‘Não abro mão dos princípios’

‘Não abro mão dos princípios’

Sonia Racy

28 de junho de 2010 | 08h02

Paulook

Engatando trabalhos, Paulo José planeja mais duas peças para 2010. E se dá “mais uns dez anos” de vida

 

Numa tarde fria de sexta-feira, no Alto da Gávea, no Rio, Paulo José, 73 anos, abre a porta de sua casa. E não só. Fala à coluna sem autocensura, alternando milk-shake e cachaça Me Leva. “Não sou político, não dependo da opinião dos outros.” Isso posto, solta o verbo. Diz ter presenciado evidências de pedofilia no colégio de padres onde estudou. Defende o casamento e a maconha. E relembra de antigas dívidas com Columbia Pictures e com Fernanda Montenegro. Nunca pagas. O ator encerrou temporada teatral em São Paulo, finalizou filme com Selton Mello e está no cinema com Quincas Berro D’Água. E ele quer mais trabalho.

Vai aproveitar para descansar um pouco? Já estou trabalhando na próxima peça, Histórias de Amor Líquido. Sobre amores inconsistentes, que escapam. Eu dirijo e a minha filha Ana Kutner atua. Vamos estrear até outubro. Quero montar no mesmo teatro deste espetáculo um monólogo, que será apresentados às segundas. Serei dirigido pela minha outra filha Isabel, mas está em elaboração.

A doença de Parkinson não atrapalha o ritmo? Não. Já são 17 anos, né? Tenho minha rotina de exercícios e sete doses de remédios diárias. O importante é não parar de fazer o que fazia antes. Me ligam muito em casa para pedir conselhos. Uma pianista me procurou dizendo que largou o piano. Esta é a última coisa que ela poderia parar de fazer. Com a doença, eu mesmo voltei a me interessar por piano depois de 60 anos. Quero me exercitar.

Como produtor de cinema e de teatro, o senhor acompanha as reformas na Lei Rouanet? Não vejo mudanças de impacto. Onde se faz a lei se faz a tramoia. Você tem que fazer as coisas legalmente, mas não necessariamente de forma legítima. Eu gostaria de confessar, por exemplo: “Olha, isso foi uma despesa com equipamento, mas eu não tenho nota, viu? E paguei por isso.” Só que não pode. Então você tem que falsificar as notas para legalizá-las. Hoje a lei abre caminho para você ganhar como produtor na captação e não no resultado. Nem precisa exibir o filme.

Viu muitas distorções assim? Algumas. Tem os que botam metade do dinheiro no filme e metade no iate. Sou de uma época que o cinema era sacrifício. A Cacilda (Becker) e a Fernanda (Montenegro) venderam uma Kombi para pagar produção.

Já aconteceu com o senhor? Já, sim, várias vezes. Você investe todo seu dinheiro e a coisa fracassa. Antes levantávamos dinheiro em banco. Você ia empurrando a dívida com a barriga. Mas tinha que pagar, né? Se bem que algumas ficaram para as calendas. Eu mesmo tenho um filme extraordinário, chamado Os Deuses e os Mortos. Foi distribuído até para o interior pela Columbia Pictures. Ela adiantava dinheiro da distribuição, mas o filme não fazia bilheteria. E até hoje devo dinheiro para a Columbia. Se bem que caduca, né? O filme é da década de 70… Ah, me lembro de uma enchente, em 1966. Houve inundação e a água subiu até uns 40 cm acima do palco. A Fernanda Montenegro tinha me emprestado uma rotunda preta. Que molhou e apodreceu. Devo uma rotunda para ela.

O senhor estudou por anos em colégio de padre. Já presenciou algum caso de pedofilia? Claro. Os padres, em sua maioria, são pedófilos. Às vezes é uma coisa sublimada e fica só na masturbação. Mas muitos cedem às tentações de pegar um garoto. O celibato já é uma distorção. Era muito comum o padre passar por entre as carteiras e pegar em você, dando aquela apertadinha, tirando uma provinha, um gostinho.

Mas vocês, quando crianças, se davam conta disso? Na parede do banheiro da escola, era escrito: “Padre Fulano, o garanhão de braguilha.” Na época do internato eu ficava num dormitório com 20 camas. Na porta de entrada tinha um clérigo vigilante que passava a noite com a lanterna. Se percebia algo, ele ia lá e “pá”, ligava a luz. Às vezes pegava o garoto na culminância da masturbação.

Os médicos pegam no seu pé por causa do cigarro? Não, eu não fumo (e traga seu Marlboro). Só uns dois por dia. Mas o fumo tem uma coisa boa: a nicotina abre o cérebro. Há uma relação muito forte entre escrever e fumar.

Quais drogas já usou? No Brasil, nada, porque aqui pode dar cadeia, né? Mas fora, usei maconha. Se bem que maconha não é droga, né? Foi estigmatizada pelos americanos desde a Marcha para o Oeste. Atribuíam a violência dos mexicanos e índios à “marijuana”. E também usei ácido e cocaína.

Não tem medo de ser polêmico? Claro que não. Não sou político. O político é um cara engessado, que não pode falar que fumou maconha. Nem de adultério, homossexualidade… Não dependo da opinião dos outros. Há artistas que têm que ser agradáveis, bonitinhos, que buscam popularidade, o sucesso fácil. Eu acho muito melhor a pessoa alcançar prestígio do que popularidade. Dos meus princípios eu não abro mão.

Está casado pela quarta vez. Casamento é bom? É. Casamento não é uma instituição falida, não. Mas não significa que seja eterno. Como diria Vinícius (de Moraes): “Que seja infinito enquanto ‘duro’.” Com a Dina Sfat foram 14 anos. Com a Carla Camurati, três. Mais sete com a Zezé Polessa. E agora com a Kika (Lopes) são 12 anos.

O que pensa da monogamia? Sempre tive essa tendência. Coisas inevitáveis podem acontecer. Se a tentação é grande demais, então você vai. Mas tem que saber dar um fim àquilo. Com cinema, a gente trabalha muito fora de casa, em locação. Então, por exemplo, vamos para Salvador e ficamos quatro meses. Pode ser que nesse período aconteça alguma coisa. Mas é uma mulher em cada porto, como marinheiro. Ulisses, na Odisseia, queria voltar para casa e encontrar sua mulher. Mas no caminho, encontra Circe e outras mulheres vão pintando. Mas ele quer mesmo é voltar para casa.

Leitor compulsivo, como sentiu a morte de Saramago? É sempre uma perda. Mas ninguém fica para semente. Quero viver só se for com saúde. A decadência do corpo é muito triste. Que seja breve porque a agonia lenta é terrível. Eu tô me dando mais dez anos muito bem. Né, gato? (Finaliza, acariciando o felino em seu colo.)

Por Débora Bergamasco

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