Tony Ramos não quer ‘usar a notoriedade’ para influenciar votos

Sonia Racy

14 de janeiro de 2019 | 00h45


TONY RAMOS. FOTO ESTEVAM AVELLAR/GLOBO

Ator prefere manter-se politicamente
neutro  e é a favor da
preservação da Lei Rouanet

Tony Ramos não tem redes sociais. Tampouco diz se interessar pela vida dos outros. Um dos atores mais reconhecidos por seus trabalhos na televisão, cinema e teatro – está na Globo desde 1977, esteve antes na TV Tupi –, é uma raridade no quesito discrição e em tempos de superexposição consegue manter sua vida privada na esfera…privada. “Sobre isso eu me lembro de minha mãe. Eu vivia com ela e com a minha avó. Minha mãe era desquitada nos anos 50 – você imagina, nos anos 60 ainda isso era palavrão… Às vezes eu chegava da rua, depois de jogar futebol, e dizia que fiquei sabendo algo sobre algum vizinho, que os outros estavam comentando… Ela dizia ‘ficou sabendo o quê? Você viu? Então não repita aquilo que você não viu”, explica à repórter Marcela Paes.

O ator mantém a discrição quando o assunto é política. Apesar de acompanhar atentamente as notícias do País – Tony costuma ler três jornais por dia –, prefere não manifestar sua opção de voto nem, ao contrário de colegas de profissão, fazer campanha para partidos ou candidatos. A última vez em que se posicionou publicamente sobre o tema foi há 35 anos, durante as campanhas das Diretas Já. “Eu não quero usar a minha notoriedade pra induzir ninguém do ponto de vista humano social, que é o voto. Não quero ter nenhum tipo de obstáculo partidário porque, se eu vejo alguma coisa errada, eu quero me manifestar. Agora, os companheiros que porventura têm suas opiniões, deixa eles falarem. Isso é que é democracia”, diz.

Para compor o ambicioso Olavo, personagem que interpreta agora em O Sétimo Guardião, não se inspirou em nenhuma figura pública. Conta que construiu o personagem nas entrelinhas criadas por Aguinaldo Silva e aplicou uma única característica sua ao quase vilão da trama. “Ele tem essa doença que é perseguir o dinheiro mesmo tendo muito dinheiro. Não tenho nada a ver com essa ambição desmedida. Agora, amar a filha como ele ama, eu amo os meus filhos”. A seguir, os principais trechos da conversa.

Tony, você está com 70 anos. E é uma idade que muita gente já pensa em se aposentar. Isso já passou pela sua cabeça?
Olha, do ponto de vista legal e burocrático, eu já sou aposentado pelo INSS. Sob o aspecto humano nunca passou pela minha cabeça, nem que eu ganhasse na Mega Sena. Não é o que eu imaginei para a minha vida. Tenho grandes exemplos que estão aí, citaria a você a Bibi Ferreira, Fernanda Montenegro, Ary Fontoura. Grandes companheiros meus que estão trabalhando e são motivo de estimulo. Sempre teremos no teatro, no cinema, na televisão, um vovô, um bisavô, o tio-avô.

Envelhecer o incomoda em algum aspecto?
Nunca me imaginei fazendo personagens que fugissem às próprias idades. Nunca foi um desconforto, eu nunca escondi minha idade, idade para mim é uma bênção. Sou grato à idade, porque significa que eu estou vivo, e se eu estou com saúde, melhor ainda. Se eu estou sendo convidado pra trabalhar… Tem convite pra daqui a dois anos. É claro, você tendo idade e tendo saúde é bem melhor. Não lembro da idade, mas também não me recuso a dizê-la.

Você não tem redes sociais e divulga pouco sobre a sua vida para o público. Por quê?
Não quero saber da vida dos outros, não quero saber de nhê-nhê-nhê. Não é meu estilo. Eu sou até famoso entre os colegas. Se alguém vai contar alguma coisa, eu saio de perto. Eles falam ‘ih, o Tony não quer ouvir’. Fui criado assim. Sobre isso eu me lembro de minha mãe. Eu vivia com ela e minha avó. Ela era desquitada nos anos 50, você imagina, nos anos 60 ainda, era palavrão isso, né? Às vezes eu chegava da rua, depois do futebol, e dizia que fiquei sabendo algo sobre o vizinho, que estavam comentando… Ela dizia ‘ficou sabendo o que, como? Você viu? Então não repita aquilo que você não viu.”

Acha estranho que os outros se exponham?
Tem gente que tem perfil e gosta, que se mostra e tudo bem. Eu viajei agora em maio por dez dias e ninguém soube. Fui com a minha mulher para Positano. Ficar quieto lá, curtir a vida, visitar o museu, jantar com amigos em Roma e voltamos pra casa. Dez dias, entendeu? E foi uma viagem inesquecível, adorável. Eu não preciso ficar fotografando nem dizer como estou todo o tempo.

