“Na pandemia, voz da ciência é secundária”, afirma Luciana Borio, cientista-médica

“Na pandemia, voz da ciência é secundária”, afirma Luciana Borio, cientista-médica

Sonia Racy

24 de agosto de 2020 | 00h56

LUCIANA BORIO – PABLO MARTINEZ MONSIVAIS/ASSOCIATED PRESS

Nestes tempos incertos, em que milhões de pessoas se tornaram especialistas em pandemia, Luciana Borio é uma voz a ser ouvida. Carioca da zona sul, vivendo desde os 17 anos nos Estados Unidos, a cientista-médica, comprometida com serviço publico, se assusta com o que chama de “desvalorização da ciência”. Luciana fez seu MD na George Washington University. Completou residência na Weill Cornell Medical Center e se especializou em doenças infecciosas na Johns Hopkins University e cursou “critical care medicine” na National Institute of Health. Sua opção foi pelo serviço público americano e hoje é vice-presidente da In-Q-Tel, empresa de investimento estratégico em tecnologia de ponta para defesa e segurança nacional.

De 2017 até março de 2019, ela atuou na Casa Branca, no Conselho de Segurança Nacional. Antes, durante o governo Obama, exerceu o cargo de cientista-chefe e diretora de contraterrorismo da temida FDA – versão americana da Anvisa. Luciana ainda trabalhava para o governo Trump quando alertou, em maio de 2018 – durante palestra para marcar os 100 anos da gripe espanhola – que uma pandemia de… gripe seria a principal ameaça à segurança sanitária nos Estados Unidos. Decidida a ficar morando no exterior, destaca que a pesquisa científica nos EUA é muito bem apoiada pelos governos. No Brasil, nem tanto.

Uma de suas aflições, no momento, é constatar que “todo mundo tem um palpite sobre o coronavírus, mas sem fundamentação científica”. A esse abuso, ela reage com duas certezas claras. Primeira, “a de que o vírus se transmite pela proximidade do ser humano”, destacou em conversa com a coluna, semana passada, direto de Washington. Segunda, é de que o mundo hoje “tem um enfrentamento difícil, mas o fim da epidemia vai ser pela ciência, não pela mágica”. Outras convicções? Não exatamente, as dúvidas são múltiplas. Aqui vão trechos da entrevista por celular.

O Brasil parece ter hoje 240 milhões de infectologistas, numa onda de informação e contrainformação. Como sairemos dessa?
Essa ‘desvalorização da ciência’ é uma coisa muito nova. Todo mundo dá palpite sobre o vírus, sobre máscaras, sobre como evitar a transmissão… Classifico de tragédia, a qualidade da informação nas redes, no Facebook. Tornou-se uma marca registrada da sociedade essa dificuldade de ter discernimento. Mesmo na imprensa, a qualidade do material é muito variável. E há lideranças de governos que não quiseram ou não souberam aderir aos fatos científicos. Acompanhamos aqui (nos Estados Unidos) um ataque muito forte à ciência, bem como no Brasil. Por exemplo, esse episódio da hidroxicloroquina.

Esse caso do remédio pode prejudicar o combate ao vírus?
Com certeza. É natural do ser humano ter uma esperança, achar que um milagre vai acontecer. Na verdade, é muito claro como se controla uma epidemia. O vírus se transmite pela proximidade do ser humano. Simples assim.

É pelas gotículas que saem da boca e do nariz das pessoas, né?
Sim. E sabemos como fazer para manter distância. Claro que há trabalhos que não permitem isso. Um motorista de ônibus não pode trabalhar de casa, com um computador. O médico tem de ficar no hospital. Mas existem maneiras de evitar aglomerações e ambientes fechados, que ajudam a propagar a epidemia. O uso de testes de diagnóstico também é imprescindível para colocar em isolamento quem está com covid-19 positivo e ajudar nas investigações de quem pode ter sido exposto ao vírus.

E quanto às vacinas?
Temos três à frente – a de Oxford, a da China e a americana da Moderna. Agora apareceu a vacina russa, que desperta enorme desconfiança entre cientistas.

Como avalia esse quadro?
Existem várias vacinas em desenvolvimento e algumas em estágios mais avançados. Varias delas são muito promissoras. Mas não há, ainda, como saber se teremos vacinas seguras e efetivas. Sequer conhecemos o suficiente sobre a covid-19. Se o vírus pode mudar, se transformar. Se a resposta imunológica das pessoas será duradoura o suficiente para combater o vírus. Temos ainda muitas perguntas sem respostas.

