“NÃO TENHO 22 FILHOS”

“NÃO TENHO 22 FILHOS”

Sonia Racy

16 Julho 2012 | 10h39

Tite, técnico do Corinthians, diz que clube não é “uma família”. Mas não admite bebedeira, cigarro, festa com mulheres e nem vai à farra com atletas por achar “depreciativo” para o cargo

Tite costuma desabafar com a mulher, Rose, as agruras e sabores de comandar um dos maiores clubes do País. E foi graças a ela que Adenor Leonardo Bacchi não é mais aquele homem de sucessivos atritos com dirigentes – seguidos de demissões. Com a histórica taça da Libertadores da América na mão, ele tem a serenidade para dizer que hoje não bate mais de frente com diretoria. “Rose me ensinou a apenas explicar meu ponto de vista. Ela diz que como já fui atleta, professor de educação física e técnico, minha cabeça às vezes é diferente da deles.” Com os jogadores, ele é rígido e exige o mesmo tratamento. “Odeio falsidade. Prefiro que falem na minha cara. Isso é grandeza.”

Pai de dois filhos, define-se caseiro, gosta de cinema e de pescar na praia – desde que não precise colocar a isca e nem seja em alto-mar. Sente náuseas. Apelidado de “filósofo” – apesar de não se interessar por filosofia – recebeu a coluna no Centro de Treinamento do Corinthians.

Qual é o gosto da vitória?

Doce, se conquistado não a qualquer custo. Mas à custa de trabalho, lealdade, competência. Porque tem sacanagem em entrar para o campo e machucar seu adversário para vencer. Às vezes, as pessoas comentam: “Pô, mas o futebol tem muita coisa errada”. Tem porque é uma amostragem daquilo que a sociedade é. Só que com visibilidade mais rápida e ampla.

Muitas decepções?

Sim. Uma vez, durante o intervalo de um jogo que vencíamos, fui falar com minha equipe. E eles disseram: “Professor, o adversário vai nos entregar o resultado porque foi mando da direção deles”. Fiquei sem saber o que falar. Não vou dar nomes, não tenho como comprovar, mas aconteceu. Acabou a partida e eu fiquei olhando e pensando: que gosto tem vencer assim? Gosto nenhum. Tiveram outras situações – sobre as quais também não tenho prova – mas que meus olhos veem que estão me entregando (o jogo) sem nem me falar. Ou vejo entregarem para outros times. Poxa, tomara que nunca eu nem seja tentado a fazer esse tipo de coisa.

Já te pediram para entregar jogo?

Me pediram uma vez. Mas foi por pura ingenuidade de uma equipe que passava por dificuldades financeiras. Um dirigente veio falar: “Pô, os caras vão pagar toda a nossa folha por um tempo, a gente vai desafogar…” Quando ele terminou, eu já tinha mudado meu semblante, virei o rosto e disse para os dois diretores que estavam comigo: “Vou deixar vocês conversando porque tenho outras coisas para fazer”. E saí. Depois me pediram desculpa.

Como é sua relação com os jogadores?

Eu não tenho 22 filhos. Eu tenho só dois e essa é a grande diferença. Por que eu não falo que o time é uma família? Porque eu morreria pelos meus filhos, mas não morro por um atleta meu. O que a gente tem é um grupo com um tratamento de sinceridade. Se eu tenho que falar alguma coisa, chego e falo. Tento explicar o porquê das minhas escolhas. Afinal, 11 começam e tu tens mais 20 que ficam fora. O respeito pessoal permanece inalterado. Aprendi uma coisa com o Gilberto, que estava na seleção, e hoje está no América Mineiro. Quando era meu jogador no Grêmio, ele falou: “Tite, eu sei que tu corriges os nossos defeitos, agora eu quero te passar um detalhe: essa correção precisa ser colocada como uma regra geral para o grupo, porque é importante para os mais jovens terem a referência daquilo que é certo e do que é errado”. Eu olhei para ele e agradeci. Aquilo ficou marcado.

O tratamento é igual mesmo as pessoas sendo diferentes?

O tempo dá a oportunidade de conhecer como é o mundo de cada um. E por isso esse tempo é tão fundamental no futebol, mesmo quando precisa estalar os dedos e ter o resultado. Tem uns que preciso falar mais alto, ser mais incisivo e ter uma cobrança mais enérgica. E eu sei, com o tempo, aqueles que eu tenho que conversar de forma mais branda, deixá-los falar antes. Eu tive um atleta que, quando nós conquistamos o título da Copa do Brasil, ele me deu um abraço e disse: “Eu não tive um pai que pudesse passar algumas coisas importantes que eu aprendi contigo”. Transcende o lado do técnico.

