País parece ’embarcar na canoa errada de novo’, diz Ney Matogrosso

País parece ’embarcar na canoa errada de novo’, diz Ney Matogrosso

Sonia Racy

17 Setembro 2018 | 00h45

NEY MATOGROSSO. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO
NEY MATOGROSSO. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Cantor critica o politicamente correto, se diz
‘assustadíssimo’ com a eleição
de outubro mas acredita que se algo ruim vier,
‘a gente sai disso, não é definitivo’

Ney Matogrosso tem 77 anos e não para. Ficou cinco anos ininterruptos fazendo shows até abril passado, deu uma respirada… e já prepara novo repertório, “só com músicas conhecidas”. A nova turnê começa no início do ano que vem e, desta vez, o cantor não lança nada inédito. “Só canto o que quero cantar, independentemente de ter sido cantado ou não, por quantas pessoas tenha sido cantado”, disse à repórter Sofia Patsch em conversa no backstage do show que fez em recente desfile da Renner, no Espaço Villa Lobos., em São Paulo.

Polêmico desde criancinha, Ney deixou claro, na conversa, seu desgosto pelo domínio do politicamente correto na sociedade e dá o recado: “Agora dizem: ‘ah, mas o mundo tá careta’. Azar do mundo. Vou continuar sendo eu, não vou me diminuir, não vou me esconder para agradar ao mundo, o mundo que se dane. Se não gostar, coma menos”.

No cenário político ele se diz “assustadíssimo” com as eleições de outubro próximo, mas com uma certa ponta de otimismo. “Lá dentro, olho pra essas coisas todas e sei que é passageiro (o cenário de crise).

Disparando queixas e críticas ao mundo político, mas avisando que não iria citar nomes ou partidos, foi adiante: “Já vivemos isso, está parecendo que vamos embarcar nessa canoa errada de novo. Mas a gente sai disso, não é definitivo.” Para ele, o último governo atrasou o País em mais de 20 anos. “Sem dinheiro para educação, pra saúde. Vejo isso como uma coisa proposital, pra deixar o povo bem, bem estupidificado”. Confira os melhores momentos da conversa.

Você sempre foi uma referência na questão da liberdade de gênero, de ser o que quiser, independente do sexo.
Sim, gosto de ser homem, mas não preciso me restringir à ‘machice’, esse lado escroto, né, violento. Acho que você pode ser homem e ser mais suave, mais delicado. Não muda, não vai te desmerecer em nada.

Acha que o mundo está menos ou mais machista?
Eles (os machistas) estão cada vez piores, matando mulheres a toda hora. E não é só aqui, não é? Aqui é gritante, porque tudo fica muito evidente no nosso País. Tudo é muito de uma vez só.

E como vê os movimentos que as mulheres estão fazendo para mudar esse cenário?
Acho tudo válido. Qualquer pessoa que tenha direitos que não são respeitados tem que se valer deles. Por exemplo, agora dizem: “Ah, mas o mundo tá careta”. Azar do mundo, vou continuar sendo eu. Não vou me diminuir, me esconder pra agradar ao mundo. O mundo que se dane, se não gostar coma menos. Tenho direitos adquiridos, ninguém me ofereceu, ninguém me colocou na mão. Ninguém me disse: “olha aqui, você tem isso”. Não. Lutei por eles e não vou abrir mão deles. Nesta encarnação não abro mão .

Ano passado repercutiu muito o que você afirmou sobre o mundo estar muito ‘politicamente correto’, coisa que você acha muito chata.
E acho mesmo, porque você não pode mais brincar. Qualquer coisinha agora é um processo, é uma loucura viver nesse mundo. Mas estou aqui e não abro mão dos meus direitos.

‘QUALQUER COISA
VIRA UM PROCESSO,
NÃO DÁ PRA
VIVER ASSIM’

E a história da menina de 5 anos que usou você como tema do aniversário dela? O fato o surpreendeu?
Gostei daquilo. Falei com a mãe, mandei uma mensagem pra ela. Olha, surpreender não me surpreendeu porque sei que as crianças sempre gostaram daquela figura, desde os Secos e Molhados. Para elas não tinha essa conotação de sexualidade, acho que elas viam um brinquedinho andando, se mexendo, rodando, cantando. Elas sempre gostaram. Ouso dizer que elas foram meu salvo-conduto, porque era um momento muito pesado no Brasil, onde as pessoas eram assassinadas, o que poderia ter acontecido comigo.

Você já disse em entrevista que na ditadura tinha mais liberdade individual do que hoje…
As pessoas todas, no geral.

Pode falar a respeito?
Em termos comportamentais, minha filha, o Brasil andou, saiu disparado, era uma coisa louca. Tinha aquela praia ali do lado do Arpoador, eu via aeromoças de voos internacionais… Elas trocavam a roupa, ficavam nuas, isso era uma coisa normal, ninguém se chocava de ver uma aeromoça chegar ali, tirar a roupa, vestir o biquíni e entrar no mar. E depois ela tirava o biquíni, ficava nua, vestia a roupa. Mas ah, vai botar o peito de fora hoje! O peitinho, agora só pode botar um, só pode mostrar um agora, né, de novo essa palhaçada. É uma palhaçada.

