‘Não quero mais personagens tão óbvias, como a da menina bonita’

‘Não quero mais personagens tão óbvias, como a da menina bonita’

Sonia Racy

28 de julho de 2014 | 01h00

Foto: João Miguel Junior

Entusiasmada com o sucesso, em Paulínia, de Boa Sorte – filme no qual atua e que coproduziu –, Deborah Secco diz estar se tornando, finalmente, a atriz que sempre quis ser.

Ela anda obcecada. Aliás, desde os 10 anos de idade, quando encenou seu primeiro espetáculo. Só que, agora, aos 34, Deborah Secco está empenhada em se tornar “a atriz que sempre quis ser”. E a ansiedade pôde ser vista nos últimos dias nas redes sociais, quando ela só falava da emoção de apresentar o filme Boa Sorte – do qual é atriz principal e coprodutora – no Festival de Cinema de Paulínia.

Paralelamente, a moça vem gravando a novela Boogie Oogie, que estreia dia 4. Mas garante que a nova trama das seis da Globo não a impedirá de trabalhar na promoção do longa (“quero estar presente em todos os eventos relacionados ao filme”). Próximos passos? Festival do Rio, Mostra Internacional de SP e lançamento nacional, marcado para outubro – “mas, se alguma coisa incrível acontecer, tipo Hollywood quiser comprar os direitos do filme, a gente muda tudo”, diverte-se.

Vinte e quatro anos de carreira depois, Deborah, ao que parece, encontrou seu caminho, que já não segue mais a ditadura da beleza, que ela representa tão bem e há tanto tempo. “Faço porque é meu trabalho, mas não é algo que me interesse”, confessa. “Estou em busca daqueles papéis que não sei se sei fazer.”

No banco de trás de um carro na estrada entre Campinas e Paulínia, a atriz conversou, por telefone, com a coluna – poucas horas antes de Boa Sorte ser exibido pela primeira vez e emocionar o público no interior de São Paulo.

A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Como foi passar um ano inteiro dedicada ao projeto do filme Boa Sorte? 

Uma oportunidade única para tudo, eu acho. Porque esse filme foi a razão da minha vida em 2013, então criou-se uma expectativa muito grande. Minha carreira girou muito em torno dele. Todo o resto correu em paralelo. É um momento que marca uma etapa nova na minha vida. Desde que eu li o texto do Jorge Furtado (Frontal com Fanta), muito antes de saber que a Carolina (Jabor, diretora do longa) iria montar o filme.

Você fez teste para o papel?

Pedi para a Carolina me deixar fazer um teste. Eu estava encantada pela personagem da Judite, queria muito o papel. Acabou sendo muito intenso, foi a coisa mais certa que fiz na vida. E a emoção de apresentar o resultado de tudo que fizemos ao grande público, em Paulínia, me deixou até sem palavras. A gente batalhou muito por esse filme.

Pode-se dizer que se tornou um marco na sua carreira?

Com certeza. Sempre quis ser atriz, desde muito pequena, era o objetivo maior da minha vida. Acho que desde que me lembro de mim… Mas só nos últimos anos comecei a ser a atriz que eu gostaria de ser mesmo. Com a oportunidade de escolher mais as coisas que eu faço, encaminhar minha carreira para uma direção que era a que eu queria quando mais nova. Só que não é tão simples, né? As obrigações da vida não te permitem fazer só aquilo que você quer.

Chegou o momento de ir atrás dos sonhos?

Ir atrás da minha realização artística, eu diria. Porque passei muito tempo em busca da tranquilidade financeira, da independência.

Quanto tempo demorou desde as primeiras reuniões até a estreia em Paulínia?

Eu e a Carolina começamos a conversar em outubro de 2012. Eu havia lido o conto em 2010, ele faz parte de uma coletânea chamadaTarja Preta, e quis comprar os direitos do texto imediatamente.

Você já tinha sido coprodutora de Bruna Surfistinha. Está encarando como uma nova carreira?

