‘Não podemos aceitar a ideia de que um lado é menos humano que o outro’

‘Não podemos aceitar a ideia de que um lado é menos humano que o outro’

Sonia Racy

11 de agosto de 2014 | 01h01

Para Michel Gherman, a guerra em Gaza é “absolutamente política”. E afirma: é preciso lutar pela paz, contra a ocupação israelense e o fundamentalismo islâmico.

A guerra entre Israel e o Hamas em Gaza deu início, no último mês, a um debate frenético nas redes sociais, polarizando opiniões e levando pessoas a protestarem contra o governo de Israel nas ruas de São Paulo e até a uma crise diplomática entre os governos israelense e brasileiro. Michel Gherman, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, acredita que as discussões na internet procuram classificar um dos dois lados como cruel e absoluto. “Isso resulta em apenas duas opções: ou são os palestinos que usam as mulheres e os filhos como escudos humanos – como se eles amassem menos que os ocidentais, o que, para mim, é um absurdo – ou os israelenses são assassinos cruéis, que matam e massacram – o que, para mim, também é absurdo”, afirmou, em entrevista à coluna.
Mestre em Antropologia e Sociologia pela Universidade Hebraica de Jerusalém, Gherman defende que o conflito seja analisado pelo viés político e chama atenção para as consequências desastrosas que os últimos acontecimentos podem deixar de herança: “Netanyahu e Hamas utilizam, de maneira muito inteligente, esse conflito para colocar de forma definitiva um fim no acordo que estava caminhando”.
O professor afirma, ainda, que o governo brasileiro apostou em uma “dubiedade moral perigosa” ao chamar seu embaixador em Tel-Aviv para consulta. No entanto, ressalta que a postura de Israel foi ainda pior: “Usar metáforas de futebol é o resumo da mediocridade política do atual governo”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Todo mundo tem opinião sobre Israel e Palestina. Por que esse conflito desperta tantas paixões?
É a pergunta que todo mundo quer ver respondida. Desta vez, tem uma questão que serve praticamente de elemento de laboratório. Diferentemente de outros momentos, agora, ao mesmo tempo em que existe a incursão em Gaza – um conflito, sem dúvida, muito sangrento –, a poucos quilômetros de lá existe uma situação muito mais sangrenta e complexa e que dura anos, na qual a presença da mídia, as demandas, as manifestações externas são muito menores.

A Síria?
Sim. Pouco se fala sobre os assassinatos na Síria. Fala-se em cem mil mortos, além de um milhão de refugiados. É óbvio que devemos discutir o conflito na Palestina, mas essa ideia de que a arma de quem atira é mais importante do que o peito de quem morre, para mim, inverte um pouco a percepção e leva a debates muito acalorados. Porque são discussões em que você tem de tomar posição. E esse é um conflito em que Netanyahu dialoga com o Hamas.

Você acredita que há algum aspecto do local que invoca uma memória e gera mais polêmica?
No imaginário de alguma esquerda, talvez. Os judeus ocupam um espaço muito caro à análise da esquerda, um espaço muito ocidental. E a Palestina, em algum momento, virou a vítima do Ocidente. Então, tudo cai nessas questões caricatas, o que é um equívoco, porque são posições políticas muito fechadas.

A discussão, no Brasil, ganhou um aspecto semântico. Há quem procure uma palavra para definir todo o conflito – que é complexo. Massacre, guerra, genocídio… Essa classificação é possível?
Esta não é uma guerra inevitável, acontece por escolha de dois lados. E a questão da nomenclatura é muito importante para o posicionamento político. É uma tabela que vai desde “operação” – no sentido mais neutro – até “holocausto palestino”. Chamar o que está acontecendo na Palestina – e não na Síria – de holocausto é um absurdo, um problema de percepção mesmo. Agora, se você fala em uma “guerra”, pressupõe a ideia de que há dois lados.

