‘Não é prêmio meu, e não é Prêmio da Música Brasileira’

‘Não é prêmio meu, e não é Prêmio da Música Brasileira’

Sonia Racy

13 Agosto 2018 | 00h40

 

JOSÉ MAURÍCIO MACHLINE. FOTO FABIO MOTTA/ESTADÃO

Para o seu criado, o prêmio — que anuncia os vencedores
de 2018 nesta quarta, no Rio — ‘pertence a todos
os artistas que fazem musica no Brasil’

Empresário, produtor cultural, diretor e escritor, José Mauricio Machline promete que, este ano, seu Prêmio da Música Brasileira – a ser dado na quarta-feira, no Rio – será especial. Ano passado, sem patrocínio, Machline conseguiu a custo colocar de pé a programação que acontece há 29 anos. De que modo? “Artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque, Lenine, Maria Gadú e muitos outros trabalharam sem receber, bem como todos os técnicos de luz, som, bandas etc. Foi para lá de emocionante”, conta o produtor, que este ano conseguiu, mesmo em meio à crise econômica, apoio da Petrobrás.

O evento do dia 15, no Theatro Municipal do Rio, é só para convidados. Depois, parte do show entra em turnê pelo Brasil. No ver do diretor e produtor cultural, essa atitude de doação dos que trabalham no evento e dos que se envolvem diretamente na premiação mostra que ela “não é o prêmio do Zé Maurício, não é o Prêmio da Música Brasileira, é o prêmio dos artistas que fazem música no Brasil”.

Ante sua paixão pela música, se tivesse que pedir algo para Deus, o que seria? Cantar? “Ah, eu adoraria! Eu já cantei bastante, eu sou muito desavergonhado né? Então, acho que se você tem vontade, e aquela vontade não prejudica ninguém, vai embora e faz.” O empresário-produtor-autor vai além no raciocínio: “Eu já subi muito no palco, já cantei, já gravei disco. Entretanto, se pudesse pedir outras coisas incluiria algo que falta hoje no mercado: respeito pela individualidade e pelo desejo do próximo. Só. Para mim já estaria bom”. Neste ano, o homenageado é Luiz Melodia. O excelente artista, tão premiado, tão reconhecido, parece que veio ao mundo justamente para ser… Luiz Melodia. Aqui vão os melhores trechos da conversa.

Quando você organizou o primeiro prêmio, achou que ele ia durar tanto tempo?
Nunca pensamos nessa longevidade de um projeto. Nem mesmo quem o criou e que não está mais entre nós: Mário Henrique Simonsen (ex-ministro, economista, e amante da música). Com esse link musical, criamos uma amizade muito forte e colocamos o prêmio de pé.

Como foi isso, ele montou alguma fórmula?
Na época eu trabalhava na Sharp, que era do meu pai. O Simonsen me convidou para ir a Nova York, ele era o presidente do conselho do Citibank. Achei estranho, eu era muito mais jovem que o Mario e nada sabia de economia. Mas como gostava muito dele, fui. Ele me levou para assistir ópera no Metropolitan e também ao Grammy. Fiquei fascinado com esse prêmio. Aí ele perguntou: “Não existe prêmio de música no Brasil?” Eu disse que não. E ele, no ato: “Vamos bolar um?”

Quem diria, este começo. Conta como nasceu o prêmio aqui?
Eu já tinha um gravadora naquele momento, chamada Pointer, onde produzia shows, alguns discos e já tinha carinho especial pela música. Peguei a dica e já voltando, ainda no avião, fomos desenhando o projeto. Fiz em seguida uma reunião com um monte de artistas que queríamos convidar para jurados. O Simonsen levou uma fórmula de avaliação e, ao apresentá-la, deixou todo mundo em pânico. Lembro que o Dorival Caymmi olhava ara mim, olhava para a fórmula numa lousa, de olhos abertos. Tive que convencer o Simonsen de que aquela fórmula era impossível de ser executada pelos juízes-artistas. Colocamos tabela de notas mais normais também boladas pelo ex-ministro da Fazenda.

‘ME ARREPENDO SÓ 
DE UMA COISA: DE NÃO
TER FEITO O PRÊMIO ANTES’

Você tem dois problemas a serem superados a cada prêmio: é perfeccionista e absolutamente preocupado em não cometer injustiças. Como controla isso?
Primeiro, não coloco nunca o meu gosto pessoal na pauta. Evidentemente, tem coisas de que eu gosto e outras que odeio ouvir.

Vai contar aqui?
Não. Mas gosto pessoal não existe no prêmio. E para garantir isso montamos uma curadoria que vai atrás de tudo que é lançado no Brasil, de Norte a Sul. Complicado. Era mais fácil antigamente, porque os critérios de distribuição de música estavam na mão de cinco ou seis gravadoras. Depois a coisa foi evoluindo e, com a imensa democratização da música, tivemos que ser mais abrangentes. Um disco, há 30 anos, custava um milhão de qualquer dinheiro para ser feito e hoje custa R$ 1 mil e pode ser gravado até no banheiro.