Não pelo título de ‘coprodutora’, mas gosto de fazer parte, sabe? Quando me sentir apaixonada por uma personagem, por um texto… quero isso pra mim. É questão de envolvimento, mesmo, porque passo a ver o filme como meu também, independentemente de ser produtora ou não. Bruna foi uma experiência que me mostrou um pouco isso, porque o filme era tão centrado na minha personagem, que eu não consegui não participar de todo o processo. Quando estávamos finalizando o projeto, o Baldini (Marcus Baldini, diretor do longa)me chamou e disse: ‘Mas você é coprodutora, cooperou mais do que todo mundo!’. Descobri que coproduzir não é, necessariamente, participar de forma burocrática, mas estar inteiramente disponível para a parte artística do filme. Não sei mais o que é fazer cinema sem esse envolvimento.

Necessita de uma dedicação muito maior.

Muito maior, mas é tão prazeroso. Tanto que já tenho alguns projetos para o ano que vem, todos na mesma condição. Não me imagino mais fazendo cinema na base do roteiro entregue em casa, tendo de decorar texto, estudar, me preparar e chegar ao set para gravar. Quero fazer parte de tudo. Distância artística não combina mais comigo.

Está mais fácil fazer cinema hoje do que no começo da sua carreira?

Sempre quis muito fazer cinema, tive participação em algumas produções, mas sabia que só poderia me considerar ‘fazendo cinema’ quando encontrasse uma grande personagem, capaz de tornar a minha vida diferente.

Foi a Bruna Surfistinha?

Foi, sim. E acho que as pessoas também passaram a me ver como uma atriz diferente depois do filme, mais disponível, com uma coragem artística que não era percebida até então, que ninguém conhecia. A partir daí houve uma mudança de percepção. Pararam de pensar em mim para aqueles papéis óbvios, o que é uma alegria enorme. E estou em um momento da carreira no qual, se não estão pensando em mim, vou atrás, vou ler roteiros, procuro diretores, para saber o que está sendo produzido. Com toda a humildade do mundo: bato na porta e peço para fazer um teste. Tem sido a minha rotina.

O que você quer dizer com ‘personagens óbvias’?

Ah… eu tenho um tipo físico que agrega a certas personagens, né? A moça, a menina bonita… esse tipo de personagem é o que eu não quero mais fazer, personagens que têm muito a ver com a minha cara. Quando terminei de fazer Boa Sorte, engatei outro longa, do André Moraes (A Estrada do Diabo, no qual interpreta Laura). Fiz o papel de uma atriz fracassada, inchada, que tenta voltar a fazer sucesso. Tive de engordar 14 quilos para compor a personagem. Já a Judite, de Boa Sorte, é uma soropositiva e eu emagreci 11 quilos para poder interpretá-la. Ou seja, quero fazer personagens diferentes de tudo que eu sempre fiz. São essas que me interessam, as personagens que eu não sei se sei fazer (risos). Esse é o desafio.

E como fica a vaidade de uma mulher que sempre foi incensada pela beleza?

Tenho trabalhado muito – o ano passado foi isso o que eu mais fiz – para me manter disponível também externamente, mostrar que meu físico está disponível, que não sou apegada à estética. É um caminho longo, com muitos degraus, em que se vai criando uma nova história, uma nova verdade. Sem muita ansiedade. De qualquer forma, é preciso lembrar que raspei a cabeça com 16 anos na novela Vira-Lata (Deborah passou máquina 4). E, logo depois, engordei oito quilos… Então, não posso dizer que não estava disponível antes. Mas talvez os papéis não fossem tão densos. Ou as pessoas não estivessem tão interessadas em mim a ponto de perceberem essa disponibilidade.

A gente vive em uma sociedade na qual a beleza é muito valorizada. A cobrança por se manter sempre bonita e em forma é algo que te incomoda?

