‘Não existe nada mais humano do que a maldade arquitetada’

‘Não existe nada mais humano do que a maldade arquitetada’

Sonia Racy

02 Setembro 2013 | 01h00

Mateus Solano (Foto: Estevam Avellar/Globo)

O ator diz que Félix discute não apenas a homossexualidade, mas ‘a liberdade de a gente ser quem é’: “Minha cabeça está muito longe da maioria conservadora do País”.

Quando ele tinha 15 anos, uma astróloga mostrou seu mapa astral com a revelação de um futuro brilhante como diplomata. Mas já naquela época, ainda no colégio, a carreira do pai, João Solano Carneiro da Cunha – hoje cônsul-geral do Brasil no México – não lhe apetecia. O que interessava mesmo era o teatro. Tanto que, anos depois, escolheu as artes cênicas como profissão: formou-se pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, passou pelo tradicional Tablado e também pela decantada companhia Théâtre du Soleil, em Paris.

Hoje, aos 32, ele mostra, nas noites do horário nobre da Globo, que não poderia ter escolhido melhor roteiro para sua vida. Do alto de seu 1,89 m, ele é Mateus Solano, marido da também atriz Paula Braun, pai de Flora, de 2 anos, e… o Félix de Amor à Vida – que define como “um cara que brinca com o destino de todo mundo para conquistar sua meta”. “Mas é o que a gente mais vê por aí, não é? Não existe nada mais humano do que o Félix”, diz.

Para dar vida ao ardiloso personagem da trama de Walcyr Carrasco, o ator mergulhou fundo no estudo sobre a maldade. Encarou o livro O Efeito Lúcifer, em que o psicólogo americano Philip Zimbardo mostra como pessoas boas se tornam más, e na mais recente biografia de Adolf Hitler. “Queria descobrir por que a maldade é tão sedutora e como as circunstâncias podem transformar nosso caráter e alimentar o monstro que existe dentro da gente.”

Às perguntas sobre os trejeitos de Félix, Solano responde com outra pergunta: “Quem nunca brincou de ser gay quando criança?”. O Brasil, diz, está tendo uma “grande oportunidade de assistir a um debate aberto sobre a homossexualidade”. Mais do que isso: “sobre a liberdade de ser quem você é”.

A seguir, os melhores momentos da conversa com o ator – no Projac, no Rio.

O Félix é um retrato de questões que estão mais atuais do que nunca, por causa das manifestações das ruas: o combate à homofobia, à corrupção, a discussão do caráter, a busca pelo poder.

E a própria liberdade pessoal. Como estou cheio de trabalho, não pude ir a nenhuma manifestação. E confesso que, em determinado momento, me peguei em casa pensando: “O que estou fazendo da minha vida? Em um momento tão importante para ir às ruas, não posso estar lá”. Mas, de alguma forma, sinto que contribuo com a discussão. Uma discussão atemporal, que vai além da homossexualidade, que é a da liberdade de ser quem você é. E de como a gente deixa de ser quem a gente é porque a família ou a sociedade reprime e não aceita. E mais: tem dificuldade de enxergar isso. Vemos a discussão sobre homossexualidade em todos os lugares. Tornou-se política também – com o (deputado Marco) Feliciano de um lado, com a aceitação e permissão do casamento gay e com o Congresso não aprovando a ‘cura gay’ de outro. Mas, ao mesmo tempo, quando a sociedade opina sobre a cena em que o César (Antonio Fagundes) descobre que o filho, o Félix, é gay e o reprime, ficamos sabendo, por meio de pesquisa, que metade do Brasil é a favor do pai e a outra metade é a favor do filho. Isso mostra que, realmente, estamos mexendo em um ninho de vespas, e que é interessante que façamos isso.

Você acha que essa discussão atinge todos os telespectadores da novela?

Não é todo mundo que percebe, mas, depois dessa importante cena do pai com o filho, ouvi de pessoas próximas – e não foram poucas, não – histórias de pais de homossexuais que ligaram para seus filhos só para dizer “eu te amo” ou “aceito você como você é”. Pais e filhos que estavam sem se falar havia anos e voltaram a se falar. Isso é o mais realizador do meu trabalho. Mas claro que existem aqueles que estão muito longe de querer discutir.

Até porque o Brasil, apesar de toda a sua diversidade, é conservador em muitos aspectos. E as atitudes do personagem de Antonio Fagundes mostram isso.

Exatamente. As frases colocadas na boca do César são as que a gente ouve por aí o tempo todo. Como se importasse quem é homem e quem é mulher. E como se quem não se importa com isso estivesse em um lugar torto, doente da cabeça. Foi muito importante o Walcyr (Carrasco, autor da trama) criar, até determinado momento, o César como um homem irretocável, irreprimível. E o interessante é que o povo não ficou tão escandalizado quando ele arranjou uma amante. Ficou no terreno do “homem tem de ter caso mesmo, para aliviar as tensões do dia a dia”. Foi só com a revelação de ter um filho homossexual que coisas guardadas dentro dele começaram a pipocar.

Estamos preparados para encarar a homossexualidade de forma menos conservadora?

O Félix é uma ótima oportunidade para percebermos como é possível nos divertirmos com o homossexual do jeito que ele é. Para mim, é difícil dar uma opinião sobre isso, porque minha cabeça está muito longe dessa grande maioria (conservadora) – porque é uma grande maioria não só no Brasil, mas no mundo. Ainda me espanto quando vejo que muitas pessoas têm algum problema com a homossexualidade. Quando ouço alguém dizer que proíbe o filho de ver a novela, tenho vontade de dizer: não faça isso. Faça, é claro, se você tem problemas com novelas, com a questão dos comerciais, mas não proíba se a questão é a homossexualidade. É uma grande oportunidade de assistirmos a um debate aberto sobre o tema. Proibir de assistir não vai diminuir a homossexualidade – latente ou não – nesta pessoa. Pelo contrário, vai deixar aquilo em um lugar de dúvida e culpa.