E o que espera de outubro, das próximas eleições?
Estou assustadíssimo, mas vou votar, porque se depender de mim pra não cair em determinadas mãos, não cairá.

Está assustado ou otimista?
Olha, lá dentro eu olho pra essas coisas todas e sei que é passageiro. Tudo é um movimento, é um fluxo. Já vivemos isso, está parecendo que vamos embarcar nessa canoa errada de novo… Mas a gente sai disso, não é definitivo. Pena que esse governo que está aí atrasou o Brasil em mais de 20 anos, não é, com essas coisas horrorosas, sem dinheiro para educação, pra saúde. Vejo isso como uma coisa proposital, pra deixar o povo bem, bem estupidificado.

Acha que é tudo premeditado?
Acho que é pra ser mais fácil de manipular. Porque gente que se alimenta, gente que lê, que estuda e raciocina não deixa isso acontecer. Mas um povo que está de novo passando fome… No carro vindo pra cá (o show no Villa Lobos) ouvi que 13 milhões de crianças estão subnutridas no Brasil. Treze milhões de crianças subnutridas vão ser 13 milhões de adultos que não serão úteis para nada. Mas não tem ninguém lá em cima que julga a gente, quem julga a gente somos nós, a nossa consciência.

Você disse que sempre gostou de atuar. Já atuava nos palcos e começou a fazer cinema. Como está a atividade como ator?
Olha, faço de vez em quando. Teatro ocupa tanto quanto a música, cinema não, cinema você vai ali uma semana, um mês, resolve e segue sua vida. Mas eu gosto muito de fazer cinema.

Imagino que seja difícil conciliar com os shows. Provavelmente você é o artista da sua geração que mais faz shows, não?
Parei agora em abril depois de trabalhar direto durante cinco anos e um mês, sem parar.

Que pique! Qual é o segredo para estar tão bem aos 77 anos? Você come pouco, não?
Não tenho nenhuma restrição alimentar, mas a quantidade de comida que eu como diariamente é tão pouca…

E sempre foi assim?
Sempre gostei de comer pouco. Não gosto de me levantar da mesa pesado, com sono. Prefiro levantar da mesa leve. De noite então, se eu mostrar pra você o que eu como… você não vai acreditar.

O quê é que você come?
A quantidade é nada, duas colherinhas de arroz e uma coisinha qualquer, um verdinho, ou uma carninha, mas assim, pouquinho, só para não dormir de estômago vazio. Mas não tem sofrimento, tá?

Acha que esse é o seu segredo para envelhecer bem?
Olha, não sei se é o segredo, ouvi dizer que isso aí no Japão é considerado uma fórmula para o alto índice de longevidade de lá.

E pelo visto a teoria está sendo comprovada por aqui também…
É, pelo jeito vou comprovar aqui. Mas também tem a genética. Conheci o avô da minha mãe com 104 anos. Minha mãe tem 95 e está solta aí pelo mundo viajando, foi pro Mato Grosso, não sei pra onde…

E como é sua rotina agora? Disse que deu uma parada depois de 5 anos ininterruptos.
Dei uma parada… mais ou menos. Na verdade já estou com repertório pronto para o meu próximo show.

Acabou de parar e já está com tudo pronto para sua próxima turnê?
Sim, ela só não tem um nome ainda. Mas já tenho o roteiro pronto.

Pretende se jogar na estrada quando?
Talvez ali pelo começo do ano que vem.

Só música nova?
Não tem nenhuma música inédita, e é disso que eu mais estou gostando. Só canto o que quero cantar, independentemente de ter sido cantado ou não, ou por quantas pessoas tenha sido cantado.

Você ainda tem uma reserva ambiental no Rio de Janeiro?
Tenho sim, no município de Saquarema. Mas não é praia, fica numa montanha e agora transformei aquilo numa área de soltura de animais silvestres, todos os animais, pássaros, tudo que tiver na Mata Atlântica eu estou soltando lá. Desde jiboia a cateto e gato do mato.

De onde vêm esses animais?
Do Ibama, porque eles recolhem os animais e depois não têm onde colocar. Por incrível que pareça, eu sou dono do único lugar no Rio de Janeiro que oferece esse serviço de espaço para a soltura. Precisaria ter mais mil, porque o Ibama não dá conta do que recolhe e os bichos ficam de alguma maneira guardados de forma inteiramente inadequada. Os bichos ficam presos, muitos na mesma gaiola. Mas só animais nativos da Mata Atlântica.

Sempre gostou de animais?
Sempre gostei e sempre criei. Tinha uma coruja que dormia debaixo do meu travesseiro. Tive muitos bichos, lagartos, daqueles verdinhos, e cobras.

Gosta dos bichos mais exóticos, então?
Não exóticos, eu gosto é dos bichos que conseguem se aproximar mais facilmente de mim. Mas já tive 11 cachorros também, que eu levava para o Mato Grosso. Eles entravam na floresta comigo.