‘Neste mundo tão tecnológico, o aplauso do público é uma joia’

‘Neste mundo tão tecnológico, o aplauso do público é uma joia’

Sonia Racy

28 de abril de 2014 | 01h00

Foto: Alex Carvalho/Globo

Prestes a estrear na novela das sete – cujo mote é o mundo virtual –, a atriz conta por que deixou o Facebook, se mostra pessimista em relação à Copa e sonha ter um teatro.

Renata Sorrah está feliz com sua personagem Glaucia Beatriz – na próxima novela das sete da Globo, Geração Brasil, que estreia dia 5 de maio. Aos 67 anos, ela confessa que ainda engatinha quando o assunto é tecnologia, tema do folhetim de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira. “Quero ser contemporânea da tecnologia. Tenho de entender. Assim caminha a humanidade”, filosofa.

Atriz de personagens marcantes, como Heleninha Roitman e Nazaré Tedesco, ela quer que sua divertida, porém amarga, Glaucia Beatriz siga o mesmo caminho.

Em entrevista à coluna, Renata falou sobre movimentos sociais, luta contra a ditadura e o desafio de se chegar à “maioridade” no teatro.
A seguir, os melhores momentos da conversa.

Quais as suas expectativas para a Glaucia Beatriz?

Desde o primeiro contato do Filipe e da Izabel, fiquei muito animada. O tema da novela, a tecnologia, é muito forte. Porque a gente fica na dúvida. É para o bem? Tem coisas que são, mas essa parte de não se ter mais uma vida que seja sua… De vez em quando é uma invasão. Por outro lado, é uma maravilha, porque o conhecimento está muito mais ao alcance de todos.

É uma pessoa tecnológica?

Até certo ponto. Queria ser mais. Vou chegar lá. Tenho meu computador, meus sites favoritos, entro no Google, faço pesquisas. Mas, por exemplo, eu estava no Facebook… agora não estou mais.

Por quê?

Porque aquilo não me interessava. Não consegui que o Facebook fizesse parte da minha vida.

E Instagram, Twitter…

Também não. Quem sabe o Instagram? Todo mundo acha ótimo, fotografa e publica. Você tem de aprender. Agora, por exemplo, com o meu núcleo na novela – que é o dos Marra da Taquara –, estou precisando me atualizar. Eles são superinformados. A gente tem até WhatsApp para conversar… É uma delícia. Nós cinco conversamos o dia inteiro, e estou achando muito bom. O WhatsApp já está deixando de lado o meu samovar.

O que achou das manifestações do ano passado, insufladas pelas redes sociais?

Muito bom mesmo. Porque é muito mais rápido. Antigamente, para organizar uma passeata… nem sei como a gente fazia. E agora é maravilhoso. Acho que a novela está me ajudando a entrar um pouco nisso, a me sentir mais contemporânea.

Pode-se dizer que você é uma otimista da tecnologia?

Eu sou. Faço fé nessas conquistas da tecnologia.

Como é a Glaucia Beatriz?

Ela tem dois filhos e um deles é magnata da tecnologia, com fortuna avaliada em US$ 15 bilhões. Uma espécie de Steve Jobs brasileiro, interpretado pelo Murilo (Benício). A família é classe média-baixa, o pai é da PM. E o Murilo rouba o dinheiro que a Glaucia tem na poupança e vai para os EUA. Pode-se dizer que a família inteira pratica pequenos delitos. Um deles é síndico só porque síndico não paga condomínio. E também terceiriza obras e fica com parte do dinheiro. Minha personagem anda de van e tenta não pagar, rouba uma coisinha no supermercado. Cada um tem seu golpezinho, entendeu? E o Jonas, que foi embora, se deu bem, ficou rico.

E não devolveu nada?

Ele manda, tipo, uns US$ 1.500 por mês. É pouco…

Para não acostumar mal?

Ele não suporta aquela família. Tem pânico da mãe. É muito interessante, porque eles são antagonistas, a mãe e o filho. Batem de frente. Ela gosta mesmo é do outro filho, que teve com o amante. Um cara medíocre, que também trabalha com computação, mas em uma loja, a Loja do Barata. O dono, o tal Barata, é feito pelo Leandro Hassum. Tem muitos personagens maravilhosos. O do Lázaro Ramos também é divino.