Estudos clínicos estão sendo conduzidos em ritmo acelerado, ainda que haja tantas perguntas… no ar.
Pois é, no ar. E olhe que vivemos num momento histórico para a ciência, com tecnologias que não existiam dez anos atrás. Aqui nos Estados Unidos, a FDA não vai autorizar a vacina se ela não se provar, em estudos clínicos, que previne de verdade a infecção ou a doença.

O que significa “de verdade”?
Muitas empresas querem que suas vacinas sejam autorizadas só porque estimulam resposta imunológica. Elas dizem: “Ah, estimulou a geração de anticorpos, vamos produzir”. Claro que não é assim. Uma vacina pode gerar anticorpos e eles não darem a necessária proteção contra a infecção. Às vezes, pode até piorar. Os anticorpos gerados podem agravar a manifestação da doença, como aconteceu com a vacina da dengue.

E aí o que acontece?
Por isso, para a FDA é muito importante que a vacina seja segura e efetiva. Não vão autorizar só baseado na resposta imunológica. Não temos como avaliar se essa resposta é suficiente para prevenir a doença.

Quanto tempo vai levar isso tudo?
Cada um desses estudos clínicos envolve mais ou menos 30 mil pessoas. São vários meses, tem de identificar os voluntários. São duas doses, quatro semanas de intervalo entre uma e outra. E ainda lidar com os casos que vão aparecer.

Um “long way” até que tudo isso fique claro, não é?
Olha, eu acho até que é um “short way”, curto. Porque, se não fizer desse jeito, não vamos resolver nunca.

Dá pra se confiar em uma vacina que saiu da China?
Até hoje os estudos publicados da China têm sido um desapontamento. Os estudos iniciais que publicaram deixaram muito a desejar. Ainda lhes falta muito para chegar ao patamar da Europa, Austrália e Estados Unidos. Não é só uma questão de tecnologia, e sim de uma cultura que valoriza acima de tudo a integridade cientifica.

O que acha de se usar plasma para ajudar na cura?
No Brasil, existem experiências positivas. Eu gostaria muito que funcionasse, mas tenho muita dúvida. Deram plasma para infectados sem estudo controlado. E aí a gente teve o caso do Remdesivir, da Gilead, que teve estudos controlados. E tem também o Dexametasona. Os dois têm estudos controlados nos EUA e na Inglaterra. O estudo do Remdesivir incluiu somente mil pessoas, mas tivemos resultados claros pelo fato de terem feito um estudo cientifico.

O FDA não recomenda a cloroquina. Ela nada resolve?
A FDA não proibiu, tirou a autorização para usar para combater a covid-19, autorização essa que nunca devia ter sido dada. A cloroquina é outra coisa maluca. Não aguento ver médicos e cientistas importantes promovendo cloroquina.

Em resumo, o que temos, contra a covid-19, de comprovação científica?
O Remdesivir e o Dexametasona. Um deles a quem está doente e outro quando a doença já está muito avançada.

Dizem que há um estoque de 60 milhões de pílulas de cloroquina nos EUA. Que farão com isso?
Não tem sentido nenhum, é mesmo uma questão política. Quanto ao estoque, nunca tivemos uma situação dessas aqui, na qual a voz da ciência é secundária.

Acha que o caso brasileiro é similar ao americano?
Pelo que aparenta, o presidente brasileiro segue muito o que faz o americano.

O FDA está imunizado contra políticos e políticas de saúde?
Não. Já houve situações em que mostraram não estar imunizados contra a política. Deram autorizações que não deviam ter sido dadas. Acho que o teste maior vai ser com esta vacina.

O Instituto Butantã, em São Paulo, atesta que a partir de janeiro o Brasil vai poder fabricar 60 milhões de doses e promover vacinação em massa. Isso lhe parece viável?
Acho que tem de ter alguma cautela no caso, porque as informações sobre vacinas disponíveis para janeiro ainda são uma possibilidade um tanto limitada.

Há quem diga que a testagem em massa é um teste burro, porque nele você gasta muito para saber pouco…
O estoque disponível para os testes é limitado. De fato, testar em massa todo mundo que quiser é uma bobagem.

Quando o estado do paciente é crítico, pode-se dar um coquetel?
Na verdade, essa é uma doença da qual a maior parte das pessoas se recupera. Essa história do “não tem nada a perder” pra mim é errada, você pode estar tirando da pessoa a chance de sobreviver.

Não tem ninguém 100% imune garantido, né?
Não. A gente ainda está aprendendo o que acontece depois de uma infecção. Alguns se recuperam com pouquíssimos anticorpos, mas as manifestações mudam de um paciente para outro.

Passou pelo Conselho de Segurança, depois o FDA. Por que saiu do governo?
Eu tinha feito tantas coisas já, depois do Conselho de Segurança Nacional. Quando saí da Casa Branca, tive a oportunidade de entrar numa companhia e aprender esse lado do business…

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