‘Não existe bem e mal’

Sonia Racy

08 de dezembro de 2010 | 23h01

Na mesma noite em que o filme Tropa de Elite 2 conquistou a maior bilheteria de um filme brasileiro em todos os tempos, superando Dona Flor e Seus Dois Maridos, José Padilha foi centro das atenções, anteontem, na Livraria Cultura. O cineasta protagonizou o debate dividido com Bráulio Mantovani, Eduardo Giannetti e Guilherme Malzoni, tendo como pano de fundo o lançamento de mais uma edição da revista Dicta & Contradicta.

Antes de entrar no palco, Padilha e Giannetti tanto conversaram sobre o último livro do economista, A Ilusão da Alma, que atrasaram o bate-papo público. “Sou fã desse cara há anos, ainda mais agora que ele resolveu abordar uma questão central para mim: o corpo e a mente”, justificou o diretor.

No debate, registrada a paciência de Padilha e Mantovani. Eles responderam várias questões sobre os seus dois Tropa de Elite. A Giannetti coube fazer pertinentes intervenções, que se estenderam ao assunto da violência carioca.

Sobre o papel da polícia nas favelas do Alemão e na Vila Cruzeiro, o cineasta destituiu sua resposta de maniqueísmos. “Nessas invasões, não existe o bem e o mal”, analisou, lembrando que a única cidade do mundo onde boca de fumo tem endereço é o Rio. “Não há um só ponto de droga que não tenha participação da polícia”, avisa.

Ele, que já entrevistou mais de 40 policiais, foi além. Descartou o lugar comum de que há ausência do Estado nas favelas. Ao contrário. É a gestão desta presença, como é administrada, que se dá de maneira incorreta. Ao criticar a estrutura da instituição, Padilha chegou a afirmar que a polícia carioca produz xampu, Tylenol e, “se não me engano, até adoçante”.

O sucesso do evento foi registrado na falta de lugares. Nem todos conseguiram entrar no Teatro Eva Hertz: 60 pessoas tiveram que se contentar com um telão instalado na própria livraria.

Marília Neustein

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