‘Não quero sair de jeito nenhum deste mundo da mesma forma como entrei’

‘Não quero sair de jeito nenhum deste mundo da mesma forma como entrei’

Sonia Racy

15 de julho de 2013 | 09h22

Cissa Guimarães (Foto: Paulo Giandalia/Estadão)

Aos 56 anos, a atriz foge do estereótipo de exemplo de superação após a morte do filho, diz que aprendeu a lidar com a situação e garante: ‘Não deixo a vida me levar, não’

Ela é ariana. Não gosta de maquiagem, toma Coca-Cola normal, não dispensa um bom vinho, tem amigas de 20 a 70 anos e só vai à praia no finalzinho da tarde, quando o sol está quase se pondo. Também é devota de Santa Clara, está sempre com a medalha de Nossa Senhora Aparecida no pescoço, medita todos os dias, acende vela para seu anjo da guarda, conversa com Preto Velho e, quando entra no mar, pede licença para Iemanjá. “Sou ecumênica”, diz. Não passou pela crise dos 40, tampouco dos 50 anos. Como? Ela mesma explica: “Amo Zeca Pagodinho, mas não deixo a vida me levar, não”.

Aos 56 anos, a apresentadora e atriz carioca Cissa Guimarães rejeita rótulos. Principalmente aqueles que a tratam como exemplo de superação – por causa da morte do filho, Rafael Mascarenhas, em 2010. Ele foi atropelado quando andava de skate no Túnel Acústico, na Gávea, no Rio. “Detesto isso. Realmente me irrita. Primeiro, porque não sou exemplo. Segundo, não superei e nunca vou superar”, afirma. Mas ela não se entregou à dor. “Apenas aceitei que ela estará aqui para sempre e abri um espaço à felicidade.” E, mesmo sabendo que nunca mais será “100% feliz”, faz o possível para seu coração bater “o mais forte que puder, mesmo que seja de muletas”.

Cissa quer, agora, levar sua experiência para a TV e ouvir as mães – não só as que perderam seus filhos. Apresentou ao Fantástico, dominical da Globo, o projeto de um quadro chamado Mães Coragem. Enquanto não recebe a resposta, ela se prepara para mais uma temporada do programa Viver com Fé, do GNT. Dizendo-se “muito plena e feliz”, recebeu a coluna na véspera da estreia da peça Doidas e Santas – sua primeira experiência como produtora – em São Paulo.

A seguir, os melhores momentos da conversa.

Essa é a primeira peça que você produz. Quando teve a ideia de fazer isso?

Comecei a perceber uma repetição do perfil das personagens que eu vinha fazendo. O rótulo que estavam me colocando – e que eu permiti que me fosse colocado – era o da mulher extrovertida, engraçada. Daí, veio um desejo de fazer outra coisa. Paralelamente a isso, estava chegando aos meus 50 anos. E me pegava, em vários momentos, emocionada comigo mesma. Com todos os trabalhos que tinha feito até ali, com os meus filhos, com as minhas vitórias, com os meus fracassos. Estava me dando conta de como a maturidade está ficando muito bonita, com uma beleza mais consistente, que não é óbvia, que não é só do corpo, do rosto. É uma beleza que tem uma história.

Sem crises?

Alguns chamam este momento de “crise dos 50”, mas eu enxergo de maneira diferente. As pessoas tendem a relacionar crise a coisas ruins, mas as vejo como movimentos. E todo movimento é bom. A coisa estática me irrita profundamente. Sou ariana, sou agitada. Gosto de ficar inquieta. O que mais detesto é quando dizem “não tem jeito”. Lógico que tem! Só não tem jeito a morte mesmo – e isso eu sei de cadeira. O resto tem!

Mas nem todo mundo consegue enxergar assim…

Claro que dá trabalho, né? Viver é muito perigoso, já dizia Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas. Mas não podemos deixar a vida nos levar. Eu amo Zeca Pagodinho, mas não deixo a vida me levar, não. Faço a minha vida, escrevo a minha história. E isso dá muito trabalho. Amadurecer dá muito trabalho, virar gente grande dá muito trabalho. Claro que, de vez em quando, é mais fácil não olharmos para nada disso. E o pior é quando achamos que estamos olhando e, no fundo, não estamos.

Mas é difícil olhar para si, não?

Quando acontece uma porrada em nossas vidas, se não trabalharmos para transmutar aquilo em aprendizado para evoluir, não vai dar certo. Não tinha consciência disso, porque nunca imaginei que pudesse acontecer algo como o que aconteceu. Mas, quando aconteceu, agi para lidar com aquilo. Claro que não é uma zona de conforto, mas você tem de se manter firme. Por mais clichê que seja, a verdade é que o que importa não é o que acontece com a gente, mas, sim, como lidamos com isso. Como reagimos, como conduzimos a nossa vida é o grande barato.

Apesar dessa inquietação, você consegue ter momentos de introspecção?

