‘Não me peçam de graça a única coisa que eu tenho para vender’

‘Não me peçam de graça a única coisa que eu tenho para vender’

Sonia Racy

06 Janeiro 2014 | 01h00

Foto: Denise Andrade/Estadão

Eterna Madrinha do Samba, Beth Carvalho fala sobre direito autoral, as manifestações de junho, militância política, Dilma, seus 48 anos de carreira e os grandes planos para 2014.

Dez meses de hospital e dez pinos na coluna lombo-sacra depois, Beth Carvalho parece uma menina em sua cadeira de rodas elétrica – que usa apenas para não forçar as costas –, demonstrando a habilidade conquistada desde agosto, após receber alta do Pró-Cardíaco, em Botafogo. “Ela tem duas velocidades: tartaruga e lebre”, explica, abrindo um sorriso.
Aos 67 anos, a eterna Madrinha do Samba deu a volta por cima (como manda um de seus maiores sucessos) e se prepara para um 2014 com agenda cheia e “muita esperança na seleção do Felipão”. “Porque o futebol brasileiro só é o que é por causa da ginga do samba, né?”
A cantora vai retomar a divulgação de seu último CD, Nosso Samba Tá Na Rua, lançado em 2011, e transformá-lo em DVD. E também alimenta o desejo de fazer um álbum com músicas revolucionárias latino-americanas. Tem lógica: afinal, são 48 anos de carreira e militância (“Herança do meu pai, que foi cassado na ditadura”). Se acredita na dupla Marina/Campos? “Não, ela quer é tirar a vez do Eduardo…” Dilma está fazendo a coisa certa? “O problema são as coligações, que atrapalham muito!” E quem faz mais falta na política? “Ah, o Brizola! Ele tinha de ter sido presidente do Brasil!”, desabafa.
Beth falou com a coluna no fim do ano passado, pouco antes de gravar algumas de suas joias para um especial de Natal e réveillon do programa Metrópolis, nos estúdios da TV Cultura. Entre uma resposta e outra, pausa para receber os fãs (funcionários da emissora). Todos ganharam abraço, beijo e, claro, refrões clássicos da carioca. Como diria o baiano Dorival Caymmi, que muito a influenciou, “quem não gosta de samba, bom sujeito não é”.
A seguir, os melhores momentos da entrevista.

De onde vem essa energia?
Rapaz, acho que da minha maneira de ver a vida, de amar a vida. E do samba, né? Ah, o samba te dá uma força danada. Ele cura (risos). É verdade, cura… mas a fisioterapia faz milagre.

Foi, como diz um dos seus grandes sucessos, uma volta por cima?
Foi mesmo. Volta por cima. (Ela canta o verso “Dar a volta por cima que eu dei/Quero ver quem dava”)

E você aprontou uma bagunça enorme no hospital durante o tempo em que ficou internada.
Uma bagunça boa (risos). A tecnologia, hoje em dia, permite isso. No hospital eu gravei três faixas para álbuns da minha sobrinha, a Lu Carvalho, e do Leo Russo, que são da nova geração do samba. E também para um CD especial em homenagem a Dona Ivone Lara. Também dei muita entrevista, fiz reunião política…

Você sempre engajada, né?
Meu pai sempre foi de esquerda, muito interessado na vida política brasileira, e acabou influenciando a mim e a minha irmã, Vânia. Não deixou que a gente crescesse alienada. Em 1964, ele foi cassado. E nem pertencia a nenhum partido, veja só! Ele tinha as ideias, né? E essas ideias, na Alfândega – que era onde ele trabalhava –, já incomodavam muita gente. Ele foi dedurado por alguns colegas. Ameaçado de prisão, se escondeu na casa de um tio nosso, muito reacionário (risos). Foi uma ótima ideia, quem iria procurar ele lá?

Como foi crescer numa família musical como a sua?
Ah, a música estava em todo canto. E a família era muito unida, família nordestina, do Piauí. Minha avó, Ressú, por exemplo, era super à frente de sua época, pioneira mesmo. Tocava violão, bandolim. Foi a primeira mulher a usar maiô no rio Parnaíba. Já minha mãe era ligada à música erudita, à ópera, tocava piano. Dela eu herdei a paixão pelo balé. Aliás, eu tinha jeito para a coisa, mas o samba me tomou. Continuo amando o balé, vou a tudo que é temporada. E o meu pai, mais MPB, gostava do que havia de melhor. Ele me ensinou a amar Dorival Caymmi, Noel Rosa, Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso, Silvio Caldas. Foi meu pai que me apresentou o primeiro disco, em 78 rotações, de João Gilberto. “Minha filha, escuta esse violão”, ele me disse. Eu tinha 13 anos e me apaixonei pelo instrumento.

Você chegou a dar aulas de violão nessa época, né?
O que acabou sendo muito útil depois, quando meu pai foi cassado. Porque dava para defender pelo menos o sorvete (risos). Agora, para você ter ideia de como meu pai era um espírito pra cima: ele sonhou com o número do processo movido pelos militares e jogou no bicho. Pois deu na cabeça! A gente viveu um ano com aquele dinheiro. Eram 700… sei lá… sestércios! Ninguém mais sabe, né? Mas era uma grana boa.

Como foi começar a carreira já gravando?
Pois é. Muita gente pensa que foi nos festivais, mas iniciei a carreira gravando. (A conversa é interrompida por alguns funcionários da TV Cultura, que vêm abraçar a cantora e desejar boa recuperação. Uma delas chora copiosamente e é consolada por Beth) Você viu que coisa? Isso sempre me emociona. Vamos continuar. Bom, eu fazia muito sucesso nas rodas… não de samba, nas rodas de apartamento. Porque bossa nova era em apartamento, né? E comecei a ganhar dinheiro me apresentando. Não tinha microfone nem nada, era no sofá da casa, mesmo.

