‘Não colocaria nenhuma vacina sob suspeita’, afirma Nísia Lima, presidente da Fiocruz

‘Não colocaria nenhuma vacina sob suspeita’, afirma Nísia Lima, presidente da Fiocruz

Sonia Racy

28 de dezembro de 2020 | 00h50

Nísia Lima. Foto: Peter Ilicciev

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) prevê entregar 210,4 milhões de doses da vacina contra covid-19 no próximo ano, segundo Nísia Trindade Lima, presidente do laboratório público, vinculado ao Ministério da Saúde. Ela reconhece, porém, que a imunização da população contra o novo coronavírus deve se estender até 2022. Nísia é uma entusiasta do Plano Nacional de Imunização, do qual a Fiocruz é responsável pela produção de 10 das 19 vacinas. Neste sentido, mesmo a instituição que lidera tendo acordo de produção com laboratório AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford, não embarca em disputas políticas na corrida pelo imunizante. Sobre a demora na divulgação da eficácia na testagem da Coronavac, do Instituto Butantã e da chinesa Sinovac, é categórica: “Eu não colocaria nenhuma vacina sob suspeita”.

A partir da publicação de artigos em revistas científicas e da aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Nísia diz que é certo que os imunizantes foram checados por especialistas independentes: “Todas as vacinas que forem registradas são seguras, com diferentes porcentuais de eficácia, mas certamente com a possibilidade de evitar o adoecimento, a morte, que é uma grande preocupação”.

Demonstra cautela quando provocada a falar sobre os limites do teto de gastos públicos para o combate à pandemia da covid-19, apontando que a sociedade terá que se debruçar sobre a questão do aumento do financiamento para saúde e áreas correlatas. E considera legado importante, o forte apoio do setor privado. “Nós criamos o site Unidos Contra a Covid para receber doações, tivemos um apoio de mais de R$ 400 milhões de pessoas físicas e empresas – apoio da iniciativa do Todos pela Saúde,” afirmou à repórter Paula Bonelli.

Nísia é uma estudiosa da história da saúde pública no Brasil, com doutorado em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ). Sua experiência prática recente inclui a construção de rede de emergência para enfrentar crises como zika e febre amarela. Aos 62 anos, acaba de ser a mais bem votada na lista tríplice dos servidores da Fiocruz para outro mandato de quatro anos. No último páreo, em janeiro de 2017, Nísia também ficou em primeiro lugar, mas o então ministro da Saúde, Ricardo Barros, do governo Michel Temer, escolheu a segunda colocada. A mobilização de cientistas e servidores reverteu o quadro e Nísia acabou sendo nomeada. A seguir os principais trechos da entrevista com a presidente da Fiocruz.

Laboratórios escondem notícias ruins e expõem as positivas no caso da Covid-19? Cientistas, por exemplo, criticam a demora na divulgação da eficácia na testagem da vacina Coronavac.

Acho que tem muita informação e contra informação, e nós temos que ser muito cuidadosos. A Fiocruz produz 10 das 19 vacinas do Plano Nacional de Imunização (PNI), é um instituto com credibilidade. Da mesma forma, o Instituto Butantã tem muita tradição. Eu não colocaria nenhuma vacina sob suspeita. O que nós precisamos é de fato ter a evidência científica e a submissão para o registro.

A credibilidade dos laboratórios é testada na pandemia?

Os nossos laboratórios de produção têm demonstrado ao longo da história respostas às crises sanitárias e não está sendo diferente agora. O que existe hoje é um modo de comunicar a ciência que está mudando muito. A Pfizer e a própria AstraZeneca anunciaram resultados pela imprensa antes mesmo da publicação científica. Esse é um procedimento novo, muito em função da expectativa da sociedade.

A partir de que momento dá para confiar nas vacinas?

A ciência trabalha com método, os dados são checados por pessoas independentes e isso nos dá muita segurança. Todas as vacinas que forem registradas são seguras, com diferentes porcentuais de eficácia, mas certamente com a possibilidade de evitar o adoecimento, a morte, que é uma grande preocupação.

À medida que as pessoas forem vacinadas a transmissão será interrompida?

Isso será um processo, não será uma coisa tão rápida. Eu sou uma grande defensora das vacinas, mas tem que olhar o conjunto, o SUS, que vai garantir o acesso à vacinação e o nosso PNI, garantindo o acesso de todos.

Quais são os gargalos na distribuição a serem avaliados?

As vacinas que requeiram menos cadeia de frios, menor complexidade, que tenham um custo menor, serão sustentadas. O imunizante que a Fiocruz produzirá pode ser conservado em temperaturas de 2 a 8 graus centígrados, já temos toda a questão da logística do envasamento da vacina, porque utilizaremos a mesma da febre amarela. São frascos de cinco doses, as seringas são as que os programas de imunização usam geralmente, então não tem esse problema logístico mais acentuado. Até julho nós estaremos importando e depois será uma vacina absolutamente nacional, brasileira, e nós produziremos enquanto for necessário. Temos o compromisso de produzir 100,4 milhões doses até julho do ano que vem e mais 100 milhões a partir de agosto. Num regime de duas doses, isso dará para cobrir um contingente bastante expressivo de população, e ela certamente se somará a outras vacinas que estarão obtendo registro. Os cientistas apontam que as mutações de modo algum invalidam as vacinas, mas são aspectos que exigem pesquisa, e não achismo. Quanto mais informação a gente substitui o medo por consciência e por um cuidado.

