‘Não podemos dar valor aos imbecis que fazem o mundo parecer chato’

‘Não podemos dar valor aos imbecis que fazem o mundo parecer chato’

Sonia Racy

10 de março de 2014 | 01h02

Rafinha Bastos (Foto: Iara Morselli/Estadão)

Rafinha Bastos voltou para a Band à frente do ‘Agora é Tarde’, após fracasso do ‘Saturday Night Live’. “Quis ser sofisticado demais no canal que tem Dr. Ray colocando silicone nas mulheres”

Um dos mais polêmicos comediantes do Brasil, o também jornalista e apresentador Rafinha Bastos comemora uma nova fase na carreira. Acaba de estrear no comando do Agora é Tarde, na Band, e vem investindo em uma série de projetos – alguns 100% sérios.

Aos 37 anos, o gaúcho de Porto Alegre, casado há mais de uma década e pai responsável, diz que aprendeu muito nos últimos anos, principalmente com o fracasso do Saturday Night Live, na Rede TV!. Dono do Comedians, casa de stand up comedy em SP (que visita quando tem tempo), ele quer mesmo é fazer barulho na TV – de preferência, evitando processos.

Rafinha recebeu a coluna em sua produtora no dia em que teria reunião com seu advogado sobre o caso Wanessa Camargo. A seguir, os melhores momentos da conversa.

Você está mais contido à frente do Agora é Tarde. Foi um pedido da Band?

Eu não diria mais contido, nem houve um pedido formal, do tipo “se contenha”. O que aconteceu é que cheguei à conclusão de que tem muita gente que não me conhece tão bem assim. Eu tenho vários lados, que posso usar dependendo do que esteja fazendo. Sou ator, comediante, jornalista, apresentador. O que a Band quer é que o Agora é Tarde faça barulho. Não quer mais um programinha de entrevistas.

O formato já está definido?

É um processo, de acertos e erros. E temos muita liberdade para agir. No segundo episódio, com o Lobão (que foi ao ar quinta, dia 6), fiquei na dúvida se deveria ter conversado mais, evitado tanta ação. Já na estreia, com o Luan Santana, preferi mais ação. Esse equilíbrio é complicado. Eu vou conseguir! Estou muito empolgado com o desafio.

Foi difícil passar meia hora sem zoar o Luan Santana?

Mas eu tirei sarro… É que as pessoas construíram uma imagem de que eu sou um cara que vai humilhar o entrevistado, que vou ser desagradável. E isso não existe. É importante que o Luan saia do programa dizendo “foi muito legal. Fernando? Sorocaba? Vale a pena ir ao Agora é Tarde”. O objetivo é ser divertido, não cutucar as pessoas. Claro que, em alguns momentos, eu vou dar uma cutucada…

O risco de o Rafinha polêmico aparecer, de repente, foi devidamente levado em conta pela direção da Band?

Eles sabem que, uma hora, vai escapar alguma coisa. Ao mesmo tempo, é preciso pensar na repercussão que o programa tem de ter. A Band ficou muito empolgada com a audiência na estreia. A gente chegou a bater 5 pontos, o que é fantástico (o ‘Agora É Tarde’ vai ao ar à meia-noite).

Você está se dedicando também a um outro programa, mais sério, chamado Marcapasso. Como está o projeto?

Temos uma equipe trabalhando só nele. Era algo que eu queria muito fazer. Estreamos em outubro. É um conteúdo mais jornalístico, sobre histórias reais, estilo minidoc. A gente acredita muito, embora ainda não esteja feliz com a quantidade de acessos. O que viraliza na internet é comédia, né? Não dá para competir. Agora estamos atrás de patrocínio, para diminuir os custos.

Pensou em levar esse conteúdo para a TV fechada?

Pensei. Mas ainda estamos aprendendo a trabalhar o modelo. Preciso até mandar um e-mail para o pessoal da Discovery, que ficou interessado… Mesmo gravando um programa diário, quero fazer outras coisas ao mesmo tempo, algumas com pegada mais jornalística. Tenho necessidade disso.

Você foi um dos primeiros a usar vídeos na internet como meio de expressão…

Em 1999. Era uma brincadeira. Eu estava nos EUA, fazendo faculdade de Comunicação no Nebraska e jogando basquete. E tive a ideia de criar vídeos para os meus amigos em Porto Alegre. De repente, outras pessoas passaram a ter acesso, fui citado num programa da MTV e… minha página se transformou num espaço de comédia. Comecei a ter fãs.

E voltou ao Brasil por quê?

Eu me machuquei jogando basquete, quebrei a maçã do rosto e a mandíbula. Voltei para me operar (ele usa aparelho nos dentes até hoje por causa do acidente) e acabei ficando. Já era formado em Jornalismo pela PUC-RS… (pensa um pouco) Fiquei um ano nos EUA e me arrependo de não ter voltado e completado o curso.

O que te faz rir?

Putz… as coisas mais idiotas do mundo. Gênero Partoba, sabe? Gente caindo, gordo tropeçando. (risos) Mas tem muita gente produzindo conteúdo de alta qualidade na internet. Guilherme Toledo, Felipe Castanhari… Tem uma nova geração muito criativa na web.

O que explica que sucessos de público e crítica em canais pequenos ou na internet não repitam o mesmo êxito na TV aberta?

Cara, não é um processo simples. E não tem a ver com o talento do comediante. Junto com essa migração vem todo tipo de estigma, de cobrança, expectativas impossíveis de serem cumpridas. Falo isso pela experiência que eu tive na Rede TV!. Queriam que o Saturday Night Live tivesse a audiência do Pânico. Só que o Pânico é o programa jovem mais assistido da história da TV brasileira.

Acha que o mundo está chato?

