‘Não sou um saudosista’

‘Não sou um saudosista’

Redação

28 de setembro de 2009 | 08h22

Com CD novo, shows na agenda e livro de poesia para lançar, Arnaldo Antunes olha para a frente e avisa: os Titãs já passaram

Transitar entre diferentes áreas da arte nunca foi problema para Arnaldo Antunes. Isso porque, para o compositor, poeta e artista visual, a palavra “é um porto seguro” onde se aventura “a novas linguagens” e que lhe permite atuação diversificada. A música, por lhe parecer algo profundamente misterioso, o impele a testar sempre novas experiências. Uma delas é seu recém-lançado Iê iê iê, com canções inspiradas na Jovem Guarda – um dos movimentos que embalaram a juventude dos anos 60 no Brasil. “Queria fazer um som mais pesado e, ao mesmo tempo, bastante melódico”, explica.

Mesmo com o vozeirão grave – conhecido pelos anos de Titãs e na tríade dos tribalistas – o artista tem riso afável e jeitão despojado, inclusive quando trata de poesia: “O que me interessa é quebrar as barreiras entre alta e baixa cultura”. Mesmo que as suas referências remetam a determinadas épocas e manifestações artísticas, Arnaldo mantém-se avesso a rótulos e sentencia: “Não sou saudosista, olho para a frente.” A seguir, trechos da entrevista.

Como surgiu a ideia de um disco inspirado no iê iê iê? Eu vinha de dois discos com uma formação leve, sem bateria na banda. E sabia que ia voltar a produzir algo mais dançante, mais rock ‘n’ roll. E queria que isso tivesse um significado especial. Foi então que nasceu a ideia de fazer um disco de iê iê iês. Com um som mais pesado e, ao mesmo tempo, muito melódico. E com uma timbragem específica.

Foi a primeira vez que você pensou em um álbum inteiro com músicas de um só gênero? Sim. Minhas coisas são muito variadas. Esse disco, claro, tem uma certa diversidade. No entanto, havia o desejo de que tudo estivesse em torno de um conceito sonoro. O engraçado é que, na hora em que me decidi por uma coisa uniforme, não elegi samba, rock ou funk, mas justamente um gênero do qual não se fala mais.

E onde você foi buscar as referências? Mergulhei na cultura pop dos anos 60. Que fez parte da minha formação, não unicamente, claro, mas como uma referência marcante. E quando começamos com os Titãs havia tmbém esse caráter, a banda se chamava “Titãs do Iê iê iê”. Nós cantávamos, inclusive, algumas músicas da Jovem Guarda, antes de gravar o primeiro disco. O meu desejo, agora, era revitalizar um pouco esse gênero.

Seu parceiro de Titãs Tony Bellotto afirmou que as pessoas têm dificuldade de entender um roqueiro que se aventura na literatura. Você, que escreve poesia, sente também essa reação? As pessoas acreditam que a poesia é algo mais erudito e que a música está ligada à cultura de massas. O que me interessa é desfazer essa divisão entre alta e baixa cultura. Quero confundir esses limites, contrabandear informações de um território para outro. Eu trabalho com poesia, música popular, produção gráfica. Contudo, existe uma intersecção em tudo que eu faço, que é a palavra. Isso me possibilita transitar entre essas áreas sem grandes traumas.

Acha fácil trabalhar música e poesia simultaneamente? São linguagens diferentes. Ler é solitário, a música é manifestação mais coletiva. Quando escrevo não sei se aquilo é para ser cantado ou lido. Mas isso não impede que eu possa vir a musicar meus poemas ou vice-e-versa. A palavra, território comum entre tudo isso, é um porto seguro de onde me aventuro para outras linguagens.
Você diz que acha a música algo muito misterioso. O que quer dizer com isso? Sempre tive mais facilidade com o verbo. A música surgiu com a necessidade, talvez, de dar uma outra camada de significação ao meu trabalho poético. Nunca me senti um músico que domina a linguagem totalmente. Sou mais intuitivo. Ao mesmo tempo, acho que esse caráter misterioso não existe só para mim, mas para todo mundo. É uma entrega inconsciente e está relacionada com transcendência. Não é à toa que todo rito religioso envolve música.

Você lançou, este ano, o CD ‘Pequeno Cidadão’, com participação de dois filhos, além de outros trabalhos infantis. O que te atrai no universo infantil? Eles veem sob uma ótica poética que muitas vezes não vemos, por termos o olhar mais viciado. Sempre aprendi muito com meus filhos.

Você escuta rap? O que acha dessa manifestação? Gosto de acompanhar. Admiro o trabalho dos Racionais, do Ferrez, que é o meu parceiro, além de outros. Acho que o rap contamina uma boa camada da música que se faz no Brasil. Com a sua inflexão, sua cadência rítmica. E isso é o mais interessante da música brasileira: poder atritar as diferentes informações.

Sua turnê de shows tem um patrocinador. Como vê atualmente essa questão do patrocínio cultural? Pela primeira vez saio com uma excursão patrocinada. E acho que as leis de incentivo são uma das maneiras de fazer com que a máquina de produção artística continue rodando, em meio à crise que vivemos.

E como avalia a crise da indústria fonográfica? Acho maravilhoso o acesso livre a qualquer tipo de informação. Parece um sonho. Na minha infância, juntava dinheiro para comprar um disco. Hoje, o acesso é fácil. Tenho, sem dúvida, um público muito maior em shows depois que a minha música passou a ser veiculada na internet. Contudo, o artista viver do seu trabalho é uma conquista social. Há que se equacionar isso. Eu, particularmente, baixo música e ainda compro discos. Porque baixar musicas individualmente faz com que se perca o conceito do álbum. E eu acho isso sem graça. Sou apegado a pensar cada disco meu como um conjunto de canções com um conceito em comum.

Você afirmou, há alguns anos, ser otimista em relação ao Brasil. Ainda é? Sim. É um país que tem potencial. Na riqueza cultural, na diversidade ecológica. Mas sou otimista, principalmente, por causa do brasileiro. Acredito nas pessoas. E acho que o Brasil melhorou muito, nos últimos anos. Resolveu problemas sérios durante os governos FHC e Lula. O governo Lula trouxe coisas positivas em termos de distribuição de renda, por exemplo. Mas ainda há muito para se fazer. Nunca houve tantos escândalos de corrupção aparecendo.

E os boatos de um CD Tribalistas 2? Não temos planos. Existe uma ansiedade, todos perguntam, mas não fizemos o primeiro disco pensando que seria uma banda. Era um disco de encontro de três artistas, e o sucesso foi surpreendente. Mas compomos juntos, ainda.

Você disse ter ‘saudade do futuro’. Pode definir o que seria isso? Eu não sou saudosista. Todo mundo me pergunta se eu não tenho saudade dos Titãs, por exemplo. É claro que eu sinto falta da convivência, mas não sou desejoso de reviver alguma coisa daquele passado. Olho para a frente, quero fazer outras coisas. Que incluem, sim, a minha história e memória. E mais: encontro os Titãs direto. A gente produz músicas juntos e estamos aí, na vida.

Por Marília Neustein

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