Há dois meses, a cientista brasileira Luciana Borio, nova assessora de Biden, não acreditava em aprovação de uma vacina rapidamente

Sonia Racy

10 de novembro de 2020 | 20h47

LUCIANA BORIO – PABLO MARTINEZ MONSIVAIS/ASSOCIATED PRESS

A brasileira Lucana Borio, um dos 13 nomes anunciados para integrar a “pandemic task force” de Biden, foi entrevistada recentemente pela coluna. A cientista-médica carioca, que já chefiou o FDA- a Anvisa americana- , declarou então que muitas empresas desejam que suas vacinas sejam autorizadas só porque estimulam resposta imunológica.  “Ah, estimulou a geração de anticorpos, vamos produzir”. Para Luciana, não é bem assim. “Uma vacina pode gerar anticorpos e eles não darem a necessária proteção contra a infecção. Às vezes, pode até piorar” , ponderou, indicando qual será sua linha mestra dentro do comitê criado pelo novo presidente americano para cuidar da pandemia. Se mantiver suas posições pré-governo, pôde-se deduzir que a vacina ou as vacinas contra COVID-19 não serão aprovadas tão cedo. E mais: vê com desconfiança a vacina chinesa porque os estudos iniciais deixaram a desejar. Confira a conversa, abaixo, de agosto deste ano.

 

O Brasil parece ter hoje 240 milhões de infectologistas, numa onda de informação e contrainformação. Como sairemos dessa?
Essa ‘desvalorização da ciência’ é uma coisa muito nova. Todo mundo dá palpite sobre o vírus, sobre máscaras, sobre como evitar a transmissão… Classifico de tragédia, a qualidade da informação nas redes, no Facebook. Tornou-se uma marca registrada da sociedade essa dificuldade de ter discernimento. Mesmo na imprensa, a qualidade do material é muito variável. E há lideranças de governos que não quiseram ou não souberam aderir aos fatos científicos. Acompanhamos aqui (nos Estados Unidos) um ataque muito forte à ciência, bem como no Brasil. Por exemplo, esse episódio da hidroxicloroquina.

Esse caso do remédio pode prejudicar o combate ao vírus?
Com certeza. É natural do ser humano ter uma esperança, achar que um milagre vai acontecer. Na verdade, é muito claro como se controla uma epidemia. O vírus se transmite pela proximidade do ser humano. Simples assim.

E quanto às vacinas?
Temos três à frente – a de Oxford, a da China e a americana da Moderna. Agora apareceu a vacina russa, que desperta enorme desconfiança entre cientistas.

Como avalia esse quadro?
Existem várias vacinas em desenvolvimento e algumas em estágios mais avançados. Várias delas são muito promissoras. Mas não há, ainda, como saber se teremos vacinas seguras e efetivas. Sequer conhecemos o suficiente sobre a covid-19. Se o vírus pode mudar, se transformar. Se a resposta imunológica das pessoas será duradoura o suficiente para combater o vírus. Temos ainda muitas perguntas sem respostas.

Estudos clínicos estão sendo conduzidos em ritmo acelerado, ainda que haja tantas perguntas… no ar.
Pois é, no ar. E olhe que vivemos num momento histórico para a ciência, com tecnologias que não existiam dez anos atrás. Aqui nos Estados Unidos, a FDA não vai autorizar a vacina se ela não se provar, em estudos clínicos, que previne de verdade a infecção ou a doença.

O que significa “de verdade”?
Muitas empresas querem que suas vacinas sejam autorizadas só porque estimulam resposta imunológica. Elas dizem: “Ah, estimulou a geração de anticorpos, vamos produzir”. Claro que não é assim. Uma vacina pode gerar anticorpos e eles não darem a necessária proteção contra a infecção. Às vezes, pode até piorar. Os anticorpos gerados podem agravar a manifestação da doença, como aconteceu com a vacina da dengue.