Um pouco, mas também acho que a gente está reverberando muito o ódio, entendeu? O negativo tem se tornado uma nuvem gigantesca. Está chato? Está, mas acho que um pouco disso se deve à repercussão desse ódio até mesmo por parte da imprensa. Acho que está na hora de a gente parar de dar valor a essa quantidade enorme de imbecis que faz com que o mundo pareça chato.

Não te incomoda ver um monte de informações erradas sobre você nos jornais?

Não. Eu sou jornalista, conheço o outro lado. E não me sinto vítima, apesar de 90% do que se publica sobre mim ser mentira ou uma versão deturpada da verdade. Por exemplo: a quantidade de vezes em que expliquei que não fui demitido do CQC. Eu pedi pra sair. E até hoje muita matéria insiste na minha demissão do programa. Mas não fico sofrendo por isso. Eu teria milhões de coisas para falar sobre esse assunto, coisas que nunca contei. Faria sentido expor as pessoas? Acho que não.

Por que o Saturday Night Live não deu certo no Brasil?

Primeiro, não é um formato que tenha a ver com a nossa realidade. Depois, eu talvez tenha sido cabeça-dura em alguns momentos, porque não quis popularizar demais o conteúdo. Tentei ser mais sofisticado em um canal que tinha o Dr. Ray experimentando silicone nas mulheres… (risos) Fui seduzido pelo nome. Queria ter um vínculo com o SNL.

Você continua sócio do Danilo Gentili no Comedians?

Continuo, claro. E está muito legal. Sessões lotadas sempre.

Mas você tem tido tempo de se apresentar lá?

Vou de surpresa. A pessoa está lá no sábado, na sessão das 22h, e, de repente, eu apareço.

A série de minientrevistas 8 Minutos Com…, que você publicou no Youtube, será disponibilizada no Netflix?

Mas em outro formato. Chama-se Bem Mais Que 8 Minutos, uma versão estendida das conversas que estão no YouTube. Cerca de 22 minutos. Vendemos 13 episódios para o Netflix. Deve estrear este mês.

E como está a série A Vida de Rafinha Bastos?

Sabe que tive de esperar três meses para saber como a série tinha ido de audiência, né? Porque, na TV aberta, a contagem é na hora; na TV a cabo demora. E tive uma surpresa! Ela foi a terceira série brasileira mais assistida em 2013, perdendo para Vai Que Cola e Sai de Baixo.

Vai ter reprise?

Acabo de conseguir autorização da Fox para colocar a primeira temporada da série no meu canal no YouTube.

Seu filho, Tom, vai aparecer na próxima temporada?

Eu vou ter de falar sobre ele, né? Mas mostrar… aí acho um pouco complicado. Minha mulher, na série, é interpretada por uma atriz. As histórias são reais, mas… O importante é manter uma certa privacidade. Claro que tem coisas que são incontroláveis: você vai a um shopping e um fotógrafo te flagra brincando com o teu filho…

Você viu que um site de fofocas trocou o nome do Tom pelo do filho da Wanessa Camargo?

(risos) Eu juro que não tenho culpa. Olha, eu sou comediante e tenho de levar tudo na brincadeira. Nesse caso, seria calhorda e patético eu ficar puto por terem exposto o meu filho, já que sou o cara que faz piada com o filho dos outros… Eu coloquei só uma foto do Tom no meu Instagram. Sabe por quê? Porque imaginei que ele poderia chegar pra mim, aos 20 anos, e falar: “Pô, pai, você me escondeu a vida toda!” (risos).

Como está o processo da Wanessa Camargo?

Nesse episódio todo, a única coisa que eu penso é que as pessoas têm de parar de comprar a opinião do outro. Esse é o problema. As pessoas não param para pensar, ficam contagiadas por esse instinto de querer odiar, sabe? Tudo se transforma em uma grande conspiração.

O que costuma ver na TV?

Muito telejornal e reality show americano. Série eu quase não vejo. Meus amigos dizem que tenho de assistir Breaking Bad, House of Cards… mas não tenho saco. Nem talk-show americano eu tenho assistido.

O que faz quando não está gravando ou fazendo shows?

Sou caseiro, detesto badalação. Moro num lugar que tem tudo que eu preciso, inclusive academia – faço muita ginástica. Adoro sair com a minha mulher e com o meu filho para passear.

Ser mulher do Rafinha Bastos não deve ser tarefa fácil…

Olha, a Junia é um ser humano muito evoluído (risos). Não sofre com o que acontece… quer dizer, toda vez que a minha família fraquejou foi porque eu fraquejei.

Quando você fraquejou?

A vez em que mais fiquei chateado foi quando o SNL começou a desandar. Não pela minha carreira, porque realmente não ligo pra isso, mas porque levei dez pessoas para o programa que são muito próximas de mim. Ficava pensando: “Porra, meti meus amigos num negócio que os telespectadores não estão gostando”. Fiquei bem grilado naquele momento. Aí eu dei uma fraquejada, minha mulher percebeu o clima, meu pai me ligou lá de Porto Alegre…

Mas ele sempre te liga, né?

Sempre, é verdade. E eu tenho de acalmá-lo, tenho de estar sempre são: “Não, pai, eu não vou ser preso!”, “não, pai, eu vou conseguir voltar a trabalhar, vai dar tudo certo!”. Vejo meus pais umas seis, sete vezes, por ano. Às vezes, um deles me liga chorando… e eu tenho de dizer “calma, está tudo bem!”. Preciso estar bem não apenas pra mim, mas para os outros. Senão eu coloco todo mundo para baixo, o pessoal lá de casa fica pensando…

Que foi uma roubada você ter vindo para SP?
(risos) Não, eles têm certeza de que foi uma boa ideia… senão eu estaria ganhando R$ 800 na RBS até hoje. /DANIEL JAPIASSU

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