Não vemos ninguém pensando o País a sério, adverte professor

Não vemos ninguém pensando o País a sério, adverte professor

Sonia Racy

28 de novembro de 2016 | 00h30

IARA MORSELLI / ESTADÃO

IARA MORSELLI / ESTADÃO

Marcus Vinicius de Freitas, da Faap, acha que a vitória de Trump pode
ser boa para o Brasil mas diz que
num cenário de novos desafios
da globalização, as pessoas ‘só
pensam nas próximas eleições’

No início de 2017 o professor Marcus Vinicius de Freitas se instala em Oxford, na Inglaterra, onde será, por breve temporada, visiting professor da Blavatnik School of Government, da Oxford University. E por lá ele prepara, também, o lançamento do livro China and the Global South – fruto de seus dez anos como professor de Direito e Relações Internacionais na Faap, no qual aborda os impactos do avanço chinês pelo planeta afora. 

“Em 20 anos a China despejou no mercado de trabalho 400 milhões de pessoas”, diz o estudioso, “e o desemprego no Ocidente é um resultado disso”. Os chineses, ressalta, são hoje os principais parceiros comerciais de 120 países e planejam colocar o yuan no lugar do dólar como a moeda mais importante do mundo.

Esse é um dos desafios futuros que ele aborda, nesta entrevista a Gabriel Manzano, na qual analisa também a vitória de Donald Trump nos EUA, as incertezas do Brexit na Europa e o que fazer com a enorme massa dos excluídos da globalização –, os desempregados.

A chegada de Trump, diz o professor, pode ser uma oportunidade para o Brasil, se a economia americana crescer de fato e passar a comprar mais. Mas o desafio brasileiro é outra ordem, destaca. “Não temos ninguém pensando nessas mudanças no planeta nem no nosso papel no longo prazo. A globalização aponta os desafios futuros mas para nossos governantes o futuro é só a próxima eleição.” A seguir, os principais trechos da entrevista.

A cena internacional foi agitada, recentemente, pela vitória do Brexit, na Grã-Bretanha, e a de Donald Trump nos EUA. Quais as implicações desses dois fenômenos?
Tanto um como outro têm a ver com a questão do desemprego. Calcula-se que existam hoje, nos EUA, cerca de 96 milhões de pessoas fora do mercado de trabalho. O cenário é também preocupante na Europa. De onde se formou essa massa de desempregados? Da tecnologia, da integração das cadeias de produção nas empresas e da migração dos empregos para a China, que em 20 anos colocou mais de 400 milhões de pessoas no mercado de trabalho. Quando alguém compra uma tevê ou roupa barata, made in China, enfraqucce o mercado local e os empregos somem. Tecnologia, modernização e a cultura digital não criaram novas oportunidades profissionais. E quem manteve o emprego hoje trabalha mais, ganha menos e viu piorar o seu padrão de vida.

Quanta gente perdeu com isso?
Há estudos vários, alguns no Banco Mundial, onde estive há um mês, que calculam em algo como 1 bilhão de pessoas. Os excluídos da globalização.

A ascensão de Trump e sua vitória têm algo a ver com a mudança?
Sim. Por que sua mensagem eleitoral foi o que milhões de americanos queriam ouvir. O que ele disse ao cidadão? Vamos baixar imposto das corporações, vamos rever os acordos comerciais e trazer o emprego de volta para os Estados Unidos. Isso é que foi decisivo.

Alguma ideia, pela frente, de como ajudar esses excluídos?
O que vejo, pelo menos no Brasil, é uma agravante. A grande maioria das universidades não está preparando os alunos para esse mercado de trabalho. Não há uma conjugação minimamente adequada da atividade acadêmica com a necessidade real do mercado. E as escolas não estão sabendo o que ensinar a às novas gerações.