Claro! Medito todos os dias. Apesar de falar muito, escuto muito bem também.

E como é a sua relação com a fé, com a espiritualidade?

Sempre houve uma relação, que foi crescendo no decorrer da minha vida. Por inquietações, pela busca de me transformar numa pessoa cada vez melhor. E minha intenção é sempre essa: a de evoluir. Quando acabo de rezar, agradeço e peço sempre força e luz para evoluir. Esse é o grande barato da nossa experiência aqui na Terra. Não quero, de jeito nenhum, sair de cena da mesma maneira como entrei. Quero sair bem melhorada. A fé ensina isso. Quando temos fé que vamos evoluir, que temos luz, que vamos conseguir, tudo acontece. Ter fé é acreditar. E são vários os caminhos. Fui criada e educada em uma família católica, sou devota de Santa Clara, Nossa Senhora está sempre aqui comigo. Mas sou totalmente ecumênica.

Como foi que você conheceu as outras religiões?

As inquietações me levaram a bater um tambor, para uma conversa com o Preto Velho – que acho lindo. Adoro os rituais da umbanda, dessa relação com a natureza, dos orixás. Quando entro no mar, falo com Iemanjá, peço licença a ela. Acendo minha vela para meu santo, acendo vela para meu anjo da guarda sempre. E o budismo me ajudou muito na passagem do Rafa. A oração tem poder, a palavra tem poder. Adoro rezar para alguém. Sempre tenho um momento em minhas orações que dedico a outras pessoas. E sei que chega até elas. Sei porque senti isso quando oraram por mim. Vai fazer três anos do Rafa agora, do meu anjo. E até hoje as pessoas me encontram na rua e me falam: rezei tanto por você. Eu digo: continua, continua, continua.

O luto passa?

Não! Detesto esse papo de superação. Realmente me irrita quando dizem que sou exemplo de superação. Primeiro, porque não sou exemplo. Segundo, não superei e nunca vou superar. Sou aleijada. Meu coração anda de bengala, nunca mais vai ser um coração normal. Nunca mais vou ser 100% feliz na minha vida, nunca mais vou ter uma felicidade plena. Mas tenho minhas muletas, vou andar, vou ser 80% feliz, meu coração vai bater de muleta, mas vai bater. E vou fazer o possível para ele bater o mais forte possível. E feliz.

E como fica a dor?

É claro que tem horas em que acabo ficando no escuro. Tenho compaixão comigo mesma. Busco cuidar dessa dor – é minha para sempre. E é muito sagrada. Aceitei que estará aqui para sempre e abri um espaço para a felicidade. É o Rafa que me ensina o tempo todo. Não posso deixar, em nenhum minuto, de ter essa consciência, nem achar que vai passar ou negar a existência dessa dor. Inventei até uma história maluca e que conto para todas as mães que me procuram.

Que história?

É como se Deus resolvesse criar uma peça e viesse à Terra fazer testes para a escolha do elenco. E só as melhores atrizes do mundo poderiam fazer o personagem mais difícil: as mães que perdem seus filhos. No momento em que fui escalada para interpretar esse personagem, vou desempenhá-lo muito bem. Ele confiou em mim essa parada. Porque não é para qualquer um, não. Se veio para mim, é meu, vou cuidar e fazer da melhor maneira possível. Não tem um dia que passe batido. É um trabalho diário. O Rafa me ajudou muito. Tenho muito a agradecer por esse menino ter vindo para mim e ter ficado comigo 18 anos. Vou reclamar? Não! Nunca e de jeito nenhum. Vou agradecer muito sempre e dignificá-lo.

Como foi a experiência na produção da peça?

Honestamente, senti medo de encarar esse processo, porque produzir a si mesmo significa liberdade, significa fazer o que você realmente quer, com quem você quer, do jeito que você quer e quando você quer. Mas, como tudo na vida, tem seu ônus. Requer responsabilidade. Significa virar gente grande, assumir todas as rédeas, encarar glórias e perrengues. E, infelizmente, ainda é muito difícil produzir cultura neste País. Ouvi, a vida inteira, as agruras do périplo que é produzir um espetáculo no Brasil. Tenho colegas que posaram nuas, outras venderam apartamento para conseguir montar uma peça. E não tinham retorno. E hoje, mesmo com as leis de incentivo – graças a Deus elas existem -, ainda é muito difícil. Estou há três anos em cartaz, mas meu projeto tem seis anos.

E a Lei Rouanet?

Acho ótima, mas ainda é pouco. O ideal era que nem precisasse haver leis, que já tivéssemos incentivos do Ministério da Cultura e dos empresários sem que precisássemos pedir. Um produtor de uma peça sempre se sente um pedinte, é como se a gente estivesse sempre mendigando (para conseguir captar os recursos) – apesar de as empresas também ganharem com o desconto no Imposto de Renda. /THAIS ARBEX

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