Quantos jurados são convocados e como se inscrever?
Há duas maneiras. O artista se inscreve ou a gente vai atrás dele, porque ele não sabe o caminho. O projeto envolve pessoas especializadas, músicos, jornalistas, todos remunerados para avaliar tudo o que existe no mercado. Isso feito, as notas migram para a equipe de curadoria, que separa por temas. Ou seja, você lança um disco, eles ouvem e classificam por categoria. E dizem assim: é regional ou MPB, ela está cantando bem, é interessante, pode concorrer a melhor música, esse arranjo é bom…

A edição de 2018, que acontece na quarta-feira, no Theatro Municipal do Rio, traz diferenças em relação aos prêmios anteriores?
Sim, por causa da mudança da mídia. O clipe, por exemplo, morreu há pouquíssimo tempo e há dois anos ressurgiu com força muito grande. Então, ele entrou novamente na nossa avaliação. Os critérios para álbum mudaram. Antigamente tinha que ter oito músicas juntas em um mesmo ano. Hoje em dia são só cinco músicas.

Você já conhece os vencedores da quarta-feira?
Não, eu não sei. Porque se eu soubesse eu contava, porque eu não aguento… (risos). Funciona da seguinte maneira: os jurados vão recebendo, durante o ano inteiro, remessas para ouvir e vão dando nota. Essas notas vão para um centro de computação e de lá elas vão para uma auditoria e essa auditoria me diz quem são os indicados em cada uma das categorias. São quase 90 prêmios porque a música é dividida por categoria, por ritmo. Divulgamos então os três indicados em cada categoria. E aí começa a pressão.

Pressão de quem?
Os próprios artistas querem saber, os mais próximos, né? Aí puxa, fala, óbvio que eu torço para um ou para outro… – e, se eu soubesse, iria falar, não ia aguentar a língua começando a ferver dentro da boca. Então, eu só tomo conhecimento no dia, como todo mundo. Os envelopes saem lacrados da auditoria e as apresentadoras veem e leem na hora. Porque se eu soubesse antes… eu contava.

No ano passado, não apareceu patrocinador. Vocês fizeram o prêmio do mesmo jeito. Como conseguiu?
Isso foi uma coisa incrível que aconteceu, todo mundo doando seu trabalho. O que mostra que o Prêmio não é o prêmio do Zé Maurício, não é o Prêmio da Música Brasileira, é o prêmio dos artistas que fazem música no Brasil. Nós tínhamos um contrato com um patrocinador que o rompeu três ou quatro meses antes do prêmio acontecer. Eu já estava muito pressionado pelos artistas para saber se os seus produtos já tinham entrado ou não. E então e eu disse que “não pode não ter prêmio”. E fiz então uma reunião em minha casa com todos os artistas próximos ao Prêmio e dali saiu uma hashtag para a internet dizendo: “Vai ter prêmio da música”.

‘SE EU SOUBESSE ANTES
O VENCEDOR, EU CONTAVA.
EU NÃO AGUENTO…’

Saiu em todo lugar, não, com a voz dos artistas todos?
Essa hashtag fez com que a mobilização – não só da classe artística, mas das pessoas em geral – fosse tão grande que me deu um ânimo imenso de levar a coisa até o fim. Todo mundo trabalhou sem ganhar. Cada prêmio chega a ter 450, 500 pessoas trabalhando. O meu parceiro, que está comigo há… sei lá, muito antes do prêmio, se mobilizou e a gente conseguiu fazer o evento com a mesma grandiosidade, com afeto e emoção talvez ainda maior. Porque estava todo mundo ali dando o sangue para que aquela coisa continuasse. A Petrobrás abraçou o Prêmio da Música Brasileira esse ano e isso possibilitou que a gente o tornasse uma realidade, com todas as necessidades que ele exige.

Quão difícil é hoje alguém viabilizar um projeto cultural no Brasil, não?
O Prêmio talvez tenha sido privilegiado porque nós tivemos, durante 29 anos, apenas quatro patrocinadores. Mas o ambiente, para isso, está complicado. As leis de incentivo ajudam você a conseguir captar de uma maneira mais fácil, é verdade. Mas como você vai captar quando a empresa diminui muito seu lucro? Não se dá à cultura a devida importância. Justo ela, que cumpre o papel de sedimentar a educação.

Se você fosse hoje olhar para trás, teria montado o prêmio exatamente do modo como montou?
Só me arrependo de uma coisa: de não ter feito antes. Digo isso porque, se eu tivesse feito dez anos antes, eu teria tido a possibilidade de trazer, de ver e de premiar artistas que infelizmente não viram o prêmio e que têm para a cultura brasileira uma importância enorme.