‘Ninguém tem que concordar com o que eu falo fora do trabalho, mas tenho esse direito’

‘Ninguém tem que concordar com o que eu falo fora do trabalho, mas tenho esse direito’

Sonia Racy

24 de julho de 2017 | 14h16

Foto Lu Prezia

 

Atriz Sophie Charlotte defende seu espaço como cidadã
e conta como consegue “sobreviver” cuidando
de um bebê e voltando ao ritmo dos ensaios
e gravações de ‘Os Dias Eram Assim’

“As definições de plenitude foram atualizadas”, diz uma das produtoras do ensaio fotográfico de moda ao ver Sophie Charlotte posando para um dos retratos. O ventilador na frente da atriz faz com que seu vestido e os cabelos fiquem esvoaçantes. Alheia aos elogios, ela sorri para a câmera no último clique. Cerca de um ano e meio após o nascimento de Otto, seu primeiro filho, Sophie já voltou ao trabalho com força total. Além da campanha que fotografa para a Bobstore, a atriz está no ar desde abril como protagonista da supersérie Os Dias Eram Assim.

“Amo o que faço, mas estava muito agarrada ao Otto. Me dedicar a essa novela exigiu uma certa vontade de trabalhar de novo. Mas depois me deu essa alegria de sair de casa e ir pro set, de estar com a cabeça onde estou. Ficar no trabalho pensando em casa, e em casa pensando no trabalho, não dá certo”, afirma à repórter Marcela Paes.

O folhetim é ambientado nos anos 60, 70 e 80 e tem como pano de fundo o Brasil do regime militar. Para a atriz – que aderiu com o marido, Daniel de Oliveira, à greve geral em protesto contra as reformas trabalhista e previdenciária –, existem similaridades entre o período que o  País vive agora e alguns eventos mostrados na novela. “Por um lado é: caramba, temos fôlego, precisamos ter fôlego para realmente ir às ruas e lutar pelo que a gente acredita. Por outro lado, é difícil enxergar que em tão pouco tempo tanta coisa aconteceu e de novo vamos viver nesse lugar de ter que exigir uma coisa que poderia ser mais simples”, conta. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Muitas mães têm dificuldade na volta ao trabalho, com medo de serem substituídas. Isso aconteceu com você?
Claro, essas coisas passam pela cabeça. Você de repente está em uma gravação depois de estar em casa em uma rede com um nenê e seu mundo se resume basicamente a se doar pro seu filho, o que é incrível. Não tenho essa coisa de ‘eu preciso conquistar, preciso ser, o bonde vai passar’. Graças a Deus não é só assim. A minha volta foi maravilhosa. Eu amo o que eu faço, mas estava muito apaixonada pelo Otto. Me dedicar a essa novela também exigia uma certa vontade de voltar a trabalhar. Mas depois me deu essa alegria de sair de casa e ir pro set, de conseguir focar bem e estar com a cabeça onde eu estou. Ficar no trabalho pensando em casa e em casa pensando no trabalho não dá certo.

Mas como você faz para conciliar o ritmo de gravações com o tempo com seu filho?
O ritmo não é igual ao de uma novela das nove. Tem meia hora a menos, não passa às quartas nem aos sábados, então essas coisas ajudam. É um ritmo intenso? É. Mas, fora o trabalho, meu foco tem sido ele. E ele também está num momento de descobertas. Já tem novos amigos, eu tenho uma rede de apoio grande.

O parto dele foi humanizado. Como foi essa experiência? Faria de novo?
Claro! Foi incrível. Na verdade eu tive que abrir minha cabeça o tempo todo e pensar: cara, tudo bem. E se precisar de uma intervenção médica? Eu não tinha planejado o parto domiciliar assim que eu engravidei. Esse desejo foi se fortalecendo por um processo de empoderamento meu e do meu corpo sobre o processo do nascimento, de conhecer mais sobre isso, de trazer o protagonismo desse ato pra mim e não passar isso pra um médico. Alguma coisa me dizia que ia dar tudo certo e que seria da melhor maneira possível.

Como sua família reagiu?
Eu não contei. Pra minha mãe e pra minha sogra eu só disse que ia tentar um parto humanizado. Foi tudo o que eu disse. Mesmo quando entrei em trabalho de parto, não avisei ninguém. Essa expectativa não ia me ajudar. Eu preferi que fosse mais privado e concentrado na coisa mais importante. Às vezes até por amor mesmo. As pessoas criam uma expectativa e tensionam, né?