Mas tocando só bossa nova ou samba também?
Também, mas, principalmente, bossa nova. Porque ainda havia preconceito contra o samba. Eu cantava Cartola e Nelson Cavaquinho, por exemplo, que não eram muito conhecidos na época. Numa dessas reuniões na Vieira Souto, meu amigo Mauro Alvarenga Porto, cameraman da extinta TV Rio, me falou: “Beth, vou te levar ao programa do Flávio Cavalcanti, Noite de Gala”. Não era o de calouros, não. Era o bom, o must. A gente foi até a casa dele e eu me apresentei. O Flávio era uma pessoa maravilhosa, mas ultra de direita, né? Para provocar, eu só cantei música de protesto (risos). E ele me botou no programa. O Paulo Rocco, diretor artístico da antiga RCA, e o Humberto Reis, da Rádio Tamoio, me assistiram e…

Acharam que você cantava um pouquinho…
Um pouquinho. E comecei gravando com uma orquestra enorme, arranjo do Eumir Deodato, o Roberto Menescal tocou pra mim. Foi em grande estilo. Eu não tinha essa ideia de ser cantora profissional, não. Esses caras é que me levaram a isso. Eu cantava porque gostava. Estava me preparando para fazer vestibular de Psicologia… Nem passava pela minha cabeça procurar gravadora, ou seja, as coisas vieram a mim. Logo depois, aconteceram os festivais. E os compositores passaram a me procurar muito.

Nessa época, você andava para cima e para baixo com os mestres do samba, né?
Vivia o dia inteiro com o Nelson Cavaquinho. Ia a todos os bares com ele – embora eu não beba nada. Um dia, estávamos no Degrau, um bar no Leblon. E encontramos o Tom Jobim. Ele havia acabado de comprar uma flauta e estava tocando. Quando viu a gente entrando, falou alto: “Nelson Cavaquinho!” Praticamente se ajoelhou. Acabamos nos sentando à mesa com o Tom, que era muito meu amigo. E eu percebi que o Nelson não tinha se ligado de quem se tratava. Uma hora, perguntei: “Nelson, sabe quem é?”. Ele respondeu, com aquela voz rouca: “Não, minha filha”. “Pois é o Tom Jobim…” E ele: “Antonio Carlos?” E cantou Chega de Saudade. O Tom quase chorou.

Está satisfeita com o governo Dilma, que você apoiou?
Sabia que ela teria restrições, por causa das coligações feitas pelo partido, né? As coligações atrapalham muito. Por isso eu quero a reforma política. Para evitar as limitações do presidente, qualquer que seja ele.

Como viu as manifestações que aconteceram em junho?
Sempre gostei de manifestações populares. Até porque sou da geração da passeata. A única diferença é que, na minha época, as passeatas eram mais conscientes. Essas que aconteceram agora têm um lado anarquista que não me agrada, o fato de alguns saírem quebrando tudo. Não é por aí. A gente precisa discutir, conversar.

Vê com alguma simpatia a coligação Marina Silva/Eduardo Campos?
Não me agrada. Ela quer é tirar o lugar do Campos…

Quem está fazendo falta à política nacional?
Ah, o Brizola. Ele tinha de ter sido presidente do Brasil. Acho que o País ficou devendo essa ao Leonel…

Hoje em dia, o que você gosta de ouvir?
Zeca Pagodinho, Cartola e Nelson Cavaquinho sempre, Arlindinho (Cruz). Da nova geração, Mariene de Castro, de quem sou madrinha, Lu Carvalho. Eu escuto muita coisa: ópera, música instrumental, Mercedes Sosa, Guinga… tenho mais de 4 mil CDs em casa. E deixei minha filha conhecer tudo. Falei: “Pode mexer!”. E ela me agradece até hoje. O papel dos pais é esse, né? Despertar a curiosidade.

Seu último CD, de 2011, acabou não tendo grande divulgação, por causa da sua internação. O que vem por aí?
Vou retomar essa divulgação. E, se Deus quiser, ele vai virar DVD.

Vai usar a internet para isso? O que acha da distribuição gratuita de músicas na rede como forma de divulgação?
Vou usar, com certeza. Mas esse negócio de “gratuito para baixar”eu tenho as minhas dúvidas. Por que dar de graça? Engraçado, né? As pessoas acham que o artista faz o que faz só pela arte, não pelo dinheiro. Tem gente que fica fazendo uma chantagem emocional danada com os artistas e muitos entram nesse barato. Eu não. Sou da linha Cacilda Becker: não me peçam de graça a única coisa que eu tenho para vender.

E o Ecad? Também acha que tem de mudar?
Olha, é o seguinte: o Ecad foi fundado por nós, artistas. Porque havia mais de dez sociedades arrecadadoras, era uma bagunça imensa, generalizada. E, em meados dos anos 1980, criamos um único escritório de arrecadação de direitos, o Ecad. Trata-se de uma entidade administrativa, não tem músico lá, só técnico, advogado, contador… O que é muito importante para o artista, que é meio desligado dessas coisas mesmo. Eu, por exemplo, passo dez horas para achar um acorde, mas não fico cinco minutos fazendo uma conta. A gente tem uma dificuldade desgraçada com isso e precisava de um escritório assim. Deve haver mil erros no Ecad, não vou nem discutir isso, mas virar a coisa a ponto de se falar que o governo é que tem de assumir o controle… aí acho que não é o caso. Nós é que temos de resolver esses erros do escritório, temos de nos reunir, discutir. Falou-se até em cartel… olha só que absurdo! /DANIEL JAPIASSU