Neofeminismo ‘é a voz da geração atual’, diz atriz global

Neofeminismo ‘é a voz da geração atual’, diz atriz global

Sonia Racy

30 Abril 2018 | 00h45

VERA HOLTZ

VERA HOLTZ. FOTO: MARÍLIA CABRAL

Vera Holtz, que atua em Orgulho e Paixão, lembra os protestos
da fase ‘drogas, sexo e rock and roll’, rejeita
o sectarismo no debate sobre gênero e acredita que se vive hoje, 
nos valores e na política, um momento ‘de muita reflexão’

Vera Holtz tem múltiplas personalidades. Uma delas, a Vera Lúcia – tímida e reservada, nascida na cidade de Tatuí, interior paulista, que define a essência da atriz. Já Vera Viral – nome que ela adotou para sua famosa personagem no Instagram – foi a figura que criou para mostrar ao mundo o que sente. “Não sou boa com palavras, me comunico através das fotos”, explica a atriz, que está na novela Orgulho e Paixão no papel de Dona Ofélia Benedito, inspirada nas obras da inglesa Jane Austen.

A personagem é mãe de cinco filhas e prometeu a si mesma que casaria as cinco. “A novela se passa no começo do século 19. As mulheres eram educadas para casar, aprendiam a cozinhar, tricotar, não havia mulheres trabalhando fora”, disse por telefone à repórter Sofia Patsch.

Mas os tempos mudaram. “Hoje estamos vivendo o neofeminismo, é mais que feminismo, é um comportamento que busca o empoderamento, a igualdade salarial.” Como se identificava nos protestos de seu tempo? “Sou da geração da contracultura, dos hippies. Sexo, drogas e rock and roll, apesar de não fazer nada disso.”

O que a atriz achou dos movimentos encabeçados pelas atrizes de Hollywood contra o assédio? “Não existe só uma verdade. Foi bom ver o Velho Mundo responder ao novo. Esse não sectarismo, não ser só de um lado, foi legal, as pessoas têm direito à escolha”. Agora, prossegue, “estamos vivendo um momento de reflexão.” O que vale também, segundo a atriz, para o Brasil, que atravessa”um momento de complexidade absurda” no qual sua posição “é de análise”. A seguir os principais trechos da entrevista.

A novela Orgulho e Paixão se passa em uma época em que o único destino para a mulher era o casamento. Muito diferente dos tempos atuais.
As meninas eram preparadas pela mãe para o casamento, sabiam bordar, cozinhar e é muito charmoso isso, era a arma de sedução que elas usavam. Hoje impera o neofeminismo, que é mais que feminismo, é um comportamento que busca o empoderamento, a igualdade salarial, um outro tipo de coisa.

E como vê a mudança trazida por esse neofeminismo?
Acredito que cada geração cria as expectativas necessárias. E é isso que estamos vendo. Uma geração que está em busca de uma participação mais ativa, atual, não só em relação à própria vida mas em relação à sociedade, à política. Acho que atravessamos um grande momento de conscientização.

Diria que se trata, então, de um movimento geracional?
A geração é cúmplice dela mesma. Acredito que esse movimento que estamos vendo hoje, esse neofeminismo, é geracional porque nós já tivemos outros. Eu mesma já participei, no passado, de grandes movimentos hippies.

De que forma foi sua participação nesses protestos?
Eu era da contracultura, mais hippie, na realidade. Obviamente identificada com o teatro, Sou formada em Artes Plásticas. Era mais ligada à liberdade, drogas, sexo e rock and roll, apesar de não participar de nada disso. Mas era a minha geração, posterior à geração mais politizada.

O que achou de as atrizes de Hollywood terem se vestido de preto, dando voz ao movimento Times Up, na entrega do Globo de Ouro?
Eu tinha duas opções, ou estava “na América” ou “na Europa”, no novo mundo ou no Velho Mundo. E isso foi o mais interessante desse movimento. O novo mundo fez o barulho e o Velho respondeu. Esse não sectarismo, não se identificar só com um dos lados, acho que foi muito legal. Porque as pessoas têm direito à escolha e esse é o ponto de vista que me interessa mais. As cabeças são múltiplas, não é preciso ter uma única identidade.

E você concorda com o Velho Mundo ou com o novo?
Não estou nem de um lado nem de outro. Gosto é de ser livre. De me sentir livre pra pensar o que quiser. Nem vou me vestir de preto, como fizeram as americanas, e nem vou discutir com a União Europeia. O mundo é vertical.

