‘Natal de tolerância já é um avanço’, diz Christian Dunker

‘Natal de tolerância já é um avanço’, diz Christian Dunker

Sonia Racy

25 de dezembro de 2019 | 00h45

CHRISTIAN DUNKER FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Para o professor titular de Psicologia da USP e psicanalista Christian Dunker, o cristianismo no Brasil vive hoje uma nova experiência da fé. Diferentemente do que acontecia no passado, hoje a forma como a sociedade vive a religiosidade é bem parecida com os novos esquemas de trabalho: sem hora definida para acontecer. E, define, em meio a um Natal novamente polarizado, que é tempo de necessária reinvenção. Leia abaixo a entrevista.

Qual impacto sofre o sentimento de religiosidade, num contexto em que o cristianismo se mistura com outras crenças, a ciência vai desafiando a fé e o mercado de consumo impõe prioridades?
Tivemos no Brasil uma mutação das nossas formas religiosas e uma economia na tolerância e na convivência que sempre caracterizou o sincretismo brasileiro. Essa mudança pareceu repentina para muitos, mas já vinha acontecendo há pelo menos duas décadas. Na experiência religiosa mais antiga, existia uma divisão entre o sagrado e o profano, com datas sagradas e lugares sagrados. Existiam pontos em que a gente se conectava com a experiência maior da divindade ou com a experiência. Hoje isso não acontece.

Então, como se dá atualmente essa religiosidade?
Essa nova fé, principalmente a fé evangélica, é a suspensão dessa separação. Deus está por toda parte e a qualquer momento. Ele está na sua experiência no ônibus, na sua experiência no trabalho. As redes de televisão ofertam uma experiência, vamos dizer assim, espiritual, durante 24 horas por dia. Isso se junta um pouco com a modificação da nossa experiência no trabalho. Hoje, o trabalho também não para, não tem mais essa interrupção clara do fim de semana. É uma forma de você descer a divindade para uma relação com os interesses mais mundanos. É como se a gente tivesse voltado ao momento em que todas essas experiências são atravessadas e confundidas com a experiência teológica. É por isso que a gente tem então a emergência tão extensa de fake news – que no fundo podem ser vistas não como artigo de informação, mas um artigo de fé.

O Especial de Natal do Porta dos Fundos foi considerado ofensivo por muita gente. Considera que os valores cristãos mais conservadores ainda têm muito peso para as pessoas?
Os valores cristãos têm muito mais expressão do que se supunha. Estão bem mais presentes, mais fortes, muito mais coesose mais organizados do que a gente achou. Talvez tenhamos imaginado que o fato de termos incluído muito mais gente nas escolas e nas universidades teria trazido automaticamente alguns passos no sentido de maior esclarecimento e emancipação para as pessoas. Os valores cristãos sofreram uma mutação a ponto de a gente ter hoje ostensivamente, e de novo sem causar muito pudor, Jesus Cristo atrás de uma arma, né? A gente tem notícias de milícias evangélicas que estão… Isso é uma corrupção do cristianismo.

Corrupção em que termos?
O cristianismo é uma religiosidade universalista. Por mais que ela tenha encoberto contradições sociais, diferenças, ela também serviu para apaziguar alguns ânimos, e portanto docilizar algumas pessoas. No Brasil, a religiosidade nunca foi bélica. Nunca foi uma religiosidade ofensiva àquele grupo que não é exatamente o seu. Agora, ela mudou sua função social. Alguns cristãos, em nome de uma certa interpretação da Bíblia, atacam, vilipendiam e humilham para produzir uma militância armada. A bancada da bala e da Bíblia não começou em Brasília, ela começou na realidade mais humilde das pessoas.

Como fica o Natal em um ambiente e um momento de tanta polarização?
As pessoas estão machucadas, ressabiadas, ressentidas. Temos famílias partidas ao meio, grupos de amigos que se autossegregam… Isso promete um Natal tenso mais tenso e pobre que o habitual. O Natal é um momento de paz e reconciliação, mas acho pouco provável que isso venha a acontecer. Se a gente tiver um Natal de tolerância, de capacidade assim de suportar as diferenças e suportar ofensas recebidas, isso já vai ser um grande avanço.

Pode aparecer um sentimento de culpa nesse período?
Ele pode ficar latente. É um momento em que começa uma espécie de ajuste de contas com o ano que se passou. A culpa é, no fundo, um afeto ligado a um sentimento de déficit do nosso próprio desejo. Nos sentimos culpados quando percebemos que não fizemos tudo que queríamos. Aí aparece a conta, que vem por trás da máscara do reencontro familiar, onde olhamos para nós mesmos através dos outros. Vem uma comparação com o ideal: o que é que a gente queria mesmo?

Como as pessoas normalmente enfrentam esse sentimento?
Uma característica do nosso estado é que, no lugar de uma religiosidade com base no sagrado, a gente inventou uma religiosidade à base de resultados e de idealizações. O resultado não vem, o que é que a gente faz? A gente redobra a idealização, inclusive a idealização dos inimigos. Criamos cada vez mais inimigos para garantir nossa crença de que os outros são os culpados pela nossa infelicidade.

Como a pessoa hiperconectada pode ver o significado do Natal por trás do que aparece nas redes sociais?
Eu diria que o Natal é parte da nossa história, da nossa memória, parte dos nossos sonhos, nossos sonhos infantis. Se a gente não cuida deles, se não nos lembramos deles com cuidado, inclusive das nossas próprias ilusões, não conseguimos nos reinventar. E é disso que estamos precisando neste momento. /MARCELA PAES

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