‘Nós, artistas, estamos baixando o nível dos nossos espetáculos’

‘Nós, artistas, estamos baixando o nível dos nossos espetáculos’

Sonia Racy

12 Outubro 2015 | 00h30

Às vésperas de lançar seu terceiro filme no ano, o ator e diretor Marcos Caruso

adverte: as atuais leis de incentivo ameaçam ‘enterrar a arte’

ao enfraquecer os vínculos do artista com o público

Marcos Caruso (32)

Ator, diretor e dramaturgo, Marcos Caruso tem vivido meses agitados. Na televisão, com o papel de Feliciano, um homem falido e que leva tudo com leveza. No cinema, com quatro longas só em 2015 – dois lançados no primeiro semestre – Desculpe o Transtorno e Sorria, Você Está Sendo Filmado – e um terceiro a estrear já nesta quinta-feira: Operações Especiais, no qual ele vive o “Doutor Fróes”, um delegado honesto empenhado em conter a criminalidade em uma cidade do interior.

Aos 63 anos, esse paulistano pai de dois filhos tem o que mostrar – começando como autor de Trair e Coçar, É Só Começar, há 29 anos em cartaz e vista por 9 milhões de espectadores. Nesta entrevista à repórter Marina Gama Cubas, ele admite: “Está cada vez mais difícil viver de teatro.” E alerta para coisas erradas que vieram com as leis de incentivo: elas desobrigam o artista de investir no seu trabalho, e com isso ele perde o comprometimento, empenhado mais em cumprir um cronograma. Ou seja, “sucesso e fracasso estão amparados financeiramente” e o artista está errando ao destruir o vínculo com o público.
Apesar de estar longe dos palcos há cerca de dois anos, Caruso respira teatro, o espaço onde se descobriu como artista. No papel de criador, diz que ainda está em busca de um trabalho que lhe permita dizer que é um autor, além de dramaturgo. “Não há pressa… um dia sai”. A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Quando foi que descobriu que queria ser artista?
Foi quando assisti a My Fair Lady, com Paulo Autran e Bibi Ferreira, no Teatro Carlos Gomes, do Rio. Eu tinha 10 anos. Mas o divisor de águas foi quando entrei para o Teatro Infantil Monteiro Lobato, aos 16 anos. Comecei como ator, depois me tornei diretor e autor. Ali tive total certeza de que era aquilo que eu queria fazer da vida. Depois de alguns anos lá, olhei para aquele palco 5 por 3 metros e pensei: “Este palco está pequeno para mim”. Então me atirei na vida. Fui ser coautor de novela, ator de teatro, diretor de TV… Me profissionalizei em 1972.

‘COM A LEI ATUAL, TANTO FRACASSO 
QUANTO SUCESSO ESTÃO
AMPARADOS FINANCEIRAMENTE’

Sente que há diferenças no prazer de cada função dentro das artes cênicas?
O prazer maior é saber cada vez mais do meu ofício, mas a distinção de cada papel para mim é clara. Ser ator é algo que supre a vaidade. É o aplauso imediato, o reconhecimento na rua e na plateia. O riso, o choro, a emoção. Ser diretor faz bem à ânsia de poder. Todos nós queremos que as coisas corram exatamente como a gente quer. Já o autor é o espírito que voa e vai onde o ator e o diretor não podem ir. Ele tem o poder de casar, de matar, de fazer nascer. Transcende a concretude. O papel e a tela do computador aceitam tudo. Seus monstros, seus anjos, seus diabos. Sendo autor, ator e diretor… no teatro, cinema ou TV eu consigo me completar.

O sucesso da peça Trair e Coçar, É Só Começar chegou a incomodá-lo em algum momento?
Houve um momento em que sim, por causa do preconceito que as pessoas tinham em relação à comédia. Diziam que eu era o autor daquela “comediazinha”… Talvez isso tenha me impelido a me enveredar por um teatro mais consistente. Foi quando veio a minha parceria com a Jandira, com quem fiz um teatro que colocava o dedo na ferida – Sua Excelência, o Candidato, Porca Miséria, Operação Abafa –, mas sempre com humor. Eu queria me livrar desse rótulo de um autor de comédia que não queria levar a nada.

E quando deixou de se incomodar?
Quando as pessoas deixaram de se incomodar. Eu me incomodava pelo incômodo delas. Mas me orgulho muito ao ver a peça indo para a quarta geração de plateia.

Acha que o humor ainda hoje é visto como um gênero menor?
Sim. Temos a mania de achar que o bom está no erudito, um pouco pela síndrome de vira-lata do brasileiro, um povo que, contraditoriamente, é mais solar e do riso. Mas não é por ela ser vista por um gênero menor que temos que baixar o nível. Não faço graça sobre defeito físico ou moral, nem humilhando ninguém. Temos uma responsabilidade social. Baixar o nível da comédia é o mesmo que um engenheiro baixar o nível do cimento que usa na ponte: ela vai cair e matar pessoas. Se eu baixar o nível da comédia, estarei alimentando uma deterioração cultural.

É possível, hoje, alguém viver de teatro no Brasil?
Talvez eu tenha mais do que preciso porque atuo em diversas funções e como autor tenho peças em cartaz. Isso me permite viver mais tranquilamente. Mas concordo que está cada vez mais difícil viver de teatro. Antigamente você punha o seu dinheiro e lutava para ele voltar. Se não conseguisse pagar a produção, teria que penhorar a casa e o carro para pagar o empréstimo do banco.

