‘Não somos velhas como nossos pais eram quando tinham 50, são tempos diferentes’, diz Adri Coelho e Silva, fundadora do Instagram Viva a Coroa

‘Não somos velhas como nossos pais eram quando tinham 50, são tempos diferentes’, diz Adri Coelho e Silva, fundadora do Instagram Viva a Coroa

Sonia Racy

11 de abril de 2021 | 00h13

 

Adri Coelho e Silva. Crédito: Francine Nagata

Adri Coelho Silva se transformou após os 50 anos e criou a conta Viva a Coroa, no Instagram – com 85 mil seguidores. É por lá que ela promove intercâmbio de ideias com outras mulheres da mesma idade. “Comecei trocando informações com minhas amigas”, conta Adri. “Fez tão bem para todas que decidi expandir e abrir esse espaço para falar com mais mulheres sobre a velhice como ela é, ou seja, algo natural”.

Entre os assuntos abordados, estão o etarismo – preconceito com a idade – menopausa, representatividade, mercado de trabalho para 50+ e a “nova velhice”, como ela mesma define. “Não somos velhas como nossos pais eram quando tinham 50, são tempos diferentes. Temos mais vitalidade, oportunidades diferentes. Temos o desafio de fazer essa história. Com tentativa e erro, vem a oportunidade de criar algo novo”. Confira a entrevista a seguir.

Você começou a ser comunicadora e influenciar pessoas depois dos seus 50 anos. Como foi esse processo?
Fiz um sabático aos 52 anos e fui morar pela primeira vez sozinha, em Los Angeles, para estudar fotografia, uma paixão antiga. Tirar esse tempo deixou claro que eu nunca tinha olhado com cuidado, carinho e atenção para os meus 50 anos. Na volta, percebi que minhas amigas não faziam isso também. Comecei a trocar com algumas sobre assuntos relacionados com a idade. Fazia um bem tão grande para todas que decidi expandir, abrir esse espaço para falar com mais mulheres sobre a velhice como ela é, ou seja, natural. Tempos depois entendi que o Instagram e o Facebook poderiam abrigar essa vontade e me coloquei em risco.

Por que em risco?
Porque não era a minha área, nunca tinha publicado um texto, mas principalmente porque envelhecer parece errado em uma sociedade que ainda prega a ideia do “Forever Young”, tratando o velho como adjetivo pejorativo e o novo como adjetivo qualitativo. Isso deixa claro que há um etarismo na nossa raiz, na nossa estrutura comportamental.

Fale mais sobre o etarismo – expressão usada para nomear o preconceito com a idade.
Não é achismo. Em março desse ano, a ONU divulgou o Relatório Global sobre Etarismo. São 202 páginas com dados e informações de diversos países. O relatório define a natureza do preconceito de idade, apresenta evidências sobre os impactos e as estratégias mais eficazes para reduzir o problema. E isso é boa notícia: há uma preocupação em reverter esse vento tão cruel. Mas, ainda assim, celebrar a velhice em uma cultura gerontofóbica – que tem fobia de envelhecer – é ir na contramão, requer coragem.

Por que o nome Viva a Coroa?
É sobre isso: transgressão de costumes e celebração do que é natural. Isso porque coroa é um dos apelidos pejorativos para mulheres 50+ como eu, mas também um signo de poder. Aos 50 surge a secura geral dos tecidos (incluindo o vaginal), a queda na libido, depressão causada pelas ondas hormonais, a perda do viço e do colágeno, o ganho de flacidez e a sensação de invisibilidade para o mundo. É sofrido, mas tem solução — e começa com a aceitação da realidade e o rompimento com valores antiquados. E há o lado muito bom também. Os 50 trazem autoconfiança, conquistas, autoconhecimento, certeza do que é seu e do que é do outro, a capacidade de rirmos de nós mesmas e mais. E em 2021 traz também a chance de reinvenção, caso nada disso faça mais sentido. Afinal, temos mais vitalidade e saúde.

O mercado de trabalho está mais aberto para mulheres dessa faixa etária?
Dizem que sim. Pelo que leio, algumas empresas, principalmente as grandes, estão começando a olhar para a questão da diversidade etária. A OMS estima que em 2050, a população com idade acima de 60 anos no Brasil seja de 31 milhões de pessoas, e no mundo o número chegue a 2 bilhões. Esse total vai representar um quinto da população. Ou seja, o mercado de trabalho deveria olhar para isso com cuidado e como uma boa oportunidade também.

Ainda se sentem excluídas das mídias de consumo ou isso está mudando?
É sabido que os consumidores 50+ movimentam mais de R$ 1,8 trilhões por ano, ainda assim me sinto pouco importante como target das marcas e sei que não estou sozinha. Os números apontam que em 2050 nós 50+ seremos 42% da população do Brasil. Será que vai demorar mais 30 anos para esse movimento começar no Brasil? Se sim, será tarde. /SOFIA PATSCH

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