‘Não tenho vocação para ser óbvia’

‘Não tenho vocação para ser óbvia’

Sonia Racy

01 Dezembro 2014 | 01h00

Foto: TV Globo

Há 23 anos nos palcos, a atriz, conhecida por personagens fortes, se aventura em desafio maior: dirigir documentário sobre a carreira do marido Hector Babenco.

Aos 40 anos, 23 deles vividos nos palcos – “o teatro me mantém viva…” – Bárbara Paz é, o tempo todo, uma pessoa intensa. Dividindo há 14 anos teatro com tevê, marcou-se por viver personagens fortes. “Já fiz mocinhas, mas acho que combino mais com as problemáticas, não óbvias. Não tenho vocação para ser óbvia”, diz a atriz sobre si mesma. E gosta do resultado: “Pra mim já consegui o que queria. Conquistei um espaço”.

Ou seja, está na hora de ir em frente – e ela se aventura na direção. Está gravando um documentário sobre a vida e a obra de seu marido, o cineasta Hector Babenco. “Estou fazendo a minha ilha de Bergman, com a profundidade e beleza que Hector tem”. Ainda sem previsão de estreia.

E outra parceria do casal já está em andamento: começaram a gravar ontem o filme Meu Amigo Hindu, novo longa de Hector, onde ela vive uma atriz – um dos pares do protagonista, vivido por Willem Dafoe. “O resto vocês veem no cinema…”, brincou. Logo após viver Ana, na minissérie Dupla Identidade, da Globo, Bárbara conversou com a coluna em almoço no restaurante Spot, em São Paulo. A seguir, os principais momentos da conversa.

A vontade de dirigir surgiu da convivência com o marido?

Não. Bem antes. Já fiz curso de cineasta, sou cinéfila, o cinema é a minha vida, sempre foi, teatro e cinema. Sempre tive essa sede de conhecimento da sétima arte. Não pude fazer faculdade de cinema, fiz jornalismo. E agora estou fazendo um documentário sobre o Hector Babenco, meu marido.

É sobre a vida dele, não?
É. A vida e a obra dele. Estou fazendo minha “ilha de Bergman” com a profundidade e beleza que Hector tem. Não tenho pressa de terminar. Quero captar o máximo que posso, a dimensão que a vida e a obra dele têm. O nome provisório é O Homem que Sonhava Filmes.

Você também está no elenco do filme Meu Amigo Hindu, que Babenco está dirigindo. Qual a sua personagem?
É uma atriz e será uma das mulheres do cineasta, a ser interpretado por Willem Dafoe. E vou dirigir o making of do longa com o André Brandão. Estou fazendo um intensivo de inglês, porque o filme será quase todo nessa língua. Estamos bem no início, começamos ontem as gravações. Não posso mais falar nada. O resto vocês veem no cinema…

Como é a relação marido e mulher e diretor e atriz?
É muito boa. Ele gosta do que eu proponho e eu gosto do que ele traz. É claro que tem seus momentos de inseguranças, mas ele gosta do que eu trago, do que eu proponho, exatamente isso, e eu gosto do que ele traz. Queremos fazer mais e mais coisas juntos, continuar essa parceria. Ele me soma, ele me faz melhor.

No teatro, você vai fazer o papel da célebre Maggie, de Gata em Teto de Zinco Quente. Quando estreia?
Ano que vem. Sempre quis fazer isso. Achei que quando chegasse aos 40 Maggie era a personagem que eu queria fazer.

Por que aos 40 anos?
Porque é a idade certa para essa personagem. A pessoa tem que ser madura. Estou mais segura hoje do que aos 30 para fazê-la.

Você está sempre no palco?
Nos últimos anos não saí dele. Mesmo gravando a novela Amor à Vida eu fazia peça junto, no Rio. Ensaiei a Vênus em Vison, peça da Broadway, uma comédia. Saía correndo do Projac, na carona do motoboy, para ir mais rápido. A peça Hell também encenei enquanto gravava Morde e Assopra. Como não sou do Rio, na época eu não tinha casa lá. Então quando acabava a gravação eu me sentia meio perdida, meio órfã. O teatro é que me mantém viva o tempo todo.

Seus personagens geralmente são muito fortes.
Acho que esses personagens me encontram, me buscam. Já fiz mocinhas, mas acho que combino mais com as problemáticas, não óbvias. Não tenho vocação para ser óbvia.

Já recebeu um convite para trabalhar com algum diretor de fora do País?
Olha, não tenho grandes sonhos em trabalhar nos Estados Unidos, embora tenha pela frente um filme que será falado em inglês. O único cara com quem tenho vontade mesmo de trabalhar é o Almodóvar. Quero fazer meu ofício aqui no meu país. Então, no meu modo de ver, já ganhei, já consegui o que queria. Conquistei um espaço, uma casa onde posso exercer meu ofício.

