‘Não adianta votar só porque é do PV’

‘Não adianta votar só porque é do PV’

Redação

11 de janeiro de 2010 | 11h37

Fernando Gabeira se diz isolado no partido e não quer mais que seu nome sirva de escada para a eleição de políticos fisiológicos

gabeira

link Pedro Venceslau

Fernando Gabeira estava em casa com a família, no Rio, quando soube pela TV da tragédia em Angra dos Reis. Não teve dúvidas: alugou um helicóptero e horas depois desembarcava na cidade. Foi o primeiro político importante a chegar.

Oportunismo? Há quem diga que sim, há quem discorde. Mas o episódio é emblemático. O ex-guerrilheiro que chocou o Rio, nos anos 80, ao aparecer na praia com uma sunga roxa, deixou de ser um político de nicho para ocupar espaço no grande jogo. A prova definitiva dessa virada veio em 2008, quando por muito pouco ele deixou de se eleger prefeito: perdeu de Eduardo Paes por uma margem mínima de votos.

Nesta entrevista ele olha para a frente, no caso de Angra, e avisa: “A BR-101 é uma estrada muito inadequada para ter uma usina nuclear”. E faz uma revisão crítica do Partido Verde, onde “muita gente entra” e depois de se eleger “tem comportamento semelhante ao dos partidos convencionais.” E arremata: “Eu não diria para os eleitores votarem numa pessoa só porque ela é do PV.”

O governador Sergio Cabral foi criticado por só aparecer em Angra no terceiro dia da tragédia. O que acha? Acompanhei a retirada de alguns corpos. Minha posição é de estar presente em todos os desastres. Não se trata de demagogia, esse é o meu trabalho. Ir no dia seguinte me parece mais demagógico ainda.

É perigoso haver uma usina nuclear naquela região? A BR-101 é uma estrada muito inadequada para ter uma usina nuclear, já que lá estão detectados mais de cem pontos de potencial deslizamento durante as grandes chuvas. Chegamos a interditar Angra I por três meses porque uma encosta podia cair sobre um depósito. Se analisarmos friamente, talvez hoje ela não fosse construída como foi. Além de ser uma área muito chuvosa, o solo não foi estudado devidamente e o estudo geológico foi precário.

Existem culpados pela tragédia? A construção de estaleiros e a chegada dos ricaços atraiu muita gente em busca de trabalho, gente que se instalou em áreas precárias. Angra precisa de um plano muito rígido para deter esse processo de crescimento nas encostas. Precisa que impeçam a construção de casas de pessoas mais ricas. Briguei no Senado com o Ney Suassuna porque ele comprou uma ilha lá, dentro de uma estação geológica. Os ricaços compram áreas onde há um pequeno posseiro e tomam conta.

Em Copenhague, Lula passou o comando da comitiva a Dilma. Foi uma boa escolha? Não havia necessidade de colocar uma pessoa como a Dilma nesse processo. Não é sua área e ela não está familiarizada com o problema. Isso a levou a pequenos tropeços, como declarar que “o meio ambiente é uma ameaça ao desenvolvimento”, e a recusa em admitir que o Brasil poderia contribuir com países mais pobres – posição que foi adotada por Marina Silva e José Serra. A Dilma não mudou a qualidade da delegação brasileira.

O PV vai ter candidato próprio ao governo do Rio e não será você. Por que desistiu? Ocorre que a campanha ao governo se dará em condições muito desfavoráveis. Eu teria que lutar contra a máquina do Estado e a federal – e contra muito dinheiro acumulado, além da ausência de qualquer escrúpulo. Isso torna os adversários muito fortes. Não queria levar a população a uma campanha onde quase se vence, mas se perde de novo.

Ficou algum trauma da eleição de 2008, vencida aos 45 do segundo tempo pelo Eduardo Paes? Não é trauma, é que as condições são mais difíceis agora, porque entra o interior e lá a máquina tem peso maior. Não seria interessante fazer campanha para afirmar uma posição. Considerei ser candidato ao governo até o momento em que saiu a candidatura da Marina. Eu não poderia fazer campanha majoritária para ela com todos em torno de mim fazendo para o Serra. Isso levaria certa ambiguidade ao eleitor.

Como ex-petista, seu coração bate mais forte por Dilma ou Serra? Eduardo Jorge, ligado a Serra, está na campanha da Marina… Meu coração não é partidário. Tenho a sensação de que existe um campo que envolve pessoas do PSDB, do PT e de outros partidos. Nas eleições presidenciais, estou com Marina. Mas acompanho o trabalho de Serra. Em relação a Dilma, ele tem experiência política maior. É já se submeteu ao voto popular.

O PV cresceu, dizem alguns, até demais. O que fazer para que não vire mais um partido fisiológico? Essa deveria ser uma preocupação central do PV. Muita gente entra nele e, depois de eleger, age como se fosse de um partido convencional. Fazem acordos com qualquer governo e entram no “toma lá da cá”. Isso me constrange muito. Em alguns lugares do Brasil minha imagem foi usada para pedir votos para o PV e nem sempre o resultado foi satisfatório. Isso vai parar. Não aceito mais esse processo. Eu não diria para os eleitores votarem numa pessoa só porque ela é do PV. Dentro dele há candidatos iguais aos outros.

Na bancada você parece um estranho no ninho… Sempre fui muito isolado na bancada. Nunca me aceitaram como líder.

Defende uma depuração no partido? Esse processo levaria a um desgaste desnecessário. O ideal é olhar para frente e ter critérios mais rigorosos.

Que lição ficou do caso das passagens aéreas? Foi um momento importante do meu mandato. Não posso dizer para a população que não cometo erros. A diferença é que, quando cometo, reconheço, reparo e corrijo. Paguei a passagem, devolvi R$ 86 mil de créditos.

O ex-presidente FHC está na cruzada pela descriminalização da maconha, que foi uma bandeira sua por muito tempo. Ainda é? As bandeiras também evoluem. Hoje não posso mais dizer pura e simplesmente que é preciso descriminalizar. Tenho que dizer como fazer. Isso passa por uma reforma da polícia, que não tem condições nem de reprimir nem de liberar.

Você chegou a comprar sementes de maconha. Foi inclusive no governo FHC (risos). Nunca mais tentou? Eram sementes enviadas da Hungria e destinadas a uso industrial. A ideia era fazer uma experiência em torno da exploração econômica, mas elas foram apreendidas. Houve um processo, mas fui absolvido. As sementes foram mandadas para os EUA para serem examinadas – se tinham alto teor de THC. Nem mandaram resposta nem devolveram.

A maconha até hoje o estigmatiza? Em geral me chamam de “veado” e maconheiro juntos. Soltaram mais de um milhão de panfletos a meu respeito. Mas a população já não leva isso a sério.

Qual foi o efeito do tempo na sua postura política? Está mais pragmático? Assumi um pouco mais a política, embora em todas as campanhas eu diga que é a última. Algumas pessoas da minha família até riem… Eu fazia campanhas para um público determinado. Com o tempo, a gente começa a ocupar um papel mais importante, a disputar eleições majoritárias. Quando passa a tentar representar muita gente, passa a ter visão mais à altura dessa representação.

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