Como foi sua educação?

Foi muito pacífica, de aceitar e entender que as diferenças são bacanas. Na escola, quando eu ou um colega sofria algum tipo de bullying, via aquilo com uma certa curiosidade. Ficava me perguntando como uma pessoa pode tratar outra daquela maneira. De onde ela tira que tem esse direito?

Pensava em reagir?

Mais do que provocar uma reação, era algo que me instigava. Não sei se posso dizer que estamos preparados, porque parece que não. Ainda vivemos em uma sociedade que não está pronta para aceitar as diferenças como simples diferenças. E não como um ataque a você. Se o outro quer beijar outras pessoas do mesmo sexo, o que eu tenho a ver com isso? E acredito que atitudes que cerceiam, enjaulam e colocam em guetos os gays só multiplicam as ‘bichas más’ na sociedade.

Ao desviar recursos do hospital do pai, Félix mostra que a corrupção está além de Brasília? Que pode até estar nos nossos atos do dia a dia?

Essa sacanagem do Félix é vista até de forma familiar. A grande maioria das pessoas tem alguma mancha em suas vidas. Fomos educados assim. E, carinhosamente, a corrupção, muitas vezes, é apelidada de ‘jeitinho brasileiro’. Claro que é bacana sermos mais amigáveis, termos um jeito menos sisudo de resolver as coisas, mas isso é bem diferente de furar a fila. Esse tipo de atitude é para ser colocada no mesmo lugar do cara que rouba o seu dinheiro. Isso não pode ser levado com naturalidade, mas somos educados assim, porque a gente paga o maior imposto do mundo e por todas as outras questões do País.

O Félix já chegou a dizer que “ninguém é bom, todo mundo é mau”. E para você, o mal está mesmo em todo mundo?

A maldade está aí, está em todo mundo. É com educação – se é uma boa educação – que conseguimos sufocar boa parte desse mal para conviver em sociedade. Para fazer o Félix, estudei a sedução da maldade. Queria descobrir por que a maldade é tão sedutora e como as circunstâncias podem transformar nosso caráter e alimentar o monstro que existe dentro da gente.

E o Félix mostra que descobriu de verdade, não?

(risos) É muito bacana o Walcyr colocar tudo no mesmo caldeirão. O Félix é humano, tem razões para ser revoltado, mas suas ações não são nada justificáveis. Nada justifica jogar um bebê em uma caçamba ou raptar uma pessoa ou tentar matar outra pessoa. Ele brinca com o destino de todo mundo para conquistar suas próprias metas. Mas é o que a gente mais vê por aí, não é? Gente passando por cima da outra. Aliás, sou absolutamente contra a palavra ‘desumano’ – principalmente quando usamos para caracterizar um crime.

Como assim?

Não existe nada mais humano do que a maldade premeditada. Nenhum outro animal é capaz de arquitetar, por exemplo, a morte de uma pessoa na porta da casa dela, na próxima semana. Não existe nada mais humano do que essa maldade arquitetada. Não existe nada mais humano do que o Félix. Nenhum outro bicho poderia ser um Félix, transformando seus problemas psicológicos em planos ardilosos. E é também (e até por isso) que o ser humano é tão incrível. Podemos, também, arquitetar bondades inimagináveis e de uma simplicidade incrível.

E o próprio Félix, em muitos momentos da trama, sensibiliza o público, não é?

Mesmo sendo um personagem tão ruim, fico maravilhado quando as pessoas dizem “muito obrigada por alegrar as minhas noites; muito obrigado por, depois de um dia de cansaço, me dar a oportunidade de dar risada quando chego em casa”. É tão bacana, mesmo tratando de um universo tão ruim, fazer as pessoas pensarem e se divertirem.

Você teve de procurar o seu lado mau para conseguir compor o personagem?

Não tive de procurar, não. Tive, digamos assim, de me divertir com esse lado. As piadas do Félix mostram muitas de nossas atitudes. Quantas vezes não olhamos para alguém e, de cara, já vemos os defeitos dela e, mesmo assim, vamos com um sorriso cumprimentá-la, como se não houvesse preconceito algum?

O próprio Zimbardo diz que a melhor vacina contra a prática do mal é o exercício permanente da autocrítica.

Concordo em gênero, número e grau. E isso depende de uma boa dose de humildade e também de uma boa dose de imparcialidade e relatividade. Gosto muito de futricar e achar os meus erros e acertos. Mas confesso que não gostava, não.

Não?

Não! Ninguém gosta de perceber como está errado. Mas, agora, como ator e como ser humano, gosto de investigar e constatar como me enganei em determinadas situações. Sempre fui muito espectador da vida. Gosto do papel de observador, que é onde o ator tem de estar sempre.

O que o Félix traz para a sua vida?

Todo personagem me traz alguma coisa. O Félix me traz mais segurança e mais atitude. Quando ele tem algum problema, já tenta resolver – muitas vezes, é claro, da pior forma possível. Sou, muitas vezes, inerte para os problemas da vida. Eles vão passando e vou deixando, porque não quero ser incomodado, nem incomodar ninguém. Mas precisamos de uma pequena dose de egoísmo para sobreviver, senão os outros pisam na gente. E aqui não estou generalizando, não. Estou realmente falando muito de mim. Se tem algo que o Félix realmente me ensinou foi a me impor e não ter tanto medo das reações negativas. /THAIS ARBEX