Qual sua posição em relação à decisão do Brasil de convocar o embaixador em Tel-Aviv?
Se o governo brasileiro tivesse tomado essa atitude quando os massacres foram perpetrados pelo governo Assad, eu entenderia e até estaria de acordo. Mas fazer isso de forma isolada é apostar em uma dubiedade moral que pode ser perigosa. Entretanto, pior foi a reação da diplomacia israelense. Desconsiderar o Brasil como parceiro relevante e usar metáforas de futebol como argumentação são o resumo da mediocridade política do atual governo de Israel. Aqui, cabe a seguinte pergunta: se a comunidade judaica brasileira for vítima de atos em represália à piada do 7 a 1, feita pelo diplomata israelense, quem ela pode responsabilizar? O antissemitismo ou o próprio governo Bibi (Netanyahu)?

Você acha que a política atual do governo de Israel faz crescer o antissemitismo na diáspora?
Não. Acho que o antissemita tem uma agenda que se chama antissemitismo. É um tema que temos de tratar e que, na sociedade brasileira, é pouco considerado. O Hamas é antissemita. Na declaração de princípio deles existe, além da necessidade do extermínio de Israel, o uso de uma estratégia antissemita, por exemplo, a ideia de complô judaico. A pergunta que eu faço é: o leitor ou o militante de esquerda de Paris que sai às ruas quando lê sobre o Hamas tem essa percepção antissemita? Como ele incorpora isso? Entretanto, tendo a acreditar que antissemitas serão antissemitas com ou sem práticas específicas do governo de Israel. O que acho é que o atual governo de Israel está investindo no isolamento e na percepção judaica de que “todos estão contra nós”.

Por quê?
Porque isso fortalece esse governo. Essa ideia é boa para Netanyahu, assim ele pode tomar decisões que passem o conceito de “eu protejo vocês”. É preciso entender: esse governo tem uma agenda, uma lógica, age de maneira específica e tem posições claras sobre a ocupação. Isso não representa, necessariamente, as ideias do mundo judaico e da sociedade israelense. Ele perdeu muitos votos nas últimas eleições.

Tanto o Hamas quanto Israel usam a lógica do medo?
Sim. E essa lógica tem percepções paralelas, que falam muito bem a linguagem de Bibi e do Hamas. Quando Bibi precisa, aciona a memória dos ataques terroristas, que é muito fresca. Quando o Hamas precisa, aciona a memória da ocupação e da opressão israelenses, que também é muito viva.

E quem pode ser capaz de quebrar essa lógica?
Essa guerra colocou uma pá de cal em um processo extremamente positivo, levado por setores israelenses e por Abu Mazen (Mahmoud Abbas), do Fatah. Quando ele foi à ONU pedir o reconhecimento da Palestina, também estava reconhecendo para o mundo todo o Estado de Israel. E a postura do governo israelense, em algum sentido, impossibilitou o caminho para um acordo. Abu Mazen derrotou politicamente Bibi em vários campos, entre eles o fortalecimento da imagem da Palestina como estado independente. Ele também esvaziou o balão do Hamas, que tinha uma imagem de heroísmo. Qual a política de Bibi? Fortalecer quem dialoga com ele no “não-acordo”, que é o Hamas.

Por isso é tão trágico.
É dramático, uma guerra absolutamente política. Ambos (Bibi e Hamas) utilizam, de maneira muito inteligente, esse conflito para colocar, de maneira definitiva, um fim no acordo que estava caminhando. Abu Mazen dialogava com setores israelenses. Não sei para onde isso vai. Vende-se a imagem de que essa guerra é entre duas nações homogêneas, mas poucos se lembram de que existe uma oposição no governo israelense e que, há dois meses, palestinos demandavam acordo com Israel. O atual quadro faz com que o mundo veja Israel como um exército que tem um país e que o Hamas seja a cara da Palestina. Esta é uma das heranças mais terríveis que esse confronto pode deixar.