Teve uma decisão do STF permitindo estados e municípios a importarem vacina e a obrigarem seu uso. O que achou?

O Ministério da Saúde definiu que qualquer vacina que seja aprovada pela Anvisa, com eficácia e segurança comprovadas, será incorporada ao PNI. Então acho que temos que reforçar um Sistema Único de Saúde, é uma visão nacional. Porque se não nós estaremos criando uma grande distorção, quer dizer, os municípios com maiores recursos terão maior acesso à vacina? Como é que vamos controlar essa ida ao mercado de prefeitos, governadores… A Fiocruz entregará 210,4 milhões de doses de vacinas no próximo ano. São 750 mil doses por dia.

O presidente disse que não vai ter vacina para todo mundo.

É, isso é um fator de priorização, isso num primeiro momento. Há também grupos que nós ainda não temos evidências científicas para vacinar, como gestantes, crianças. A vacina da Pfizer fez os testes e está preconizando a vacina a partir dos 12 anos.

Então, a perspectiva otimista é que em 2022 os brasileiros estejam vacinados?

Vamos ver qual vai ser a disponibilidade de vacinas efetiva que teremos. Elas estão em produção em âmbito global. Há uma dificuldade dessa oferta. O Brasil participou da iniciativa Covax, da Organização Mundial de Saúde – coalizão de 165 países para garantir imunizante contra a Covid-19 para nações mais pobres. Portanto, a primeira vacina registrada também será utilizada aqui. Diria que a perspectiva otimista é conseguir uma grande cobertura vacinal da população até terminar 2021. Mas acho que o mais realista é considerarmos que isso se estenda pelo primeiro semestre de 2022.

A capacidade de produção de vacinas é limitada?

Neste momento, temos toda a nossa capacidade de produção. Estamos produzindo as outras vacinas também como para febre amarela. Houve a redução da imunização no País, as pessoas precisam se vacinar, aconteceu o retorno do sarampo. Estamos ainda aumentando a produção de vacinas, de biofármacos, que são os medicamentos do futuro. Acabamos de assinar a escritura definitiva para um terreno em Santa Cruz, no Rio de Janeiro, para construir um complexo de biotecnologia de saúde.

Como avalia que serão os próximos anos?

No futuro, não tenho dúvida, precisaremos de mais vacinas, com boas práticas e condições. A saúde será um fator de desenvolvimento e de autonomia tecnológica. Trabalhamos na Fiocruz com o conceito de complexo econômico industrial da saúde. Ela não é só uma despesa, a saúde também é um fator de desenvolvimento econômico, de que o País possa ter autonomia nesses itens tão importantes. Esse também é um aspecto muito importante do nosso acordo para a produção da vacina para covid na Fiocruz.

O governo federal está disposto a financiar a vacina de covid-19 até que ponto?

Tivemos até o momento financiamento através de medida provisória, aprovada pela Câmara e pelo Senado, garantindo R$1,9 bilhão, para trazer esse ingrediente farmacêutico ativo e finalizar a produção em Bio-Manguinhos. Nos últimos anos aconteceram investimentos importantes. E agora há uma outra medida provisória destinada à aquisição de vacinas e à preparação do programa de vacinação.

Está ok esse financiamento? Para esse momento que nós estamos sim.

O importante é ter um investimento contínuo, estável, numa instituição como a Fiocruz. Não só nela. Acho que o mesmo se aplica a todas as instituições de ciências universitárias do nosso País.

Isso vai além da própria instituição?

A Fiocruz está contribuindo com vários estudos de fase 3 da própria vacina do Butantã, da Janssen, temos um importante grupo de pesquisa trabalhando. O que a gente tem depois da chamada farmacovigilância, é a fase 4. No Ministério da Saúde tem recursos para isso. Mas certamente a saúde terá que ter um tratamento diferenciado daqui para frente, mesmo numa situação de crise, porque ela, a ciência e a tecnologia farão parte para solução para a saída da crise, não tenho dúvida disso.

O teto fiscal pode ser um problema para vacina? Para o financiamento da vacina?

Todos os recursos para à covid-19 no orçamento deste ano poderão ser estendidos até o próximo. E têm tido um tratamento extraordinário, mas essa é uma questão que o País vai ter que discutir. Como vamos preservar essa base orçamentária, principalmente com vistas à superação da crise? Acho que esse vai ser o debate nacional dos próximos meses.

Por que você prefere a expressão “novo futuro” no lugar de “novo normal”?

Teremos que participar dessa construção. Superaremos essa pandemia, mas vivemos num mundo globalizado, a própria pandemia está gerando novas desigualdades. Então temos que construir esse futuro com bases em sistemas de saúde, com base em ciência e tecnologia, num esforço democrático, no envolvimento da sociedade.

Qual é o legado?

Um legado importante é o forte apoio do setor privado. Criamos o site Unidos Contra a Covid para receber doações, tivemos um apoio de mais de R$ 400 milhões de pessoas físicas e empresas – apoio da iniciativa Todos pela Saúde. Colaboramos com processamento de testes, diagnósticos, e a adequação das nossas instalações para produção da vacina de covid. Estamos trabalhando com transparência em todos esses dados.

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