Muitos colegas seus usam as redes sociais para dar opiniões políticas. Você prefere se manter neutro no assunto?
Ainda não inventaram melhor regime no mundo que a democracia. Todo mundo tem direito de dizer que é A ou B como eu tenho o direito absoluto e inalienável, como ator e popular que sou, não vou negar essa popularidade, de não querer me expor do ponto de vista político. Não quero usar a minha notoriedade pra induzir ninguém do ponto de vista humano-social, que é o voto.

Por quê?
Não quero ter nenhum tipo de obstáculo partidário, porque se eu vejo alguma coisa errada, eu quero me manifestar. Agora, os companheiros que porventura têm suas opiniões, deixa eles falarem A única vez em que eu me manifestei politicamente foi na época das Diretas Já, mas não era partidário, nós estávamos clamando pela liberdade do voto. Quero ter a liberdade de ser comum, um cidadão que paga imposto na fonte, ter a liberdade de poder dizer os defeitos e também falar as qualidades do governo no futuro, sem qualquer rabo preso.

‘NÃO QUERO SABER
DA VIDA DOS
OUTROS. ESSE NÃO
É O MEU ESTILO’

A Lei Rouanet vem sendo um assunto de grande discussão e críticas. O que você acha desse tipo de mecanismo de fomento?
Eu acho que a Lei Rouanet está sendo vilanizada. Apoio governamental à indústria do cinema, por exemplo, tem até nos Estados Unidos. Quando você olhar lá no fundo, nos créditos ‘nossos agradecimentos ao escritório de cinema da cidade tal, muito obrigado ao setor da educação, setor cultural da cidade tal.’ Tudo isso é apoio. Lamentavelmente muitos fizeram mau uso da Lei Rouanet. Se querem reformular a Lei, que encontrem outros mecanismos. Mas nós precisamos apoiar a cultura, o circo no Brasil, nós precisamos apoiar o teatro experimental. Às vezes a gente pensa que um ator ou uma atriz jovem de teatro está ganhando R$20 mil por mês. Não. Quando consegue R$ 300 na semana, conseguiu muito.

Você rescindiu seu contrato de propaganda com a Friboi, assim que o nome do grupo apareceu em escândalos de corrupção. Ficou mais receoso com esse tipo de trabalho?
Não. Se for um produto em que eu acredite, faço. Eu não me arrependo nem um milímetro de ter anunciado a carne. Porque eu como carne, é um produto que eu consumo. Mas não mesmo. Agora, quando veio à tona uma série de outras coisas eu fiquei entristecido, evidentemente. É bom que o público entenda que meu contrato era com a agência de publicidade. As pessoas perguntavam na rua, ‘poxa, como é que é isso, tal’. Foi um momento de não renovar. Lamento, mas eu não vou compactuar com esse tipo de coisa.

O Olavo, seu personagem em O Sétimo Guardião, é um homem obcecado por dinheiro. Você se inspirou em alguém para compô-lo?
Em ninguém. Sempre quando faço novela, eu me inspiro naquilo que o autor me dá nas entrelinhas e na sinopse. Também não tenho nada a ver com essa ambição desmedida pelo dinheiro. Ele tem essa doença que é perseguir o dinheiro mesmo tendo muito dinheiro. Agora, amar a filha como ele ama, eu amo os meus filhos.

Costuma ler críticas sobre o seu trabalho?
Claro, eu vejo as críticas profissionais. Não fujo disso. Muitas vezes eu concordo, outras vezes não. A crítica pode ser precipitada, e se a pessoa é humilde, se o critico é humilde, vai também concordar comigo. Ainda mais em obra aberta. Em obra aberta é muito perigosa a crítica definitiva porque ela anda durante seis, sete meses. É óbvio que é mais do que válido você ter a crítica atuando. Mas acompanhar o povo, pra mim, ainda é a melhor crítica.

Como você escolhe os papéis em que vai atuar?
Sempre olho o projeto. Às vezes você recebe um convite e educadamente rejeita, mas, quando eu digo educadamente, é porque é difícil dizer não. Às vezes esse “não” envolve queridos colegas, mas às vezes aquele projeto não me interessa. O que me fascina é trazer algo que inquiete o público.

É difícil conseguir papéis que o desafiem depois de tanto tempo atuando?
Todo papel é desafiador. Quando eu fiz Totó em Passione fazia aquele agricultor na Toscana tendo que plantar, saber colher, produzir o azeite de oliva, manobrar trator… E eu fui pra lá, tive aula com tratoristas italianos. Isso tudo é um estímulo diferenciado. Ir para a Grécia fazer Belíssima, falar em grego com atores gregos, para mercados na Índia, em Caminho das Índias, e ouvir comerciantes indianos de tecidos no meu dia a dia. Um personagem feminino no Se Eu Fosse Você, com a Glorinha (Pires). Tudo é desafio.

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