Como fugir do maniqueísmo?
Nós, os analistas, temos de procurar entender o conflito. Se nos deixarmos levar pelo debate emocional, fugimos do que é importante. Com a internet, a tendência é cair em uma lógica de mentira de guerra. Eu não tenho dúvida alguma de que os palestinos são seres humanos e de que os judeus e israelenses são seres humanos. Não podemos aceitar a ideia de que um lado é menos humano que o outro.

E o líder palestino, Marwan Barghouti, que está preso?
É uma figura importantíssima. Era de um grupo jovem do Fatah, um dos poucos líderes carismáticos efetivos que estavam na Primeira Intifada. Ele percebe a existência de Israel como um fato dado. Claro que se envolveu em atentados terroristas, por isso está preso, mas acho um equívoco do governo de Israel não intervir. Ele é contra o Hamas, tem contato com partidos de esquerda israelenses e seria um nome importante em uma negociação futura, que eu não sei se vai existir.

E o que aconteceu com a esquerda israelense?
Israel passa por um momento turbulento internamente. Um deles é o fortalecimento de outras formas de esquerda. A noção de que o conflito é insolúvel levou militantes para outros campos de atuação, mais vinculados ao combate à desigualdade social e questões econômicas. Mas, mesmo assim, ainda há em Israel uma esquerda no sentido mais clássico. Por exemplo, o Meretz – partido que determinou que uma de suas principais agendas seria a solução do conflito – dobrou o número de deputados. A esquerda israelense se enfraqueceu nos últimos anos, mas, agora, passava por um processo de reinvenção e fortalecimento.

Os assentamentos são continuamente contestados, mas seguem em expansão pelo atual governo.
Sim. Há algo que não podemos esquecer. Em 2005, Gaza foi desocupada. Na minha percepção, essa desocupação foi politicamente utilizada para evitar o acordo. Veja: se em Gaza já existia o domínio do Hamas e, na Cisjordânia, um líder que queria fazer acordo, por que não dar preferência ao diálogo? Quando Bibi entrou em Gaza, qual foi sua mensagem? Que Israel desocupou aquele território e não deu certo. Meu medo é que essa lógica seja justificada para qualquer acordo de devolução de território na Cisjordânia.

Você defende que a única solução para o conflito Israel/Palestina é a divisão entre os dois estados.
Sim. A ideia de um estado binacional não faz sentido naquele território, nem depois de tudo que já aconteceu no século 20 em outros lugares. A única solução são dois estados, mas não sei o quanto ela é exequível, a não ser que aconteça nos próximos anos.

Um dos obstáculos de Israel à solução dessa questão é o retorno dos refugiados?
É fundamental o reconhecimento dos refugiados e do Nakba (como os palestinos chamam a criação do Estado de Israel e o êxodo de 1948). Da mesma maneira que os judeus demandam o reconhecimento do Estado de Israel e das tragédias que sofreram, entre elas a Shoá (Holocausto). Memória é capital político. Há soluções: possibilidade de retorno, ressarcimento… são questões já postas na mesa de debate. A ideia de não-acordo só é investida, bancada e cultivada por aqueles que não querem acordo. Bibi e Hamas, por exemplo.

Quais os próximos passos?
É importante que as pessoas estudem e se informem antes de saírem às ruas. Eu sou contra a ocupação, contra o atual governo israelense, mas acho trágico fazerem uma manifestação em frente a bancos e livrarias, só porque os donos são judeus. Isso é antissemitismo. É preciso ter consciência. Temos de lutar por um acordo de paz, contra a ocupação e contra o fundamentalismo islâmico. Não é massacre, holocausto ou apartheid. Isso se chama acordo de paz, ocupação e fundamentalismo islâmico. /MARILIA NEUSTEIN

 

Tudo o que sabemos sobre:

gazaIsraelmichel ghermanpalestina

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.