‘O TEATRO É FEITO DE PAIXÃO.
E NÓS ESTAMOS LOTANDO
NOSSOS TEATROS COM STAND-UPS’

O que mudou?
Hoje, as leis de incentivo lhe dão a possibilidade de não colocar o seu próprio dinheiro. Então deixa de ser importante, para alguns artistas, o número de espectadores. Perdem-se o vínculo e a paixão. Perde-se a necessidade de estar em cena mais inteiro para ter mais gente no dia seguinte. A lei lhe dá um limite de dinheiro e tempo para gastá-lo. Depois desse período, se o espetáculo acabar não tem importância. Ele cumpriu o cronograma. Ou seja, sucesso e fracasso estão amparados financeiramente. Acho que o artista perde o comprometimento.

Perde de que maneira?
Quando eu, particularmente, vou para o palco, tenho o comprometimento de falar algo que faça o público refletir. Quanto mais pessoas estiverem com os olhos brilhando e os ouvidos atentos, melhor vou fazer meu trabalho. Mas se o artista sabe que, com 20 ou 150 pessoas é a mesma coisa, ele se torna menos responsável. E esta é uma profissão de muita responsabilidade. Por um lado as leis viabilizaram produções. Por outro, acomodam determinados produtores e artistas. Depende de cada um. É preciso utilizá-la como trampolim para continuação do próprio trabalho. Exemplo disso é a peça Self. O patrocínio que conseguimos era só para três meses. Mas isso não interessava, eu sabia que a peça tinha potencial para três anos em cartaz… Final da história? Ela está há um ano em cartaz e com fila na porta. O que está em cima do palco é maior que o patrocínio.

Isso significa que as formas de incentivo precisam mudar?
A lei tem que existir, mas a paixão tem que vir antes do dinheiro. O teatro é feito de paixão… e você tem que viabilizar essa paixão através de uma lei. Nós, artistas, estamos errados em muitas coisas. Estamos baixando o nível dos nossos espetáculos. Estamos lotando nossos teatros com stand up. Reduzindo o teatro a três dias por semana. Tirando a dupla sessão do fim de semana. Nós tiramos a cortina da frente do palco. A mágica se perde. Usamos mal a lei, quando a gente vai primeiro pegar o patrocínio e depois é que vai descobrir qual o projeto que a gente pode enfiar nele… Se continuarmos do jeito que está, a lei vai enterrar a arte. Me lembro de quando a gente olhava pelo buraquinho da cortina, e de lamentar que estávamos com meia plateia. E isso nos impulsionava a fazer um grande espetáculo para lotar as duas sessões do dia seguinte.

O que diz da política cultural que se adota hoje no País?
A política cultural do governo como um todo é pífia. Prédios estão caindo, as bibliotecas estão mofando. E não estou falando do que não foi feito sem dinheiro, mas de tudo o que não foi feito com ele. Dinheiro desviado. Não vejo nenhuma política cultural neste País.

Qual deve ser, no atual quadro cultural, o papel do artista?
Temos uma função muito mais de responsabilidade do que de vaidade. O Feliciano, meu personagem da novela (A Regra do Jogo), tem um papel social. Ele tinha tudo e perdeu tudo. Quantas pessoas não são iguais a ele? Não desceram degraus na vida? E quantas que faliram não se suicidaram, não esfacelaram suas famílias? O Feliciano fez do limão uma caipirinha. Esse cara tem uma função social, assim como os outros personagens desse núcleo. A novela também tem um caráter formativo.

Nesse último ano você atuou em quatro filmes. Foi planejado?
Não. O cinema “me descobriu” neste último ano, depois de Avenida Brasil. As quatro produções surgiram sem qualquer planejamento. Eu tinha muito medo de fazer cinema, porque sou muito teatral. Tenho gestos largos, expressões muito over para o cinema. O primeiro filme em que tive uma participação um pouco maior foi Memórias Póstumas de Brás Cubas. Foi quando tive vontade de ir embora antes do início das filmagens. Hoje eu já vou muito mais seguro. O fazer nos dá segurança.

Qual era o seu medo?
Meu personagem era carnavalesco, o Quincas Borba, e eu tinha medo de extrapolar. Tanto é que extrapolei. Na primeira cena que fiz, o diretor pediu para repetir, mas sentado. Depois, pediu para refazer com menos sobrancelhas. Fui sentindo que fazia “cada vez menos”. Mas quando vi o resultado, foi maravilhoso, porque o cinema é a arte do diretor. Ele sabe o que quer e vai dirigindo para chegar aonde quer.

Como foi fazer um delegado em Operações Especiais?
Ele é um personagem diametralmente oposto a qualquer outro que já fiz. É endurecido pela profissão. Fróes vem com uma carga de honestidade que nem sempre as pessoas esperam da polícia, vista como corrupta, ou corruptível. É um policial honesto que tenta implantar uma polícia honesta em uma cidade do interior. Foi difícil encontrar esse homem duro dentro de mim. É um novo divisor de águas na minha carreira. Se com o Leleco (de Avenida Brasil) eu consegui fazer um homem maduro com certo vigor físico, com o Fróes de Operações Especiais, tenho um caminho aberto para personagens mais tensos.

Sua visão do trabalho da polícia mudou depois do filme?
Minha visão deles é a melhor possível. O policiamento é para coibir excessos e manter a ordem. Mas a policia é o resultado de uma sociedade. Se a sociedade é honesta, a polícia também é. Se ela é corrupta, a polícia é corrupta. Eu nunca peguei em arma na minha vida. Quando li sobre o personagem, pensei: “Como vou vivê-lo?” Me perguntei onde ele está dentro de mim e se eu queria fazer o filme, com cenas de violência e tanto tiro. Ao ler o roteiro decidi que sim, porque é através do filme que eu posso falar da honestidade de alguém exercer bem a função da polícia.