‘Negro era a vidraça da piada, agora pode ser pedra’, diz Hélio de la Peña

‘Negro era a vidraça da piada, agora pode ser pedra’, diz Hélio de la Peña

Sonia Racy

19 Novembro 2018 | 00h50

HÉLIO DE LA PEÑA. FOTO: ANA QUINTELLA/DIVULGAÇÃO

HÉLIO DE LA PEÑA. FOTO: ANA QUINTELLA/DIVULGAÇÃO

Com stand-up só de negros,
comediante
vê no humor forma
de trabalhar autoestima

Uma das piadas que Hélio de la Peña faz no stand-up Coisa de Preto remete diretamente à sua vida. Morador de um condomínio de luxo no Rio, ex-aluno de um dos colégios mais tradicionais da cidade, o São Bento, e reconhecido na maioria dos lugares em que vai, o comediante se considera uma espécie de “Mogli, o menino preto”. “Sou um preto criado no meio de brancos e brinco com isso. Exagero a coisa pra dizer que toda vez em que chego de madrugada no meu condomínio até eu sou barrado, porque a segurança é rigorosa”, ironiza.

É justamente a comédia uma das formas que Hélio usa para combater o racismo e o preconceito. Seja no Coisa de Preto, coletivo composto só por comediantes negros, seja no que escreve, como o livro Vai na Bola, Glanderson – que originou o filme Correndo Atrás. “Nas apresentações do Coisa de Preto nós percebemos um público predominantemente negro, uma coisa que é rara de ser ver num teatro. Muita gente que estava indo ao teatro pela primeira vez, entendeu. E se identificava com o que a gente falava, conseguia rir de questões que normalmente são muito pesadas e tristes”, explica, nesta entrevista a Marcela Paes.

No caso do longa, Hélio acha que o fato de o filme ser uma comédia é uma forma de mostrar às pessoas um outro lado da favela. Correndo Atrás já foi exibido em diversos festivais internacionais e tem previsão de estreia no circuito comercial no ano que vem. “O público estrangeiro está acostumado a ver qualquer filme que se passe numa favela brasileira tratando sobre tráfico, violência, milícia. A minha intenção foi justamente mostrar que existe alegria na favela”, afirma.

Na véspera do Dia da Consciência Negra, que ocorre nesta terça, o comediante — que se tornou famoso no Casseta & Planeta, da Globo — vê nesse tipo de data mais uma oportunidade de levantar a questão do racismo no Brasil. “Algumas pessoas se incomodam: ‘Ah, pô, mas tá se falando muito disso…’. Mas nunca se falava, entendeu? Não era assunto. As pessoas se achavam mais confortáveis quando o negro era invisível na sociedade. Assim não dá. Não tem mais espaço pra isso”. A seguir, principais pontos da conversa.

Política sempre foi assunto para comédia, no seu caso, desde o Casseta & Planeta. A atual situação do País é um prato cheio pra fazer piada?
O Brasil nunca deixou os humoristas na mão, sempre foi muito generoso com a gente. Agora estamos vivendo esse momento aí, volta de militar pra Brasília, um acirramento, uma brigalhada danada, briga de família, pessoas se desentendendo, e o grande mote do momento, que são as fake news, né? Então, são assuntos que dão bastante pano.

O que você achou da vitória do Jair Bolsonaro?
A eleição como um todo foi bem confusa. As posições moderadas foram colocadas de lado tanto para direita quanto para a esquerda. A maioria das pessoas apoiou o Bolsonaro na esperança de que ele mantenha o combate à corrupção, mas também teve um recuo na questão do comportamento. O atrito que a gente viu entre amigos durante a eleição deve se manter aí por um bom período. Mas, enfim, não tô apostando contra… A gente está precisando é que alguma coisa dê certo neste País. Se ele conseguir reduzir o Estado, combater a corrupção e se os movimentos conseguirem que não haja uma regressão na conquistas das minorias, acho que podemos avançar.

A questão da Lei Rouanet e de outros tipos de incentivos culturais foi muito discutida durante esse período. O que você, que trabalha na área, pensa?
Existe uma visão muito distorcida dentro dessa história. O fato de haver, em alguns casos, uma malversação dos recursos, não significa que a lei seja um problema. Na verdade ela soluciona bem, movimenta o mercado, gera emprego e dá oportunidade a que obras sejam realizadas e cheguem ao público. Eu acho fundamental. As pessoas tinham que se informar um pouco melhor antes de ficar falando. Como disse, o fato de haver corrupção ou de a pessoa usar mal uma coisa não significa que o recurso deva ser condenado.

Qual a importância de coletivos como o seu grupo de stand-up Coisa de Preto, que é composto só de comediantes negros?
Eu acho muito importante. Fizemos um show em agosto, num teatro em Vila Gustavo e a gente percebeu que foi um público predominantemente negro – coisa que é raro você ter, uma plateia negra num teatro, né? Muita gente indo ao teatro pela primeira vez. E se identificava com o que a gente falava, conseguia rir de questões que normalmente são muito pesadas e tristes, entendeu. Além do que, a existência do nosso grupo está revelando novos valores do stand up, dos humoristas negros.

