“Negros correm risco de sair da universidade’, diz reitor que lança hoje manifesto

“Negros correm risco de sair da universidade’, diz reitor que lança hoje manifesto

Sonia Racy

30 de junho de 2020 | 09h19

 

Na esteira do crescimento dos movimentos antirracistas e também pela preocupação com a situação de negros e pardos – que representam 55% da população brasileira – no pós- pandemia, a Universidade Zumbi dos Palmares e a ONG Afrobras lançam hoje o Movimento AR, acompanhado de um manifesto com dez ações afirmativas para combater o racismo por meio da educação e do trabalho. Mudanças nos protocolos policiais e a criação de 500 mil bolsas de estudo  são algumas das metas. “Se o Estado não construir uma agenda muito rápida e efetiva, vamos ter um problema seríssimo”, afirma José Vicente, reitor da universidade. Leia abaixo a entrevista com o reitor.

Estamos vivendo uma época de diversos protestos antirracistas pelo mundo. A ideia de lançar o manifesto agora foi impulsionada por isso?

 

Sim, é uma manifestação e um desejo que está dentro da perspectiva do que está acontecendo nos Estados Unidos e também um desejo de realizar mudanças aqui. Mas também uma preocupação com o que vai acontecer com a população negra no pós-pandemia. Temos que ter uma ação objetiva para atender esse público. Nós estamos dizendo, ‘olha, os caras já estavam fora do emprego, agora não vai ter emprego’. Se não construímos essa ponte, e se nós não enxergarmos a necessidade de uma atenção, de muita sensibilidade para essa agenda, vamos ter um aumento extraordinário do número de pobres e dos que se envolverão na criminalidade.

 

O senhor está diretamente no ramo da educação. Teme que depois da pandemia, com a crise econômica, ocorra uma evasão de alunos  negros das universidades?

Não restam dúvidas. O indivíduo negro corre risco de sair da universidade e de todos os postos que  alcançou ao longo do processo de inclusão e participação mais intenso que se deu desde a Constituição de 1988, mas especialmente por conta daquela primeira melhoria econômica, por conta das ações afirmativas e por conta da distensão do embate político, que reconheceu na inclusão do negro uma ferramenta política importante. 

Acha que as conquistas dessa parcela da população serão perdidas?

Quando tivemos o boom econômico, chegamos até a ter um embrião de uma classe média negra. E depois, com a chegada dos negros nas universidades, chegamos, há 3 anos, a ter  1 milhão de jovens negros nas universidades. Não tínhamos dúvidas de que um novo tempo se iniciava. Mas agora, que vêm essas 3 crises ao mesmo tempo, a crise econômica, a crise política e agora a crise sanitária, a perspectiva é de que esse público volte pro fundão da periferia, com dívidas e sem um ambiente de inclusão, seja no mercado de trabalho, seja nessa produção de renda. Grande parte deles ou dos seus familiares são pessoas informais, e a informalidade está arrasada. Vamos ficar com um limbo de jovens negros fora da universidade, fora do mercado de trabalho… Se o estado não construir uma agenda muito rápida, muito efetiva e muito competente, vamos ter um problema seríssimo. 

 

Um pouco antes de sair do cargo, o ex-ministro da educação Abraham Weintraub  lançou uma portaria para acabar com cotas na pós-graduação, que depois foi revogada. O senhor acredita que esse tipo de atitude  é representativo do pensamento de uma parcela do País? 

Não só do País como também do próprio governo. Ele, quando assim procedeu,  o fez como um sujeito de dentro da estrutura de gestão do Estado, expressando um pensamento, um posicionamento do Estado. Nós temos um governo que tem muito pouco apreço pela cidadania, muito pouco apreço pela pluralidade, pela diversidade, e  que, em alguma medida, se omite ou celebra a perspectiva da discriminação racial. Como fica claro no posicionamento do presidente da Fundação Palmares (Sérgio Camargo).

Na opinião do senhor, por que o sistema de cotas ainda enfrenta  resistência por parte da população?

O sistema de cotas é aplaudido pela maioria da sociedade. A exceção são alguns grupos de poder, a elite hegemônica. O motivo é muito simples: concordar com as cotas afirmativas significaria concordar com a perda de parte de seus privilégios, parte das suas prerrogativas.

Uma discussão que tem ganhado força é a da retirada de estátuas de símbolos colonialistas e escravagistas das cidades. Qual a sua opinião? 

É uma discussão interessante. Para um País com um histórico de desigualdades raciais, como é o Brasil, essas estátuas acabam sendo uma representação permanente da homenagem aos algozes da trajetória e  da própria existência física dos negros. Sobre essa perspectiva, penso que isso deva ser revisado. Se não temos como apagar o passado, que possamos pelo menos esclarecê-lo. Que retiremos e coloquemos essas estátuas em locais adequados ou que pelo menos, tenhamos placas bem grandes explicando a circunstância e o contexto em que elas se constituíram, para que as pessoas também possam conhecer a história a partir dessa perspectiva. 

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