“Não sou uma viúva dos direitos humanos”, afirma ex-embaixadora dos EUA na ONU

“Não sou uma viúva dos direitos humanos”, afirma ex-embaixadora dos EUA na ONU

Sonia Racy

15 de março de 2021 | 00h50

Samantha Power. Foto: Stephen Kelleghan

Com 50 anos recém completados, Samantha Power não sucumbiu ao cinismo ou à resignação. Ex-embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas durante o governo Obama, a professora de Harvard conta em seu livro de memórias A Educação de uma Idealista – que acaba de ser lançado no Brasil pela editora Cia. das Letras – dificuldades e vitórias na sua luta pela defesa dos direitos humanos.

Ela se define como idealista. Mesmo vivendo em ambientes complicados no que se refere a ideais, tem a segurança do caminho que escolheu: “Eu não sou uma ‘viúva dos direitos humanos’. As pessoas me chamaram de ingênua, mas eu sei as coisas que fomos capazes de atingir – não vale para os sírios, porque não conseguimos ajudá-los da maneira como eles mereciam, mas para outros temas”, afirmou a embaixadora que foi uma das grande opositoras da política russa no conflito sírio.

Nascida na Irlanda, imigrou para os EUA aos nove anos. Foi correspondente na Guerra da Bósnia, escrevendo para veículos como o The New York Times, ganhou o prêmio Pulitzer com o livro Genocídio. Assessorou Barack Obama quando ainda era senador, depois entrou para seu time na Casa Branca até ser nomeada embaixadora às Nações Unidas em 2013.

Com todo esse currículo, ninguém suspeitaria que pudesse ter inseguranças profissionais, o que ela chama de ‘batcaverna’ – um tipo de “ansiedade e falta de confiança”, revelou à Marilia Neustein, em uma entrevista feita pelo Zoom semana passada. Samantha, aliás, estava – durante a conversa – vivendo algo parecido em termos de ansiedade, já que aguardava a confirmação de sua nomeação para liderar a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional pelo Senado americano na gestão de Joe Biden. A assessoria da embaixadora afirmou que ela não comentaria a política brasileira nem o tópico da indicação.

Samantha explicou que resolveu escrever sobre suas inseguranças justamente para chegar aos leitores: “Quis contar minhas vulnerabilidades, porque revelar da batalha do meu pai contra o alcoolismo, de ser uma imigrante, lidar com questões de raça e injustiças, falar sobre os problemas da minha vida romântica… tudo isso faz com que as pessoas se identifiquem com a minha história. E a batcaverna é um ponto de entrada, todo mundo tem a sua”, conta. Abaixo os melhores trechos da conversa.

Você não corresponde ao estereótipo de uma mulher com inseguranças profissionais. Por que falar sobre momentos de falta de confiança?

Ninguém esperava que eu fosse falar sobre isso, porque sou uma mulher que tem tudo no controle, determinada, profissional, então as pessoas não esperam esse tipo de fraqueza em um livro de memórias de alguém que esteve na vida política, no campo público. Foi por isso que você incluiu essas vivências? Sim. Todos nós temos dúvidas, ansiedades, inseguranças. Muita gente esperava que esse livro fosse ser um debate sério sobre a Síria, os EUA, China ou o futuro da democracia, mas a razão pela qual o livro tem sido lido por tanta gente é porque abre para os conflitos internos e não apenas conta o que acontece externamente. Contar a história da minha infância, da batalha do meu pai contra o alcoolismo, de ser uma imigrante, lidar com questões de raça e injustiças, dos problemas da minha vida romântica… tudo isso faz com que as pessoas se identifiquem com pelo menos alguma coisa da minha história. E a batcaverna é um ponto de entrada.

Você trabalhou lado a lado com o Obama. Ao longo desses anos saberia dizer qual era a “batcaverna” dele? 

É uma ótima pergunta. Acho que todo presidente pensa sobre seu legado. É possível ler nas memórias dele que existiu um questionamento se ele colocou uma pressão necessária em pautas progressistas. Muito do que fizemos no governo Obama, especialmente na área de política externa, seu sucessor foi capaz de desfazer.

De que maneira a política externa foi desmantelada pelo governo Trump?