Fala da Rede Globo?
A Globo tem uma soberania, uma excelência como dramaturgia, que sabemos ser a melhor que a gente tem aqui. Trabalhar nessa empresa pra mim é um ganho. Eu vim lá de Campo Bom, no interior gaúcho, entendeu? Eu já ganhei…

Como avalia sua participação no reality Casa dos Artistas?
Fui a primeira pessoa a ganhar um reality show no país. Acho que estou no Guinness… (risos). Tudo faz parte da minha trajetória, sou uma sobrevivente. Vim para São Paulo sozinha tentar a vida, já não tinha meus pais. Eu lutei para conseguir o que queria.

Acha que sua participação no reality, há 14 anos, atrapalhou a carreira na tevê?
Tive os dois lados da moeda, foi um tsunami, eu entrei no olho do furacão, não tinha noção de que ia dar 59 pontos de ibope no dia da final. No dia seguinte ao da notícia de que eu ganhei estava escrito no jornal: Em uma guerra da audiência, vence a Bárbara Paz com 59 pontos no Ibope. Eu tenho o maior orgulho. E não era a atriz que estava lá, era a Bárbara. Estava ali por que tinha ganhado um cachê que era R$ 30 mil na época. Se pudesse escolher, talvez tivesse tido uma trajetória como a da Fernandinha Torres, da Andrea Beltrão. Me sinto orgulhosa de ter revertido minha imagem.

Realmente reverteu. É casada com um diretor respeitado e dona de papéis marcantes.
Exato. Foi depois do reality show que aprendi a fazer televisão no SBT. Porque eu não sabia mesmo, acho que foi uma escola pra mim.

Você costuma se arrepender das coisas?
Nunca me arrependo do que faço, me arrependo das coisas que não faço. Porque às vezes eu me arrependo e falo: por que é que eu não fiz? Sou daquelas que batem na porta mesmo, não tenho medo de dizer “presta atenção em mim”. Sempre fiz isso, desde pequenininha. É da minha essência. Me criei muito sozinha, um bicho solto mesmo, sobrevivendo. E nunca abandonei o teatro, que me deu a base. Nós estamos falando de 14 anos do reality. Nesse tempo eu fiz umas 7, 8 peças. Já fiz 6 novelas, filmes, curtas e agora estou começando a dirigir.

Você usa redes sociais?
Instagram. Tenho Facebook, mas só para amigos. Pro teatro é muito bom, tem pessoas que não costumam ir ao teatro mas vão me ver por causa das redes sociais.

Não acha desgastante passar todos esses anos cada hora em um lugar?
Costumo dizer que eu vivo em uma mala há muitos anos. Por um lado, busquei isso. Se estou trabalhando é porque estou feliz. Eu só estou feliz quando eu estou trabalhando.

Não pensa em se estabilizar em algum momento?
Na estrada que eu estou é difícil. Esse ano, na verdade, me deu um pouco de pânico, vontade de parar. Acho que é porque trabalhei muito, viajei muito com as peças, fiz três ao mesmo tempo. Num fim de semana eu faço uma e no seguinte, outra. Talvez seja porque não tenho filhos, não tenho uma estrutura familiar que me exija ficar em um lugar só.

Pretende ter filhos?
É uma pergunta que todo mundo me faz. Não tenho essa urgência, até agora tive que cuidar de mim e não quis ter até agora. Mas acho não quero passar essa vida sem um filho não.

Isso tem alguma relação com as dificuldades do começo de sua vida?
Minha infância foi bem complicada. Perdi meu pai com 6 anos, minha mãe aos 17. Assim, não tive muito apoio na infância, sabe? Ninguém lia livros pra mim. Assim, foi um tanto tardio o meu contato com leituras, com interpretação de texto, com o cinema. Mas não quero falar do passado, até porque todo mundo já sabe disso. Hoje o cinema da minha cidade tem o meu nome – Bárbara Raquel Paz. Uma homenagem.

Você também ganhou medalha de honra ao mérito.
Da Marta. Bem bacana.

Você foi a atriz mais jovem a receber, não?
Sim, fui. No ano passado, junto com meus mestres, Antunes Filho, Abujamra e Fagundes. Aí eu me senti super-honrada.

Você é vaidosa?
Acho que toda mulher é.

É muito inquieta?
Total. Por isso tenho que fazer ioga, tomar muito chá.

O que você acha de as protagonistas de hoje serem cada vez mais novas e menos preparadas?
É delicado falar, sou uma atriz de teatro. Minha experiência me diz que a grande bagagem de toda atriz é o teatro, ele dá um alicerce. Mas há atrizes que não fazem teatro e são grandes na televisão. A Glória Pires – que eu saiba, ela nunca fez teatro – é uma grande atriz. Então é muito relativo isso. Mas hoje o Projac está incentivando leituras de peças com grandes diretores para incentivar esses meninos sem bagagem teatral. O que acho muito legal./ SOFIA PATSCH