Ela é amarga?

É uma mulher ressentida com a vida, mal-humorada. Sabe aquelas mulheres viciadas em café, que têm enxaqueca e tomam bolinha para dormir? Pois é… Ela não trabalha, não faz nada. Só recebe a aposentadoria do marido e o dinheiro do filho, que ela chama de mesadinha de fome. Vive do ressentimento.

Fez algum tipo de laboratório para compor a personagem?

Entrei até em um site de mães que não gostam dos filhos, acredita? Fui atrás de saber o porquê disso. Será que não gosta mesmo? Às vezes, dizem: “Ah, esse garoto não presta”. Eu já ouvi muito isso. Minha personagem é uma dessas mães. Não tem nada a ver comigo. A gente fez estudos, se reunia lá no Projac e aqui em casa. Nós cinco: eu, a Titina Medeiros (Marisa), o Luiz Henrique Nogueira (Silvio), a Valentina Bandeira (Danusa), que vai fazer a minha neta, e o Miguel Roncato (Danilo). São os Marra da Taquara.

No fundo, é uma família com jeitinho brasileiro?

Tem muita família assim. Que fica passando a perna um no outro. São personagens brasileiros. A história é muito brasileira.

Você começou, no teatro, em plena ditadura militar. Em algum momento o seu lado rebelde foi importante?

Acho que sim, porque era a realidade que a gente tinha. Eu estreei numa peça do José Wilker, a primeira dele, chamada O Trágico Acidente Que Destronou Teresa. Foi em 1969. Ah, não. Em 1968, quando o estudante Edson Luís foi morto em confronto com a polícia, a gente estava fazendo, com o Wilker, O Capeta em Caruaru, com direção do Amir Haddad. A gente estava no meio da coisa, entendeu? Praticamente toda a classe teatral era comprometida, a gente lutava mesmo. Meu Deus, eu me lembro que, quando estávamos fazendo O Trágico Acidente…, no Teatro Jovem, a gente tinha pedaços de pau no camarim.

Para quê?

Para enfrentar o pessoal do CCC, o Comando de Caça aos Comunistas. Eles ameaçavam fechar o teatro. Eu comecei no Tuca, Teatro Universitário Carioca, com a peça O Coronel de Macambira, também dirigida pelo Haddad. E fazia parte da Ação Popular, braço de esquerda da Universidade Católica do Rio.

E aqui em SP estavam montando Morte e Vida Severina…

Exato, ou seja, todo mundo muito engajado. No caso do Coronel…, falava do bumba-meu-boi, do Brasil, da divisão do País. Acho que isso influenciou minha carreira. Porque me deu um pé no chão. Nessa época, meu pai me perguntou: “Você não quer ir para a Áustria estudar? Ou para a Inglaterra?” Respondi: “Não posso sair, pai. É aqui que eu vou aprender”.

Fez a escolha certa?

Hoje em dia eu penso: “Ah, acho que eu podia ter ido só um pouquinho”. (risos)

Como foi o ano que você passou na Califórnia?

Tinha 17 anos e fui em regime de intercâmbio. Ficava perto de Berkeley. Foi lá que conheci um professor de teatro que me fez abraçar a carreira.

Hoje em dia fala-se muito que a TV anda fútil, alheia à política e tal. Concorda com isso?

Não dá para generalizar. Há atores e atrizes engajados, tentando entender o momento, ir às manifestações, tentando se colocar. Claro que, quando comecei, não havia esse culto à celebridade… Os jovens de hoje já pegaram momentos melhores da vida política nacional.

Acha que teremos mais manifestações este ano?

Acho. E a gente tem de aprender a ouvir esses manifestantes. Porque, com certeza, está doendo em alguns lugares.

Participou de alguma manifestação no ano passado?

Estava viajando com a peça Esta Criança, da Cia Brasileira de Teatro, de Curitiba. Mas não sei se participaria se estivesse aqui. Acompanhei e torci… claro que contra a polícia (risos).