Agora que os EUA se inclinaram mais para esquerda, está com uma agenda mais progressista, em mudanças climáticas e temas desse tipo, acho que Obama se pergunta se podia ter feito mais. Sabemos que muitas vezes não tivemos os votos, o apoio, mas acho que pensamos o que poderíamos ter feito mais para que as coisas não pudessem ser desfeitas pelo presidente que veio. Acho que se ele tem uma batcaverna, eu nunca perguntei isso para ele é essa (risos).

E como você supera sua batcaverna?

Cada um tem a sua batcaverna, mas para mim, é um estado de ansiedade, insegurança, falta de confiança. Conto isso no livro, porque, para fora eu tinha uma imagem muito positiva: assessora do Obama para direitos humanos, ganhadora do prêmio Pulitzer, mas ao mesmo tempo entrar no governo, colocar direitos humanos no centro da política externa norte-americana foi desafiador, então nem sempre eu fiquei contente e consegui atingir o que eu pretendia dentro desta agenda.

Você conta uma cena em que dividiu as suas inseguranças com colegas mulheres da Casa Branca. 

Achei que era só eu que me sentia assim por trabalhar com direitos humanos, ou porque era nova no governo, mas na verdade, a que trabalhava com área nuclear também se sentia insegura, a de lei de contraterrorismo também, a que atuava nas relações com a Europa. E isso me fez sentir mais empoderada. Não tem porque ter vergonha ou se sentir sozinha por se sentir insegura.

Há quem confunda “idealismo” com “ingenuidade”. Por que escolheu a palavra idealista para se definir no título de seu livro?

Temos uma expressão nos EUA que diz “um conservador é um liberal que foi ‘assaltado’ pela realidade”. Trata-se da ideia de que, ao longo da vida, você vai aprendendo que os problemas do mundo são impossíveis de resolver. Acabo de fazer 50 anos, os problemas do mundo estão cada vez maiores, com mudanças climáticas, racismo, etc. O status quo não está bom e eu ainda quero trabalhar por essas mudanças.  Eu não sou uma ‘viúva dos direitos humanos’. As pessoas me chamaram de ingênua, mas eu sei as coisas que fomos capazes de atingir – não vale para os sírios, porque não conseguimos ajudá-los da maneira como eles mereciam, mas para outros temas.  As pessoas se desengajam de duas maneiras: as que acreditam que nada vai mudar – o que é apenas cinismo e uma receita para as coisas piorarem. Ou porque não sabem como podem ajudar nas mudanças. E meu livro é para essas pessoas. Obama costumava dizer “sim, você pode” e dou exemplos disso.

Explique mais, por favor.

Eu conto, por exemplo, como uma campanha nas mídias sociais fez com que mulheres inocentes saíssem da cadeia. Ou como trabalhar com o Brasil trouxe avanço para os direitos LGBT. Seria impossível fazer isso na ONU com a Rússia e outros países pressionando sem a participação do Brasil. Eu dou exemplos também de coisas que não deram certo, de decepções, sobre os pedidos pela minha renúncia durante a campanha do Obama.

O livro pode estimular as pessoas a se engajarem?

Sim. Eu tento mostrar uma imagem precisa da complexidade das tentativas. Vamos todos falhar. E seremos acusados de hipócritas, especialmente se você trabalhar para uma instituição, empresa, jornal, ou governo, onde é preciso fazer concessões que você não vai gostar.

Você trabalhou como correspondente de guerra nos anos 90. Como foi fazer o registro daquele momento?

Os melhores escritores, ficcionistas ou jornalistas, são incrivelmente bons em se colocar no lugar do outro. Mas é importante pensar nos leitores também, além de decidir quais são as perguntas, ganhar a confiança do interlocutor. Na Bósnia, eu achava tudo interessante. E tive que refletir sobre como criar uma ponte entre o que acontecia lá, com meus leitores americanos, que não estavam presenciando aquelas cenas.

No livro você fala também sobre a importância dos círculos de amigas que você fez. Qual é a importância do afeto e da confiança nos ambientes de trabalho?

Hillary Clinton que sempre falou na ideia de confiança. Nós mulheres temos medo de mostrar a nossa vulnerabilidade. Sempre quis mostrar que eu era forte e independente e que não necessitava de ninguém. Entender que traumas podem ser divididos e que você pode confiar é superimportante. Isso me ajudou nos meus relacionamentos, a casar, a ser mãe. Aprendi como se abrir para isso. Tirar um tempo para estar com as pessoas, mostrar solidariedadlibe, estender a mão é a primeira coisa que desistimos de fazer, mas os benefícios disso são para sempre.

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