercado global de carbono, que, segundo ele, é uma oportunidade de ouro para o Brasil mudar sua imagem diante do mundo. E o que é esse tal mercado global de carbono? Trata-se de um sistema em que os países ou empresas que atingem suas metas de redução de gás carbônico e de efeito estufa podem vender seus créditos excedentes a um país ou empresa que não bateu a meta.

Cada tonelada de gás carbônico equivale a um crédito de carbono – e cada crédito valia, até o fechamento desta edição, cerca de US$ 10. “O Alok Sharma (membro do Parlamento britânico e presidente da COP) elogiou a nossa participação”, conta Leite, que faz questão de ressaltar a presença de delegados da China, União Europeia e EUA no estande brasileiro. “Lideramos muitas negociações importantes para o meio ambiente e para o Brasil”, afirmou.

Como se deu a mudança de posição de Bolsonaro? Pressão externa? “O presidente entendeu a oportunidade da agenda ambiental, do crescimento verde e da geração do emprego verde. Foi ele que autorizou criar as bases de um programa conjunto, montado com 10 ministérios, que vão agora participar de comitê nacional para acelerar projetos verdes”, explica o ministro do Meio Ambiente para quem o Brasil não é parte do problema, e sim da solução.

 No Ministério desde 2019, quando assumiu o cargo de diretor do Departamento de Florestas, Leite conheceu os desafios do combate ao desmatamento ao atuar em um projeto de proteção ambiental na Amazônia, no começo da década. “A partir daquele momento, percebi a imensa oportunidade que a floresta representava para o progresso e o desenvolvimento do País.” Conhecido pelo perfil técnico, antes de se tornar ministro, em maio deste ano, foi um dos responsáveis pela volta da participação do setor privado no mercado de carbono de floresta nativa– que estava proibida desde 2015. “Porque os projetos privados são mais eficientes e geram muito mais proteção e empregos diretamente no território”, explica.

De postura diferenciada, Leite avisa que é preciso continuar atuando para resolver as fragilidades brasileiras, especialmente o desmatamento na Amazônia: “Nossa matriz energética não é um problema, nossa agricultura também não, nem o metano. Nossa fragilidade é o desmatamento e os crimes ambientais na Amazônia”. A seguir, os melhores momentos da conversa do ministro com a coluna.

Quais foram os resultados práticos da COP-26 para o Brasil?

Comemoramos, especialmente, por causa do mercado de carbono. Pelas características naturais e econômicas que ostentamos, temos a possibilidade de geração de créditos de carbono atualmente no mercado voluntário e, futuramente, no mercado regulado global. Comemoramos porque é uma oportunidade de o Brasil conseguir mais recursos para proteger florestas. Até 20159, havia uma proibição do uso de florestas no mercado de carbono, mas a gente conseguiu tirar essa proibição.

O que isso quer dizer, ministro?

Significa que o país passa a gerar crédito de carbono baseado na proteção da floresta nativa, em todos os biomas. E essa é apenas uma forma: geração de créditos recuperando áreas degradadas, plantando árvores, protegendo a vegetação nativa. Então, quando você garante que aquele estoque de carbono permaneça na floresta, é remunerado pelo crédito de carbono. Isso é muito importante para o Brasil, que tem cerca de 66% de seu território com vegetação nativa.

O que é o crédito de carbono?

Digamos que eu tenho uma siderúrgica/indústria. É uma atividade que emite certo nível de gás de efeito estufa. Quando eu mudo o processo industrial dessa atividade para um processo menos poluidor, ganho créditos de carbono. Custa caro fazer essa mudança. Muitas vezes, esse novo sistema, essa tecnologia é inviável economicamente. Então, esses créditos de carbono ajudam o projeto a ficar viável. Sem eles, eu não conseguiria trocar um forno na minha siderúrgica/indústria, por exemplo; com eles, eu faço essa mudança e passo a emitir menos gases de efeito estufa, porque posso vender esses créditos no mercado global.

 E quem compra esses créditos?

Os países ou empresas mais poluidoras porque 97% dos gases de efeito estufa do mundo estão fora do Brasil. Por isso eu digo que é uma grande oportunidade: o País vai conseguir trazer recursos privados dos grandes poluidores do mundo , principalmente das empresas poluidoras, as grandes emissoras de gases de efeito estufa, e compensar parte das suas emissões. Essas empresas vão buscar no mercado os melhores créditos, que serão os brasileiros.