O que espera da Copa?

Não quero ser pessimista. É tão chato a pessoa pessimista, né? Tomara que seja bom, dê certo. Mas não sei se era o momento. Eu vejo pelo Rio. Fico na dúvida. Tenho medo. Medo de não ser positivo para o povo. A gente está sofrendo tanto aqui, com o tráfico.

Apesar dos últimos episódios envolvendo as UPPs, como avalia a iniciativa de pacificação das comunidades?

Melhorou, sim. Mas não é isso que vai resolver o problema. Tem de ter UPP, mas também escola, hospital… para tirar as pessoas desse caminho.

Muitas atrizes na sua idade reclamam que não encontram bons papéis ou que os autores não conseguem fazer papéis bons para atrizes mais experientes.

À medida que você envelhece, os papéis vão diminuindo. Mas sempre vai haver. Na Gaivota, de Chekhov, sempre vai ter uma Nina e uma Arcadina. A Arcadina é a mais velha; a Nina, a mais moça. Eu já fiz a Nina e já fui convidada para fazer a Arcadina. Nunca fiz, mais ainda vou fazer. Acho minha profissão uma das mais generosas que existem. Porque ela vai te acompanhando.

Além da novela, o que mais tem na sua agenda este ano?

A gente vai gravar a novela até outubro. Em novembro, volto a fazer Esta Criança, no Teatro Dulcina, na Cinelândia. Vai ser só um mês, a pedido do Marco Nanini. Depois, começo a ensaiar a peça Krum, que, em alemão, quer dizer “torto”. É linda, do israelense Hanoch Levin. Com a Cia Brasileira de Teatro, de Curitiba. Estreia ano que vem.

Você quase se formou em Psicologia e sempre fez análise. Ainda faz?

Parei, mas acho análise fundamental. Aliás, estou precisando voltar.

Você atua em busca do aplauso? Ele é importante?

Acho uma das coisas mais lindas você aplaudir um ator. Não no sentido egotrip, como em Mephisto, em que ele quase tinha orgasmos quando o aplaudiam. Mas acho linda essa relação do ator com o público. É bonito para a plateia também, um ato de generosidade. Nesse mundo tão tecnológico, isso é uma joia.

O que achou do beijo gay, que finalmente saiu?

Muita gente disse que demorou. Acho que não. Foi na hora que tinha de ser.

Gostaria de ver algum outro tabu quebrado pelas novelas?

Todos os preconceitos: de raça, de religião… O mundo ainda está cheio de tabus. Vai demorar alguns anos para sermos realmente livres.

Sua família é uma mistura danada. Como foi crescer com tantas referências?

Tenho uma família forte. Um pai superinteressante, muito importante na minha vida, na vida de todos nós. Minha mãe era diplomata. Meu pai é judeu alemão, chegou ao Brasil em 1937. Fui educada na religião católica, porque minha mãe era católica. Os pais dela eram baianos, então tem essa mistura. Sempre que mistura é muito bom, né? Quando minha mãe conheceu meu pai, teve de perguntar ao Getúlio (Vargas, presidente na época) se podia se casar com ele – porque era estrangeiro. Aí o Getúlio falou: “Melhor arranjar outro noivo”. Ela preferiu deixar a carreira.

É uma avó-coruja?

Ah, sou, sim. O Miguel está com 4 anos, e a Betina vai fazer 2. Acho que tem de ser coruja, mesmo. E sou mãe-coruja também! São laços fortes que a gente tem.

Quando não está atuando, o que gosta de fazer?

Ler e ir ao cinema. Também vejo quase todas as peças. E tenho gostado muito dos musicais. Acabei de ver o da Elis Regina (Elis, a Musical). Divino! Vou aproveitar para confessar que tenho um sonho: conseguir um galpão, tipo garagem, para fazer um teatro. Sei que é difícil, mas seria tão interessante, tão bom, poder criar um polo cultural, sabe? Com teatro, espaço para palestras, cursos.

Mas é um sonho na linha do horizonte?

Tomara que eu consiga./SOFIA PATSCH E DANIEL JAPIASSU

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