E aí o que acontece?
Por isso, para a FDA é muito importante que a vacina seja segura e efetiva. Não vão autorizar só baseado na resposta imunológica. Não temos como avaliar se essa resposta é suficiente para prevenir a doença.

Quanto tempo vai levar isso tudo?
Cada um desses estudos clínicos envolve mais ou menos 30 mil pessoas. São vários meses, tem de identificar os voluntários. São duas doses, quatro semanas de intervalo entre uma e outra. E ainda lidar com os casos que vão aparecer.

Um “long way” até que tudo isso fique claro, não é?
Olha, eu acho até que é um “short way”, curto. Porque, se não fizer desse jeito, não vamos resolver nunca.

Dá pra se confiar em uma vacina que saiu da China?
Até hoje os estudos publicados da China têm sido um desapontamento. Os estudos iniciais que publicaram deixaram muito a desejar. Ainda lhes falta muito para chegar ao patamar da Europa, Austrália e Estados Unidos. Não é só uma questão de tecnologia, e sim de uma cultura que valoriza acima de tudo a integridade cientifica.

O que acha de se usar plasma para ajudar na cura?
No Brasil, existem experiências positivas. Eu gostaria muito que funcionasse, mas tenho muita dúvida. Deram plasma para infectados sem estudo controlado. E aí a gente teve o caso do Remdesivir, da Gilead, que teve estudos controlados. E tem também o Dexametasona. Os dois têm estudos controlados nos EUA e na Inglaterra. O estudo do Remdesivir incluiu somente mil pessoas, mas tivemos resultados claros pelo fato de terem feito um estudo cientifico.

O FDA não recomenda a cloroquina. Ela nada resolve?
A FDA não proibiu, tirou a autorização para usar para combater a covid-19, autorização essa que nunca devia ter sido dada. A cloroquina é outra coisa maluca. Não aguento ver médicos e cientistas importantes promovendo cloroquina.

Em resumo, o que temos, contra a covid-19, de comprovação científica?
O Remdesivir e o Dexametasona. Um deles a quem está doente e outro quando a doença já está muito avançada.

Dizem que há um estoque de 60 milhões de pílulas de cloroquina nos EUA. Que farão com isso?
Não tem sentido nenhum, é mesmo uma questão política. Quanto ao estoque, nunca tivemos uma situação dessas aqui, na qual a voz da ciência é secundária.

Acha que o caso brasileiro é similar ao americano?
Pelo que aparenta, o presidente brasileiro segue muito o que faz o americano.

O FDA está imunizado contra políticos e políticas de saúde?
Não. Já houve situações em que mostraram não estar imunizados contra a política. Deram autorizações que não deviam ter sido dadas. Acho que o teste maior vai ser com esta vacina.

O Instituto Butantã, em São Paulo, atesta que a partir de janeiro o Brasil vai poder fabricar 60 milhões de doses e promover vacinação em massa. Isso lhe parece viável?
Acho que tem de ter alguma cautela no caso, porque as informações sobre vacinas disponíveis para janeiro ainda são uma possibilidade um tanto limitada.

Há quem diga que a testagem em massa é um teste burro, porque nele você gasta muito para saber pouco…
O estoque disponível para os testes é limitado. De fato, testar em massa todo mundo que quiser é uma bobagem.

Quando o estado do paciente é crítico, pode-se dar um coquetel?
Na verdade, essa é uma doença da qual a maior parte das pessoas se recupera. Essa história do “não tem nada a perder” pra mim é errada, você pode estar tirando da pessoa a chance de sobreviver.

Não tem ninguém 100% imune garantido, né?
Não. A gente ainda está aprendendo o que acontece depois de uma infecção. Alguns se recuperam com pouquíssimos anticorpos, mas as manifestações mudam de um paciente para outro.

Passou pelo Conselho de Segurança, depois o FDA. Por que saiu do governo?
Eu tinha feito tantas coisas já, depois do Conselho de Segurança Nacional. Quando saí da Casa Branca, tive a oportunidade de entrar numa companhia e aprender esse lado do business…

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