‘Não enxergamos essas pessoas’

‘Não enxergamos essas pessoas’

Redação

30 de maio de 2009 | 06h00

A parceria entre Claudia Matarazzo e Mara Gabrilli resultou no livro Vai Encarar – A Nação (Quase) Invisível de Pessoas com Deficiência, que será lançado terça-feira na Livraria Cultura. Em tom descontraído, as duas falaram à coluna sobre o trabalho, um olhar da sociedade civil para esse universo que, segundo o IBGE, chega a 30 milhões de brasileiros.

Qual o propósito do livro?
Cláudia: A proposta foi da Mara. A ideia inicial era fazer um manual sobre como lidar com as pessoas com deficiência. À medida em que fui pesquisando, descobri como é importante que as pessoas enxerguem a diversidade dessa adversidade da mesma maneira que eu.

Por que, no título do livro, a “nação quase invisível”?
C: Porque não enxergamos essas pessoas.

O Estado brasileiro trata mal os deficientes?
Mara: Está aprendendo como tratar. Depois da exclusão, que é histórica, tivemos o assistencialismo. Vivemos em um país muito compensatório: como o Estado não dá, então compensa. mas há uma grande mudança: o Estado começa a ter um olhar tanto da igualdade quanto da diferença.

C: Mesmo na questão da nomenclatura se vê a mudança. Você tem na lei termos como inválidos, defeituosos. Depois veio o politicamente correto, “pessoas excepcionais” – também não é exatamente isso. A Mara me explicou o que é pessoa com deficiência.

As pessoas são tratadas de modo muito diferente?
M: Eu percebo um constrangimento. As pessoas me estendem a mão e, quando eu conto que não mexo os braços, às vezes sentem um mal-estar. Eu brinco, dizendo que só dou beijinho…

Mara, o que você fez quando sofreu o acidente, para não sucumbir?
M: Eu nunca senti depressão. Passei muito tempo entre a vida e a morte. E quando saí do respirador já me sentia vitoriosa.

Como é o lazer das pessoas com deficiência?
M: É difícil não existir, hoje, um cinema que não seja acessível, embora não sejam perfeitos. Avançamos muito, mas há muito a se fazer. Por exemplo, a adaptação do desenho universal. Não é porque é adaptado que tem que ser feio.

E a moda? Quais são as adaptações nas roupas, por exemplo?
C: Conversei com as pessoas mostrando que é um mercado enorme. Já há projetos em andamento.

M: Eu por exemplo, não uso calça porque me dá trabalho. O blazer, às vezes, dá tanto trabalho colocar e tirar, se tivesse um zíper atrás facilitaria. Ou uma calcinha que abrisse pelos lados. São adaptações que fazem a diferença.

E como está a questão da educação para as pessoas com deficiência?
M: De 400 mil que estão no ensino médio, só 1.800 chegam à faculdade. Não são todas as escolas que têm acessibilidade.

A lei de cotas para deficientes é necessária?
M: Sim. Porque poucos entram no ensino superior. A cota obriga a dar oportunidade a essas pessoas.

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