“Ninguém está pedindo subsídio”, afirma Jerome Cadier, da Latam

“Ninguém está pedindo subsídio”, afirma Jerome Cadier, da Latam

Sonia Racy

27 de maio de 2020 | 00h40

JEROME CADIER – FOTO: NILTON FUKUDA/ESTADÃO

Grave desde o começo, a crise mundial provocada pela covid-19 está levando mais uma empresa de aviação internacional a pedir socorro explícito. A Latam acionou a justiça americana por meio do mecanismo Chapter 11 e acoplou três das subsidiárias ao pedido: a brasileira ficou de fora. “O Chapter 11 não é igual à recuperação judicial”, explicou ontem à coluna, Jerome Cadier. “A RJ é um processo mais burocrático, mais amarrado, mais complexo, tem mais apelações. Nos EUA, as empresas quando entram, elas buscam sair e o juiz facilita a saída. Na renegociação dos leasings, por exemplo, você só consegue fazer isso com o Chapter 11”, diz o executivo, lembrando que algo como 90% dos pedidos de recuperação judicial no País têm como resultado a falência.

Aliás, o primeiro pedido de RJ após a promulgação oficial da lei brasileira foi feito pela Varig. “Não sabia”, responde o executivo que assumiu a presidência da empresa aérea no Brasil em 2017. Ela quebrou.

Segundo Cadier, os acionistas Quatar Airlines, família Cueto e família Amaro estão aportando US$ 900 milhões. Do BNDES, governo chileno e investidores espera-se outros US$ 2 bilhões. A Latam chegava a transportar 100 mil pessoas por dia, hoje transporta 3, 4% disso. Aqui vão trechos da conversa:

Nenhum governo no mundo tem se arriscado a fazer projeções. A Latam faz?
Precisa e esse é o nosso desafio. As bases são muito incertas e os números muito provavelmente estão errados. Mas montamos duas fases: a primeira, que a gente chama de hibernação – que é o que a gente está fazendo agora. Reduzimos a operação pro mínimo pra queimar menos de caixa diariamente, esperando que a demanda por voos volte. Esperamos chegar até o fim do ano com 50% a 60% da nossa operação feita ano passado. Recuperação completa? Dois a três anos.

Como é a ajuda do Chapter 11? Diferente dos modelos de recuperação na Europa, Ásia ou Brasil?
O governo brasileiro se mostrou bastante proativo, principalmente no Ministério da Infraestrutura. Muitas coisas avançaram e algumas discussões no Congresso podem ajudar a dar mais fluidez ao setor. A grande pendência, entretanto, é a questão da ajuda do capital de giro. O baque resultou em vendas 90% menores. E muitos custos continuam. Diferente de alguns setores que podem vender estoque depois da crise, não existe estoque em companhia aérea.

Quanto os EUA estão investindo nessa recuperação?
Até agora, são US$ 50 bilhões – metade dada sem contrapartida e outra metade, como empréstimos. Os juros são abaixo dos de mercado por um período de dez anos. Há possibilidade de alguma conversão dessa dívida com o governo americano em ações das companhias aéreas.

Brasil?
Os montantes são, obviamente, diferentes. São R$ 10 bilhões para todos. Mas, independente de ser pouco ou não, ele é necessário. Ninguém está pedindo subsídio. O que a gente precisa é ter acesso a capital e ele hoje inexiste. O prazo oferecido pelo BNDES é razoável, cinco anos. Cada país tem que encontrar a sua maneira de ajudar, mas é importante que essas discussões não demorem.

O que o passageiro pode esperar?
Estamos operando basicamente para a maior parte das capitais do Brasil e internacionalmente, pouco. Agora, com a decisão tomada pelo governo dos EUA, de barrar pessoas que passaram pelo Brasil… O passageiro tem que verificar seu voo na véspera. Muitos países decidem de um dia pro outro restringir a movimentação, estão mudando regras relacionadas à quarentena.

E para quem precisa viajar mas têm medo?
Não só a Latam, mas todas as companhias aéreas estão tomando precauções. Desde o embarque, check-in, dentro do avião e a saída. A limpeza das aeronaves tem sido feita de forma muito frequente e profunda, a gente também espaçou mais as filas de check-in e embarque. Estamos atendendo em balcões intercalados pra garantir a não proximidade. Estamos embarcando com mais espaço nas filas.

A bordo?
Reduzimos a quantidade de interações entre a tripulação e o passageiro. Estamos atentos à comida, todos passageiros são obrigados a utilizarem máscara, há gel. Eu diria que parece, pro leigo, ser arriscado voar mas na verdade é muito menos arriscado do que qualquer transporte público.

Passageiros que compraram passagens, como proceder?
Primeiro, estamos tentando acomodá-los, sem custo, em voos que a gente ainda está operando. A data limite é esse ano. Para 2021 não, mas, talvez, dependendo da duração da crise, a gente estenda isso.

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