Pode ser também uma forma de se discutir o racismo?
Isso brinca e trabalha a autoestima do negro. Pô, tem coisas das quais você pode rir, problemas dos quais você pode rir. E tem outro ponto de vista: que você era simplesmente o alvo da piada… Negro era a vidraça da piada, agora pode ser a pedra também. A verdade é que o negro sempre sentiu um desconforto quando era o alvo de uma piada grosseira e tal, e agora a gente pode brincar com isso, pode, enfim, inverter a posição desse jogo.

Qual o tipo de piada do show?
São vários comediantes e cada um tem a sua personalidade, a sua realidade. Eu sou um preto criado no meio dos brancos, então eu me sinto uma espécie de “Mogli, o menino preto”… Eu brinco com isso, com essa coisa de eu morar num condomínio de luxo e toda vez que chego de madrugada no meu condomínio até eu sou barrado, porque a segurança é rigorosa. Também tem gente que brinca com a coisa do chamado racismo reverso. Mas é aquela coisa que a gente fala assim: “Pô, durante 518 anos o preto foi o alvo da piada. Então, se o branco for durante uma noite não tem problema, né? Acho até que se o branco for lá e não tiver esse tipo de piada ele vai ficar meio frustrado, vai falar: “Pô, mas que showzinho mais Nutella.”

Hoje se discute muito sobre quais os limites do humor, quais assuntos são passíveis de piada. Como vê a questão?
O limite depende de cada um. Depende da maneira como você conduz a coisa. Tem espaço pra todos os lados. Têm humoristas produzindo piadas politicamente corretas, tem um público que curte a piada politicamente incorreta, mas o cara tem que ter um estômago para conseguir lidar com a reação das pessoas. O limite do humor está na sua capacidade de pagar por um bom advogado.

Mas como você lida com isso? Você se policia para não ofender determinados grupos?
Acho que há certo exagero. Existem conquistas, existem coisas interessantes. Não fico com saudade do tempo em que podíamos ser machistas, racistas, homofóbicos, esse tempo passou. Mas também penso que tem piada que funciona, entendeu? Tem piada divertida, piada que não é ofensiva. Tá havendo uma dificuldade muito grande de interpretação de texto, sabe? Aí acaba se considerando racista algo quando você tá simplesmente abordando o tema do racismo, ou machista por abordar esse problema. Esses exageros, eu costumo passar por cima. Agora, evoluímos. É bom que a sociedade evolua.

‘COTA RACIAL NÃO RESOLVE
O PROBLEMA. 
O QUE
RESOLVE É INVESTIR NA

EDUCAÇÃO BÁSICA’

Você já chegou a dizer que não era a favor de cotas raciais em universidades públicas e que achava o critério socioeconômico mais justo. Ainda pensa assim?Deixa eu esclarecer. Não sou contra cota racial. Eu acho que a cota racial não resolve o problema, o que resolveria seria um investimento na educação básica de alto nível. Por outro lado, você tem o problema do negro pobre e tem a questão dos pobres de uma maneira geral. Uma cota social, no meu entender, também atenderia. Só que, no momento, você tem uma defasagem muito grande da condição do negro para o branco, mesmo o branco pobre tem condição favorável em relação ao negro pobre – e a cota racial acaba funcionando. O que me incomoda é isso acomodar as autoridades.

Você estudou no São Bento, um dos colégios mais tradicionais do Rio. Isso foi determinante na sua vida?
Isso é indiscutível. Minha mãe era professora primária de escola pública e ficou preocupada quando eu comecei o ginásio numa escola fraca. Ela buscou o São Bento, falou com o reitor, eu fiz uma prova e ganhei uma bolsa. Isso me abriu os horizontes, acabei tendo contato com um mundo ao qual eu não tinha acesso, ao qual meus pais nunca tiveram acesso. A partir dali eu conheci gente rica, gente influente. Depois, com o ensino do São Bento, eu passei para a Engenharia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Minha professora de matemática me apresentou o marido dela, que era diretor de uma empresa, eu comecei a estagiar. É a esse networking que o pobre não tem acesso.

O Casseta & Planeta está no Youtube, uma plataforma que é mais utilizada por millennials, e não o público originário de vocês. Houve alterações no tipo de piada pra alcançar essas pessoas?
Desde a Copa do Mundo a gente vem postando vídeos. O público está gostando, tem muita gente não conhecia nosso trabalho e outros estão matando a saudade. Mas a gente não tem a intenção de virar aquele coroa, tiozão metido a jovem. A gente é o que a gente é, entende?

O que você acha de feriados como o da Consciência Negra?
Eles levantam a questão. As pessoas se achavam mais confortáveis quando o negro era invisível na sociedade. Isso não dá. Não tem mais espaço pra isso. Temos que falar sobre problemas dos negros, assim como os da população marginalizada: os gay, trans, a mulher. Eu acho que o mundo evolui cada vez que essas discussões são colocadas em pauta. E brasileiro adora um feriado, né?