Não é algo que me incomoda apenas na carreira, mas na vida! É estranho ver pessoas darem mais valor à estética do que a qualquer outra coisa. Eu me relaciono com as pessoas pelo que elas têm por dentro e quero que olhem para mim com esse olhar também. Claro que há uma cobrança estética porque trabalho em uma grande emissora e preciso me cuidar, estar bem para as personagens que têm esse apelo estético. Se a personagem é supergostosa, lá vou eu para a academia, vou malhar e ficar o mais gostosa possível, mais até do que eu imaginava que poderia ser (risos). A televisão cobra, cada vez mais, a estética, e a gente corre atrás dela. Mas não é isso que me interessa nem me importa. Faço porque faz parte do meu trabalho, faz parte de uma sociedade que, aliás, deveríamos questionar um pouco. Porque, às vezes, criam-se padrões de beleza que são cruéis, impossíveis. Essas modelos que estão aí querem acabar com a nossa vida. Eu posso fazer o que quiser e não serei jamais nem metade do que a Gisele Bündchen é…

É pior para as mulheres reais.

Para todas as mulheres. Na hora em que a gente se olha no espelho, diz: ‘Danou-se!’ (risos). Eu, que sou, às vezes, referência de beleza, também tenho essas crises. A Deborah Secco real, que acorda de manhã, toma banho, escova os dentes, que as pessoas veem no bairro onde ela mora não é a mulher da revista, né? Essa estética falsa causa uma depressão mundial!

E vale lembrar que, em junho, Bruna Marquezine, que completa 19 anos semana que vem, foi capa da revista Nova.

Exato, acho que é feito para a gente se matar! (risos) Pelo amor de Deus! Eu vivo disso, mas minha verdade não tem Photoshop. Penso que, se é cruel comigo, que faço parte desse cenário, imagina para quem não trabalha com isso! Ano passado, quando engordei para fazer a Laura, as pessoas olhavam para mim, na rua, assustadas. Eu falava: ‘Gente, sou atriz, beleza não é tudo na vida’. Porque a beleza acaba. Só não envelhece quem morre, e eu pretendo viver muito, ficar bem velhinha.

Como você pretende dividir seu tempo entre as gravações da novela Boogie Oogie, que estreia dia 4, e os compromissos do filme Boa Sorte?

Eu e a Globo fizemos um pré-contrato antes de as gravações começarem. Deixei claro que este é o meu ano, o filme é a maior expectativa da minha vida e que não poderia aceitar nenhum trabalho que me impedisse de lançá-lo da melhor maneira. Quero estar em todas as pré-estreias, quero acompanhar tudo. E a Globo foi ótima comigo. O Ricardo (Waddington, diretor da novela) admira essa minha escolha artística e me deu todo o apoio, foi conversar com a Carolina. Eles estão se ajeitando com as datas e eu, graças a Deus, não tive problema nenhum em relação a isso.

Depois de encarnar Judite e Laura, papéis dramáticos, como foi se preparar para uma novela leve, como esta das seis?

É um típico folhetim, daqueles antigos, com mocinhos e vilões. Além da energia dos anos 70, que me encanta. Para me preparar, fiz um mergulho profundo nos principais filmes daquela década. Estou completamente Tony Manero (risos)Os Embalos de Sábado à Noite foi um filme que me marcou muito quando o assisti pela primeira vez e revê-lo agora, por um outro motivo, é algo muito forte. Foi uma década musical que muitos questionam, mas eu acho simplesmente sensacional. A dance music pode não ser tão enriquecedora, em termos de notas, arranjos e tal, mas ela traz uma alegria para a alma que poucos ritmos trazem.

Além de TV e cinema, algum plano para teatro?

Queria voltar a fazer Mais Uma Vez Amor, que ficou quatro anos em cartaz. Mas sei que é complicado, porque fazer cinema e teatro ao mesmo tempo é muito difícil. Assim como fazer TV e teatro ao mesmo tempo. Dividir-se entre dois papéis… é preciso imersão total para encarar uma personagem.

Tem preferido qualidade a quantidade?

Antigamente, eu era muito ansiosa, não falava ‘não’ para nada e acabava fazendo tudo meio que de qualquer jeito. Terminava cansada e insatisfeita. Hoje, prefiro fazer sempre o melhor que puder. Tenho vivido com menos culpa em relação ao meu passado e menos expectativas em relação ao meu futuro. /DANIEL JAPIASSU

 

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