‘Não adianta só dizer que o agro é pop’, diz pecuarista especialista em bem-estar animal que lança documentário

‘Não adianta só dizer que o agro é pop’, diz pecuarista especialista em bem-estar animal que lança documentário

Sonia Racy

25 de outubro de 2021 | 03h00

Carmen Perez. Foto: Marcelo Uemura

Carmen Perez. Foto: Marcelo Uemura

Carmen Perez passou grande parte de sua infância e adolescência visitando a fazenda do avô, no Mato Grosso. Aos 22 anos – para a surpresa da família – se mudou definitivamente para o local. Desde então, fez do convívio com os animais um modo de vida e, hoje, é considerada uma das maiores autoridades brasileiras em bons tratos animais. Exemplo: os bezerros que nascem em seus currais ganham massagens diárias e são separados de suas mães mais tarde que o normalmente praticado em outras criações.

“Os mamíferos absorvem muitas impressões em seus primeiros 30 dias de vida. Fazendo isso, todas as interações melhoram e os vaqueiros criam laços com eles”, explica ela, que também luta pela extinção da marcação a fogo dos animais. Agora, a filha da agente de viagens de luxo Tereza Perez, acaba de lançar o documentário Quando Ouvi a Voz da Terra, sobre as suas experiências – e as de colegas – na pecuária.

“Eu via que o agro tinha problemas de comunicação. Não adianta dizer o agro é pop e não conectar as pessoas com ele. Queria mostrar que existe boa produção e boas práticas no agro, diminuir parte do preconceito”, disse à repórter Marcela Paes semana passada. Leia a entrevista a seguir.

Como se lida com o gado na pecuária brasileira?
A questão das boas práticas já é falada há muito tempo e vem evoluindo. Mas não é algo que a gente consiga mudar do dia pra noite.

De quantos anos pra cá começaram as mudanças?
De uns cinco anos pra cá de uma maneira muito mais intensa porque a informação é mais rápida. Imagine que antigamente as pessoas estavam no campo, os próprios vaqueiros e os produtores, e não sabiam direito como os animais se comportavam.

Os grandes produtores estão abertos a mudar?
Não posso dizer que todos os produtores estejam, mas eu acredito que a maioria sim, pelo menos pra escutar, ainda que não tenham começado a praticar.

As exigências de procedência pressionam os produtores a mudar?
Sem dúvida, porque aí temos uma mudança de comportamento. Essa nova geração é muito mais conectada com a causa animal. A gente já consegue enxergar essas mudanças dentro da agropecuária ante a demanda enorme que existe pelos ovos livres de gaiola, por exemplo. A União Europeia está mais avançada nessa questão. Mas no quesito dos bovinos, no Brasil, já somos avançados naturalmente porque nossos animais vivem livres. Nos Estados Unidos, a maioria é confinada. Lá, em alguns supermercados, existem gradações de 1 a 5 para aferir bem-estar animal e o fato do bicho ter vivido solto é um dos maiores deles.

Implementar essas práticas encarece o produto?
Não é necessário uma grande estrutura para mudar. Conheci esse tipo de manejo dentro de uma estrutura muito modesta. É claro que ter um ótimo curral ajuda, mas o fator humano é o mais importante.

Muita gente critica o agro e o relaciona aos desmatamentos.
O desmatamento ilegal existe. Agora, o que representa o desmatamento ilegal são pessoas que não fazem o correto, como existe em muitas outras atividades. É importante separar isso. Muita gente diz que a agropecuária desmata mas qual pecuária? De quem? Nosso Código Florestal é muito bem elaborado. Quem faz o certo tem que preservar áreas dentro das fazendas. Dá um trabalho enorme e também dá muito orgulho.

Para que serve a massagem nos bezerros?
Faz diferença na coloração da carne, na maciez e no cheiro. Algumas pesquisas mostram que também faz diferença nos nutrientes. Um animal estressado fica com cortisol alto. A gente quer um animal bem nutrido, com bem-estar mental. Os mamíferos absorvem as informações de maneira muito intensa nos primeiros 30 dias de vida. Deixando uma imagem positiva para eles, os manejos melhoram. Também é uma forma de conectar o vaqueiro com o animal. É legal porque o vaqueiro se lembra dessa conexão, reconhece o bezerro que ele massageou. E para os animais é extremamente positivo porque eles são inteligentes e guardam tudo na memória.

O agronegócio ainda é muito associado aos homens. Como é ser mulher numa posição de comando nesse meio?

Hoje a gente vê muitas mulheres no agronegócio, muitas mulheres no campo, muitas meninas agrônomas, veterinárias. Quando eu entrei, eu chegava num congresso, e contava nos dedos as mulheres e raramente enchia uma mão. Hoje eu recebo muitas mensagens de meninas que estão entrando na área. Os caminhos estão se abrindo. Eu nunca passei por alguma situação de machismo mais clara, às vezes eu vou dar uma instrução e o vaqueiro não olha pra mim, olha para o gerente. Mas isso vem melhorando, sabe? Não vejo com muita frequência.

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