Qual é o interesse desses países e dessas empresas em comprar créditos de carbono?

Existem atividades que não conseguem, por impossibilidade física e inviabilidade econômica, zerar as emissões de poluentes na velocidade que o mundo precisa. Algumas indústrias, como a de aviação, por exemplo, não conseguem zerar a emissão de poluentes por impossibilidade tecnológica. Isso vai acontecer no futuro, daqui a 10, 20 anos. Até lá, elas precisam compensar essas emissões. E, para isso, precisarão comprar créditos de carbono.

Como você entrou nesse mercado? Por que se interessou pelo tema?

Comecei a me interessar por esse mercado em 2013, quando fui administrar um projeto na Amazônia. A gente tinha uma estrutura de vigilância, monitoramento e proteção, brigadistas, equipamentos, só para manter aquela área de floresta nativa. Ali eu percebi uma oportunidade imensa para o Brasil.

Até 2013, o senhor estava na iniciativa privada e foi da Sociedade Rural Brasileira.

Sou de uma tradicional família de produtores rurais de café, e exatamente por isso tive experiências no agro que me levaram a entender que o mercado de carbono seria uma solução para o Brasil. Na época, era um mercado completamente voluntário e, em 2015, o governo acabou com os projetos privados nessa área, tornou tudo público. Somente em 2019 conseguimos reverter essa política e abrimos espaço para o setor privado voltar a atuar. Hoje, a demanda está maior que a oferta, e o preço da tonelada de carbono, que estava em US$ 2 ou US$ 3, já bateu em US$ 9 ou US$ 10. Isso aconteceu porque os projetos privados são mais eficientes, geram muito mais empregos, a eficiência do uso do recurso é muito maior.

Como o senhor e o ministério se prepararam para a COP-26?

Nossa missão era aprovar o mercado global de carbono. E a estratégia que montamos foi atuar previamente à COP com vários países, mostrando que o Brasil é, sim, um líder nas negociações. Durante as reuniões, ficou claro que os países em desenvolvimento mais frágeis entendem que o Brasil é a voz atuante para pressionar os países ricos, tanto pelo tamanho de sua economia quanto por suas características naturais. E também ajuda o fato de que temos um pouco de país frágil em algumas regiões, e um pouco de país desenvolvido e rico em outras; ou seja, temos problemas de emissão de poluentes por desmatamento e, ao mesmo tempo, problemas de emissão industrial. Poucos países têm essa mistura. Fizemos mais de 60 reuniões antes de a COP começar. E eu quis levar para a conferência um Brasil real, para mostrar uma imagem além das questões ambientais. No nosso estande, que foi o maior estande brasileiro de todos os tempos, reunimos mais de 100 casos do que estamos fazendo. E “virtualizamos” o estande em Brasília, porque nem todo mundo tem recursos para ir até Glasgow. E deu super certo, todo mundo que passou por lá pôde ver casos de sucesso do Brasil em todos os biomas, que vão da proteção à floresta à mineração sustentável.

Mas a questão do desmatamento ainda é bastante ruim para a imagem do Brasil, não?

O presidente deixou clara a preocupação com o desmatamento e desde que eu assumi o Ministério a gente vem integrando operação com o Ministério da Justiça para combater o desmatamento ilegal e os incêndios. Essa é uma ação. Mas o mais importante a ser dito é que o presidente entendeu que meio ambiente não é apenas punição, mas oportunidade. Oportunidade de crescimento verde, de geração de emprego verde. Junto com o presidente, lançamos as bases de um programa nacional de crescimento verde, coordenado por mim e pelo Ministério da Economia e com um comitê de 10 ministros, inclusive o do Trabalho. Porque é um comitê de clima que, além de trabalhar para reduzir emissão de gás de efeito estufa, conservar a floresta nativa e usar racionalmente

É uma chance  de recuperar a liderança do País na corrida ambiental?

O Brasil precisa continuar atuando contundente para resolver suas fragilidades, especialmente o desmatamento ilegal. Nossa matriz energética não é um problema, nossa agricultura também não, nem o metano. Nossa fragilidade é o desmatamento e crimes ambientais na Amazônia.

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