Sente-se responsável por eles?

Vou dar um exemplo. Tive uma experiência muito forte no Veranópolis (clube gaúcho). Geralmente, os times do interior jogam o primeiro semestre e depois param seis meses porque não têm trabalho. E um atleta meu me procurou chorando: “Professor, eu tenho três filhos, minha esposa está grávida, o clube vai parar e não sei fazer outra coisa. O que eu vou fazer?”. E eu pensei: “Te segura, Tite, não vai te emocionar”, assim como estou me emocionando agora (com os olhos marejados). Eu pedia uma luz para que eu pudesse guiá-lo. E disse: “Calma, Joel, a coisa não tá definida ainda, tu é um cara do bem, bom jogador, daqui a pouco outros campos, outros clubes podem surgir”. Nesse meio tempo, tivemos a grande felicidade de o clube organizar assim: diminuir 50% do salário de todo mundo, mas continuar os trabalhos o ano inteiro. Todos aceitaram.

E quando alguém que conquistou uma condição de vida e de jogo excelentes não se dedica como deveria?

Eu me frustro. Nem sempre a gente consegue convencer um atleta daquilo que é bom. O grande fascínio do meu comando vem do convencimento e não do poder do meu cargo. O que adianta o cara olhar para mim e depois virar as costas e não refletir sobre o que eu disse? E quando termina um campeonato e o atleta que faz dois gols – no caso o Emerson – e toda a mídia vem em cima e ele termina assim, ó: “Não vem me trazer como herói porque eu sei que se não tivesse o Paulinho, ou o Cássio…”? Mas, olha, fiquei numa felicidade. Pensei: “Poxa, ele captou a mensagem, não vencemos a qualquer custo.” Foi bonito.

Você tentou esse trabalho de convencimento com o Adriano. Fez tudo o que podia?

Sim, sei que fiz tudo o que estava ao meu alcance.

Faltou algo?

Não. Inclusive a direção me ajudou a tentar procurar outros caminhos. Mas se tinha outro caminho, eu fui incompetente e não consegui enxergar. Torço pelo Adriano porque ele tem bom coração, boa índole e é um baita jogador.

Então qual é o problema?

(Tite pede para desligar o gravador e fala. Depois, contido, volta à entrevista.) Ele precisa de auxílio, de ajuda. E isso não é da minha alçada.

Que tipo de auxílio? Psicológico, médico?

Eu tenho um cuidado de não ficar agora dizendo para as pessoas o que elas têm que fazer de certo e o que estão fazendo de errado. E eu disse a ele da necessidade de procurar ajuda. Porque todos nós precisamos de auxílio em algum momento. E eu não quero dizer porquê. O clube também tentou.

Quais os erros e acertos nos casos de Ronaldo e Adriano?

Cada caso é um caso. O Ronaldo tem excepcionalidade técnica, finesse. Eu fico imaginando ter treinado esse cara fininho na plenitude de sua forma. Então nós jogávamos em função dele para extrair o melhor resultado, só para que ele pudesse finalizar. E não dá para jogar em função de um meio-campista, por exemplo.

O senhor fala sobre drogas com seus jogadores?

Falo mais especificamente sobre a bebida, né? É a droga mais próxima deles. Teve uma vez, quando assumi o Corinthians, que nós vencemos um clássico. Logo depois, flagrei dois atletas fumando e eu tirei o cigarro da mão deles. E disse: “Isso aqui não serve para atleta”. Depois pensei comigo: “Daqui a pouco vão me mandar pros quintos dos infernos, por eu querer cuidar da vida pessoal deles e não só da profissional. Mas foi um impulso e eles entenderam, sorriram e aceitaram. Continuaram fumando depois, mas na hora eu tirei. Com os meus filhos eu também falo sobre drogas. Mas confesso que tenho muita dificuldade em falar sobre sexo com a minha filha, Gabrielle, que tem 17 anos. Morro de ciúme. Um sentimento de pai.

Nos dois últimos jogos da Libertadores, o Romarinho e o Emerson foram alçados à posição de heróis. Por que essa busca de um salvador para o time?

Eu conscientizo os atletas, não a mídia. Mas sobre craques individuais, eu diria de uma maneira geral que na seleção brasileira estão se afirmando grandes novos talentos. A seleção de 1982, por exemplo, que tinha talentos consagrados como Zico, Sócrates, Falcão e Cerezo, foi um grande marco. Mas me lembro bem quando no Rio Grande do Sul, minha terra, o pessoal falava assim: “O Zico só é jogador de Maracanã”. Para se firmar, ele teve que rodar. Aí foi para o Sul e venceu um título contra o Grêmio, dentro do Estádio Olímpico. Então é o que acontece com esses novos talentos como Neymar, Ganso e Pato. Estão nesse processo de consolidação, tal qual aconteceu com Zico e Falcão. E afirmação só vem com o tempo.