Você usa seu Instagram como uma ferramenta de protesto, mas de uma forma não óbvia. Suas fotos são uma crítica aos acontecimentos cotidianos, porém com cunho totalmente artístico, quase uma instalação. Como surgiu essa ideia?
Um dia eu estava em casa e o Charles, que trabalha comigo, pendurou umas bexigas na minha cabeça e eu pedi pra ele me fotografar. Foi aí que achei o padrão das minhas publicações. Minha cabeça realmente se alinha com esse tipo de linguagem, a partir daí ela só expandiu. Sou muito contemplativa e não sou de ficar expondo a minha vida, minha intimidade. Sou meio recatada (risos). Ninguém acredita, mas sou tímida. A crença que colocaram na cabeça da Vera Lucia foi que, quanto menos vista, mais apreciada. Isso é coisa do meu pai e ficou muito enraizado em mim. Preservo o máximo que posso a Vera Lúcia, né?

Sua essência é reservada. É atuando que se liberta?
Talvez sim. Sou do interior de São Paulo, de Tatuí, fiz arte dramática na USP, mas ainda tinha um véu muito grande na minha frente, tudo isso era muito velado pra mim, era um desejo absurdo, intuitivo. A primeira vez que vi uma peça de teatro percebi que era o que queria eu fazer. Foi uma epifania.

O teatro é sua grande paixão?
A interpretação, contar uma história. Posso contar história no teatro, no cinema, na TV.

É escalada para participar de uma novela todo ano?
Não existe uma regra. Depende do contrato.

O seu é vitalício, não é?
Vou renovando. Meus contratos não são muito longos não. Acredito que pode haver uma mudança. Acho que amanhã tudo isso pode acabar.

Mesmo sendo tão famosa, como consegue preservar a Vera Lúcia?
Ah, eu sou ‘blindadinha’. A Vera Lucia é onde mora a minha sensibilidade, temos que preservar, cuidar da nossa sensibilidade, protegê-la de alguma forma.

Sua personagem nas redes sociais é o seu alterego?
Entendi o que queria fazer, que era comentar o dia a dia com humor… ou não.

É um pouco do seu lado artista plástica falando, não?
Certamente. É uma coisa mais performática. Um jornal apelidou a personagem de Vera Viral. Acredito, de fato, que temos múltiplas identidades. A Vera Viral é mais blindada que a Vera Lúcia, porque se eu mexo muito com ela… ela some, não cria mais nada.

Tira foto toda semana?
Não tenho nenhum compromisso com o tempo. Essa personagem não tem compromisso com nada. A imagem aparece na minha cabeça em algum momento. Estou o tempo inteiro pensando. Tem uma parte minha que está em constante observação, tentando achar um conceito de algo que está acontecendo ou que está em aberto ainda. Por incrível que pareça, temos fotos que são premonitórias, planejo antes mesmo de o fato acontecer.

Suas fotos parecem ter uma grande produção. Usa um estúdio ou faz em casa mesmo?
A ideia vem e eu tenho que resolver. Sou eu que resolvo mesmo. Chamo o Renato, que é meu arquiteto e quem tira as fotos, ele está comigo o tempo inteiro. Geralmente fotografamos em São Paulo. Conversamos, explico o que quero e saímos para produzir.

Muita coisa mudou desde seu começo como atriz para cá. Vemos cada vez mais atrizes virarem influenciadoras digitais. Como enxerga essa transformação na profissão?
Não acho fácil você ter vários seguidores na rede social. No meu tempo nós tínhamos as revistas. O auge era fazer uma matéria, por exemplo, para o Jornal do Brasil, uma página inteira. Me lembro que quando saía um grande perfil sobre alguém era o máximo, um momento importantíssimo na carreira de uma atriz. Era um recorte a ser guardado para o resto da vida.

Hoje banalizou…
O Andy Warhol fez uma premonição maravilhosa na década de 60, aquela de que todo mundo teria os seus 15 minutos de fama. Olha que visão premonitória, ele dizer uma coisa dessas. Quer dizer, a humanidade seguia para isso, o desejo do indivíduo de ser reconhecido.

Como vê os escândalos de corrupção da política brasileira?
Vou falar com sentimento, tá? O meu é de profunda tristeza com o que vejo à minha volta. Tivemos grandes líderes, de uma popularidade mundial importantíssima. Estamos num momento de uma complexidade absurda. Tudo mudou de repente. A minha posição hoje, com relação a tudo, juro por Deus, que é de análise. Fico observando.