O Brasil é parte desse cenário, com desemprego alto, educação ruim e serviços precários. Como essas mudanças vão afetá-lo?
Comecemos pelo desemprego. Venha como vier uma futura reforma trabalhista, os atuais 13 milhões de desempregados não voltarão a ter emprego nos mesmos termos anteriores. Creio que a carteira de trabalho, como a temos, está com os dias contados. No quadro econômico que temos não conseguimos criar empregos nem para jovens nem para a terceira idade, cuja aposentadoria tende a demorar mais. Um dos motivos disso é que temos uma pobreza de pensadores, de gente refletindo sobre o mundo, e uma mesquinhez de pensamento. Pensamos curto.

Pode explicar?
O Brasil tem um grande potencial, todas as condições para ser um país bem resolvido. Só que ficamos nos preocupando com coisas de menor importância, sem visão de longo prazo. Por exemplo, se você me perguntar qual a agenda do Itamaraty para os próximos 20 anos, eu diria que… não sei. Isso ocorre porque não temos a sociedade atuando junto. Nos EUA eles têm aqueles think tanks que planejam, antecipam como seria este ou aquele passo. Aqui não temos isso, nos tornamos imediatistas. Esses amplos processos de globalização apontam os desafios, mas o que você mais vê, nos altos escalões do poder, é todo mundo preocupado com a próxima eleição.

Diante disso, Trump na Casa Branca ajuda o Brasil ou atrapalha?
O que podemos fazer é avaliar cenários. O projeto dele é tornar os empregos mais competitivos e baixar impostos das empresas. Isso faz a economia crescer e pode haver uma alta de juros por lá, que vai atrair capitais do mundo todo. Mas também significa que vão importar mais, e o Brasil é um fornecedor importante de commodities e manufaturados. Ele poderia, então, se organizar e aproveitar o momento.

Qual o impacto imediato de um governo Trump para a Europa?
Na Europa, começa por provocar um aumento nos gastos militares. Ele já disse que os EUA não vão “pagar sozinhos” os custos de manutenção das forças de segurança no Velho Continente. Isso vai complicar economias europeias, às voltas com desemprego e pouco investimento, que estavam “encostadas” nessa ajuda americana.

O sr. está terminando um livro sobre a China e uma de suas visões é que a moeda deles, o yuan, tende a substituir o dólar como padrão monetário mundial. Por que acha isso?
Desde os anos 70, a China vem crescendo, por dentro e por fora, e já é, no momento, a principal parceira comercial de 120 países. Americanos, europeus, Brasil, Argentina… Para o futuro – e a noção de tempo, para os chineses, é uma coisa bem diferente da nossa – eles desenham uma economia em que o yuan vai ser a principal moeda do planeta, superando o dólar. Estão trocando reservas em alto ritmo. Veja, se o Brasil vende muito para a China e a Argentina também, os dois podem comerciar trocando suas reservas de yuan. Esse é um grande desafio daqui pra frente.

Por falar em desafio, no que acha que vão dar as tensões entre europeus e a crescente parcela de imigrantes, principalmente muçulmanos?
Com o tempo, o Ocidente vê aumentar a dificuldade para “impor o pacote” de suas visões de mundo. Atuou na Tunísia e na Líbia sem preparar o dia seguinte e desestabilizou a região. Mas o grande motor de mudanças, neste caso, é a demografia, em especial na Europa. A taxa de natalidade entre europeus é baixa e por isso eles têm de importar mão de obra. Mas a taxa de natalidade dos imigrantes que lá chegam é alta. O que sso aponta? Que, no futuro, o eleitorado muçulmano será maior que o dos nacionais de várias nações e elegerá cada vez mais representantes. E na vida social há coisas a levar em conta. Grupos muçulmanos cuidam dos presos nas cadeias, por exemplo _ e estes saem de lá adeptos do islamismo.

EUA fortes, China em alta, Rússia fraca, Europa dividida. Como vê os grandes blocos de poder daqui a 10 ou 20 anos?
Do ponto de vistas da defesa, a bipolaridade EUA-Rússia nunca deixou de existir, por causa do poder nuclear. Economicamente, creio que tende a se consolidar o atual sistema multipolar.