Como foi a reação do Romarinho, até então desconhecido, depois do sucesso no penúltimo jogo pela Libertadores?

Eu avisei a ele: “No Corinthians tudo é mais. Tu faz um gol, tu vira bonito pra caramba. As meninas te acham… não importa o teu cabelo, não importa nada”. “Pô, esse é o cara”. Aí eu digo: “Tu não é o cara nem quando tu ganha, nem quando tu perde”. Conversei com ele, de uma forma muito sutil, porque muita gente vem buzinar na cabeça “vai por aqui, vai por ali”. Mas eu digo: “Concentra no trabalho, o campo é que te proporcionou tudo”. Ele é um pouquinho insensível a esse foguetório, fica meio à margem, é observador. Não mudou o jeito de ser. Mas vai ter que continuar assim, terá que ser uma constante na vida dele.

É difícil trabalhar com jogador de ego exacerbado, por exemplo?

Sabe o que mais me deixa p. da cara? É a falsidade. Aquele que na tua frente, na frente do grupo, na imprensa, vem falar: “Não, porque a gente sabe que o importante é toda a equipe e tal”, mas entra em campo e suas ações são exatamente contrárias. Aí faz disso uma bandeira mentirosa. Eu prefiro atleta que chega na minha frente e que coloca: “Professor, eu não concordo”. Isso é grandeza.

Vamos falar de concentração. Sexo em dia de jogo atrapalha?

Acredito que não. Muitos acreditam no desgaste físico, mas vejo um pouco de preconceito. Por exemplo: o cara tá em casa e vai concentrar só ao meio-dia para um jogo à noite. Fazer sexo pela parte da manhã? Não vejo nenhum problema. Em dia de decisão? É melhor ainda! (Risos) Para técnico, tenho certeza que foi melhor. Ixi, o povo vai ficar p. da cara.

O senhor mantém distância dos jogadores?

Aprendi com Elio Carravetta, no Internacional: tem certas horas que tu tens que deixar o atleta pensar no que tu estás pensando. E aí, quando eu falar, a mensagem fica mais forte.

Ir para a farra junto…?

Não, não, absolutamente. Isso é desrespeito profissional, isso não tem.

Mas tem muito técnico que vai. Técnico, dirigente…

É… Eu não faço… E vejo de forma depreciativa o técnico que faz isso. A gente tem que saber diferenciar. Sem falar o nome, eu tava uma vez no ônibus e ouvindo dois atletas combinando de encontrar meninas e fazer uma festa depois do jogo. Quando acabou a viagem, fui no quarto deles e disse: “Olha aqui, ó, vocês são jovens, têm todo direito de namorar. Só que dentro do ônibus e numa preparação, é desrespeitoso comigo, tá errado em relação a vocês, ao clube, vocês têm que ter muito mais responsabilidade de aprender que existe momento para tudo”.

Muitas vezes o senhor é chamado de filósofo. Tem mesmo interesse pelo assunto?

Não, não. A única coisa que eu tive de filosofia foi na universidade. O resto foi no dia a dia, na vida, na bola. Mas eu gosto de ler. Quer ver? Tem um romance, acho que é romance, do Irving Wallace, chamado Sete Minutos e que foi o inspirador de Onze Minutos, do Paulo Coelho. Li os dois. Adoro biografia de atleta, livros técnicos do (José) Mourinho, as crônicas da Martha Medeiros acho sensacionais, sempre leio com minha esposa.

Você divide os bastidores do Corinthians com sua mulher?

Mulher de técnico sofre mais que de jogador. É multiplicado por 25! É inevitável dividir. E duas grandes contribuições que ela me trouxe foram: ser mais maleável com dirigentes. Porque já me atritei muito. E ela dizia que eu precisava colocar mais a minha visão, que era diferente da deles, porque eu já fui atleta, professor de educação física e técnico, porque se não eu continuaria sendo demitido do jeito que acontecia. Também, né, tomei umas três, quatro demissões em função de brigar e discutir com dirigentes. O segundo ponto é quando eu comento alguma coisa em casa e ela diz: “É esse o conceito que tu tem dele? Então chama e fala”.

Qual é sua avaliação sobre o senhor quando era atleta?

Eu tinha o futebol muito mais na cabeça do que no corpo. Se eu tivesse valências físicas de força e velocidade, eu poderia chegar num estágio profissional muito maior. Me afligia o fato de eu pensar as jogadas e não conseguir executá-las. Me deixava muito p. da cara. /DÉBORA BERGAMASCO