‘Não me agrada mulher agressiva’

‘Não me agrada mulher agressiva’

Redação

21 de dezembro de 2009 | 06h56

Sucesso no teatro e feliz com a reedição de seus livros, Lygia Fagundes Telles ironiza cirurgias plásticas e o medo da velhice

Dona de olhos fortes e sorriso terno, Lygia Fagundes Telles impressiona pela energia. Ainda se recuperando de uma cirurgia, em seu apartamento nos Jardins, em São Paulo, avisa de bate-pronto: “Já estou andando. Daqui a pouco vou sair rodopiando por aí.”

Formada em Direito no Largo do São Francisco, tendo juntado pela vida afora uma farta coleção de prêmios, a escritora faz jus ao título de “dama da Literatura” – uma dama familiar, romântica e profundamente eloquente. Sobretudo quando avalia o papel da mulher atual: “Não me agrada ver a mulher agressiva, arrogante, escrava das cirurgias plásticas e da moda. Ah, tanto medo da velhice! Mas o que é isso?”

Esse é o estilo de “Kuko”, como a chamava carinhosamente seu segundo marido, Paulo Emílio Salles Gomes. E ela não poupa adjetivos ao se recordar do companheiro: “Foi uma relação rica, muito feliz. Dois contos que escrevi devo a ele, que me inspirou”. A veia familiar também se faz presente na literatura, onde comemora, atualmente, as reedições de seus livros com o apoio da neta, Lúcia, que ajuda a revisar os textos.

Homenageada na Balada Literária de 2010, ela se mostra reticente quando o assunto é política. Mas não esconde sua preferência: “Simpatizo mais com Marina Silva”. A seguir trechos da entrevista.

Seu romance ‘As Meninas’ foi adaptado para o teatro por Maria Adelaide Amaral. A senhora gostou da montagem? Quando a peça chegou ao fim, eu estava tão emocionada que não conseguia falar. Enxuguei as lágrimas e abracei a Maria Adelaide. O público aplaudia de pé. Pensei então no ensaísta norte-americano Ernest Becker, que já tinha anunciado: a palavra escrita (e agora, no palco) é realmente A Negação da Morte – como bem diz o título de seu livro.

Sua literatura é tida como engajada. Os livros de hoje lhe parecem alienados ou superficiais? Num país com este, de tanto atraso e miséria, considero a minha obra de natureza engajada. Através do enredo, vou tramando as minhas denúncias nos romances e nos contos. Mas sempre disfarçadamente, com uma certa névoa de sombra ou de mistério. Quanto à literatura dos dias atuais, confesso que não sei como ela anda. Pretendo escrever agora um pequeno romance e assim vou me recolher porque estou precisando de solidão e de silêncio.

O ‘Estado’ está sob censura há mais de 140 dias. Qual sua posição a respeito? Sim, a censura! Publiquei As Meninas em plena ditadura militar, no ano de 1973. Oportuno lembrar que a personagem Lia, apelidada de Lião pelas outras meninas, foi a socialista que reproduziu fielmente um panfleto que recebi enquanto escrevia o livro. Nele, um preso político descrevia as torturas que sofreu nos porões do Doi-Codi, em São Paulo.

A senhora fez parte de algum movimento na época? Em 1977 fiz parte de uma comissão que foi a Brasília entregar ao ministro da Justiça o Manifesto dos Mil, uma veemente declaração dos intelectuais contra a censura: “O nosso amordaçamento há de equivaler ao silêncio do próprio Brasil”.Quanto ao Estado, acompanhei de perto sua luta naqueles anos de chumbo. Brava luta que vinha, às vezes, com uma pitada de bom humor. Eis que voltou a censura, uma violação à Constituição.

E como ‘As Meninas’ escapou da censura? Porque o censor da época não chegou até a página 148 do livro, na qual reproduzi aquele panfleto. Ele achou tudo chato e não prosseguiu. Soube disso pelo Paulo Emílio, que comprou uma garrafa de vinho quando chegou em casa. “Fui hoje informado que você escapou. Ah, Kuko, vamos comemorar”, ele me disse.

A sra. afirmou, recentemente, que as mulheres de hoje estão com a imagem muito denegrida. O que poderia mudar? Já dizia o filósofo Miguel Reale, meu professor de Direito: “A mais importante revolução do século 20 foi a Revolução da Mulher”. Gosto de ver as mulheres dividindo o tempo com o lar – que exige atenção – e ainda batalhando bravamente lá fora, porque este País precisa dos verdadeiros lutadores. Vamos à luta! Não me agrada, isto sim, ver a mulher agressiva, arrogante. Não me agrada ver a mulher escrava das cirurgias plásticas e da moda. Ah, tanto medo da velhice… Mas o que é isto? O medo da velhice ficou ainda maior que o medo da morte? Há, sim, tantas tarefas a realizar na velhice, sem ressentimento e sem amargor.

Qual o maior desafio da literatura atual? Não sei dos desafios da literatura atual, sei dos meus próprios, que não são poucos. “A confusão é geral”, já dizia o nosso Machado de Assis. E isso foi há tanto tempo! Posso bem imaginar o que ele diria hoje…

Tem vontade de escrever alguma biografia? Não me agradam as biografias que em geral não são fiéis. Ora, o que sei eu em profundidade do meu próximo? E de mim mesma? Será que já alcancei as minhas próprias cavernas? Há tantas máscaras, mas onde estão os retratos verdadeiros? Aristóteles dizia que a História conta o que aconteceu ao passo que a Poesia conta o que poderia ter acontecido. Diante da realidade, prefiro a ficção. Escolho a Poesia com a esperança de que no futuro ninguém se lembre de futucar a minha vida. Que fiquem com a obra.

Como poderia definir sua relação com Paulo Emílio? Muito rica, muito feliz. Dois contos que escrevi devo a ele, que me inspirou a escrevê-los, Helga e A Estrutura da Bolha de Sabão.

Como foi que ele a inspirou? Um dia ele contou que quando residia na França leu uma notícia impressionante. E me contou. Pedi detalhes, achei que poderia render um conto. Paulo Emilio ria, não tinha detalhes. “Vire-se, Kuko! Sente-se e escreva!” Tive tanto o seu apoio nessa difícil hora de sair da História e entrar na Ficção…

A senhora mudou de editora recentemente. Por quê? Está sendo uma alegria ver os meus livros reeditados com as belas capas de Beatriz Milhazes. Estou feliz, tenho às vezes a impressão de estar recomeçando a carreira.

Como se sente, homenageada pela Balada Literária de 2010? O homenageado terá que dar seu depoimento sem a menor formalidade. Qual o objetivo? Seduzir novos leitores, leitores jovens que gostam desses encontros bem-humorados e quentes.

Acha o leitor de hoje menos interessado? Escrevi há alguns anos que no Brasil havia três espécies em processo de extinção: a Árvore, o Índio e o Escritor. Hoje já substituí o escritor pelo leitor. Está claro que não é mais o escritor que está em processo de extinção, mas sim o leitor que anda por demais fugidio. O que poderá fazer o escritor sem o leitor, que é seu cúmplice?

Por Marília Neustein

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