Agora fala-se muito sobre o lado real de ser mãe. Houve algum problema no início?
Ninguém te prepara muito para a maternidade. É uma experiência muito pessoal. Por um lado, existe uma propaganda da felicidade nas redes sociais que acaba fazendo você acreditar que o gramado do vizinho é bem mais verde. E isso é uma loucura. A gente não aprende a se relacionar. O conhecimento é muito pequeno. Então fui atrás da informação e o fato é que, com ela, tudo fica mais leve. Você começa a pesquisar nos sites de maternidade e entre as mães que se apoiam… Claro, não é fácil. No início é um choque de adaptação e de realidade. Acordar muitas vezes. Você não ter sono é constante. Um recém-nascido muda tudo na sua rotina. Tudo muda. Os hormônios entram em colapso. Eu senti que minha preparação no meio de tudo foi importante.

Eu li uma frase sua segundo a qual quatro meses de licença maternidade são muito pouco.
Verdade, depois eu cheguei a outras conclusões também. Precisa existir uma licença paternidade porque senão a gente nunca vai conseguir equiparar os salários. Realmente, a licença maternidade… é pouco. Então você pedir para as mulheres amamentarem exclusivamente até seis meses e a licença servir para menos do que isso é incongruente. Não faz sentido. Tem uma certa responsabilidade. Mas é uma máquina que não quer parar e não quer deixar as mulheres fora do mercado por esse tempo, sendo que todo mundo nasceu de alguém e hoje eu sei da importância desses primeiros meses e dos primeiros anos na vida de uma criança.

Você falou sobre empoderamento. Se considera feminista?
Eu sou mulher, então dizer que eu não sou feminista é muito louco. Mas eu fiquei mais atenta com a maternidade, e despertei mesmo. A minha relação com o feminismo, as minhas questões com o mundo atual, as questões de uma mulher negra, que é diferente de uma mulher trans, que é diferente de uma mulher sem acesso, de outra classe social. É preciso que haja empatia e que os problemas delas sejam meus problemas também.

Já sentiu alguma desigualdade no trabalho por ser mulher?
Olha, comigo não. Pelo menos não me recordo de uma maneira tão forte. Talvez tenha ocorrido e eu tenha levado por uma questão de idade, por ser muito nova. Eu nunca tive problema com hierarquia e nunca confundi as coisas, porque as vezes as pessoas também confundem. Saber distinguir o que é hierárquico, profissional e o que é machismo. Então isso não posso dizer que eu tenha vivido porque eu não encararia assim. Mas você olha e, perifericamente, descobre a questão. Então eu que estou no foco, no meio da cena, recebendo a atenção, não passo por isso. Mas às vezes, quem está em volta passa. Então tem meninas que vêm do sul do País para fazer figuração, etc… São questões que a gente tem que rever – mas que não são restritas ao meu meio.

Você e o Daniel aderiram à greve geral em protesto contra as reformas trabalhista e da Previdência. Acha que esse posicionamento é importante?
Eu, como cidadã, tenho meu posicionamento muito claro. Achei importante, um direito, e aderi. É simples assim. Todo mundo que não se sente confortável com a situação dessas reformas propostas tem esse direito de se manifestar. Eu simplesmente fiz uso dele.

Acha  que é mais difícil para o ator se posicionar politicamente?
Quando eu gravo uma novela e entro na casa das pessoas, estou lidando com gente que tem criações, valores e percepções de mundo diferentes das minhas. E quando me coloco como cidadã tem muita gente que mistura e não consegue separar aquela história que eu estou contando da pessoa que eu sou. Ninguém tem que concordar com o que eu quero dizer fora do meu trabalho. Mas tenho que me garantir esse direito. Em segundo lugar, por estar fazendo esse trabalho, me incomoda ter que responder com 100% de certeza e correção e limpa com relação a tudo porque tem tanta gente me vendo. Tento me manter humana o suficiente para poder dar uma opinião e depois mudar essa opinião.

A série que você está fazendo tem uma forte carga política e histórica. Como você vê a situação do País hoje?
Eu acho que é uma coincidência muito louca. A gente gravou comício das Diretas Já de 1984 na mesma época que está rolando essa movimentação pelas diretas. Dá uma sensação meio dúbia. Por um lado é: caramba, temos fôlego, precisamos ter fôlego pra realmente ir às ruas e lutar pelo que a gente acredita. Pelo outro lado, é difícil enxergar que em tão pouco tempo tanta coisa aconteceu e de novo vamos ter que exigir uma coisa que poderia ser mais simples. Acho que é meio por aí. A gente tem esse entusiasmo de contar a história e a esperança daquela época. Há necessidade de lembrar disso.

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