“NA NASCAR, O QUE VALE É A CAPACIDADE DO PILOTO”

“NA NASCAR, O QUE VALE É A CAPACIDADE DO PILOTO”

Sonia Racy

24 de setembro de 2012 | 11h33

Nelsinho Piquet fala sobre os novos desafios na carreira e conta como reencontrou o sucesso nas pistas.

Depois de frustrantes dois anos na Fórmula 1, o sobrenome Piquet voltou a fazer história no mundo das corridas. Nelson Angelo Tamsma Piquet Souto Maior se tornou o primeiro brasileiro a vencer uma prova nacional da Nascar, categoria que enfrenta, em pé de igualdade, a Indy nos Estados Unidos.

A vitória na Nationwide Series, em junho, rendeu elogios de seus adversários, numa corrida que teve suas últimas 16 voltas descritas como “uma pilotagem impecável” pelo site oficial da Nascar.

A vida nos EUA tem sido boa para Nelsinho, que, aos 27 anos, parece renascido depois de ver seu sonho na F-1 se despedaçar juntamente com o carro batido numa curva fechada do circuito de Cingapura, em 2008. Na época, ele foi acusado de jogo (sujo) de equipe: batera para forçar a entrada do safety car na pista e ajudar o companheiro de Renault, Fernando Alonso, a vencer a prova. Pouco mais de um ano depois, o filho do tricampeão mundial sairia da categoria pela porta dos fundos.

“Foi difícil, me envolvi com as pessoas erradas e paguei um preço”, relembra. “Mas não me abati, não!” Em 2010, mudou-se para Charlotte, na Carolina do Norte, e começou tudo de novo. E vem colecionando, desde então, sucesso e sucesso. Durante boa parte do ano, sua mãe, a ex-modelo holandesa Sylvia Tamsma, acompanha de perto seus desafios nas pistas – ele até comprou uma casa para ela na cidade. Nelsinho só lamenta que o pai não o visite com mais regularidade: “Ele trabalha como um cão e, ao mesmo tempo, quer curtir a vida… eu entendo”, garante.

Entre um treino e outro no circuito de Pocono, na Pensilvânia, ele encontrou tempo para falar pelo telefone à coluna.

Você é o primeiro brasileiro a ganhar uma prova nacional da Nascar. Essa vitória veio antes do que você imaginava?

Não diria que foi inesperado. Eu encaro todas as corridas pensando em ganhar. Isso é coisa de piloto. Se sei, previamente, que não tenho chance ou que vou chegar em décimo, prefiro nem correr. Mas a verdade é que demorou mais do que o time esperava. Estávamos preparados para vencer no ano passado… Era meu primeiro ano, eu estava aprendendo, cometi alguns errinhos, faltou um pouco de sorte também. Na Nascar a gente tem três níveis de competição. Estou no primeiro deles. E cada passo tem de ser dado na hora certa, né? Óbvio que, toda vez que você atinge uma meta estabelecida, empurra seus objetivos mais para adiante, quer ir mais longe. O próximo passo é correr integralmente na segunda categoria, o que deve acontecer no ano que vem.

Hoje você enxerga sua carreira apenas na Nascar?

É o que eu quero, é só o que eu faço atualmente e onde pretendo colher muitas conquistas daqui para a frente.

Sente saudade da Fórmula 1?

(pensa) Não, propriamente. É muito diferente, é quase outro esporte, eu diria. Muita coisa que eu encontrei aqui na Nascar fez com que as coisas se encaixassem pra mim. A paixão por correr, pilotar, de estar um contra o outro na pista. Acho que não dá para falar de saudade… É como trocar de namorada: a gente se apaixona de novo e a vida segue.

Quando você pretende estar na divisão principal da Nascar?

Depende dos resultados, claro, mas eu imagino ficar dois anos em cada categoria. Pelos meus cálculos, eu estarei com 31 para 32 anos, será em 2015 ou 2016.

Você se considera um bom acertador de carros? Porque seu pai sempre foi conhecido também como grande mecânico.

Acho que tive um bom professor… que não foi o meu pai, mas um engenheiro que me acompanha desde o kart, o Felipe Vargas. Ele me ensinou muito. Uma coisa interessante e que pouca gente sabe no Brasil é que, na Nascar, não se trabalha com computador. Não existe aquela parafernália eletrônica que administra cada detalhe do carro. É tudo entre piloto e engenheiro. Você vai pro treino, testa o carro, volta para o box e conversa sobre o que tem de ser mudado. Fora pneu, calibragem, se algum lado está encostando no solo e coisas assim, o engenheiro não tem ideia do que acontece com o carro. Cabe ao piloto, depois de guiar, traduzir os sintomas da pista. Isso acontece em todas as categorias nos Estados Unidos.

É muito mais pilotagem…

Sim, é quase uma volta ao kart.

Na sua categoria, quem são os principais rivais?

Olha, meu companheiro de equipe é um dos melhores da categoria, o James Buescher. É dele que eu tenho de ganhar.

O relacionamento com ele é saudável?

Ele não mora na Carolina do Norte, é um dos poucos que não vivem aqui, então a gente se vê pouco, só mesmo nos treinos e na corrida. É um relacionamento basicamente profissional.

Fazer amizade nas pistas parece um negócio complicado…

Na Europa é mais difícil, o pessoal é mais esnobe. A cultura europeia, em relação à norte-americana, é bem diferente. Não estou me referindo a Nova York, que é uma metrópole, mas às pequenas cidades. Aqui na Carolina do Norte as pessoas são muito mais acessíveis, educadas, compreensivas. Mal comparando, no Brasil seria como fazer amizade no Nordeste e em São Paulo ou no Rio. Esse jeito de ser do norte-americano permite que você estabeleça laços de amizade com todo mundo: pilotos com mecânicos, mecânicos com engenheiros, vira uma comunidade. Outra coisa que faz diferença é que todo mundo mora no mesmo estado – num raio de 30 quilômetros. Acaba se tornando uma família, dá para fazer festa, você está sempre encontrando todo mundo. Já na Europa cada um vai para o seu buraco e só sai nos fins de semana, e um está sempre querendo derrubar o outro. Então as amizades são superficiais. A pergunta mais ouvida é “como está o seu carro?” ao invés de “como está sua esposa?” ou “como está seu filho, ele melhorou da gripe?”.

Pode-se dizer que o seu sobrenome mais ajudou ou mais atrapalhou na sua carreira?

Acho que sempre foi bom, mas aqui nos EUA não faz muita diferença, porque não conhecem tanto. E tem outra coisa: aqui é todo mundo tão correto, tão pé no chão que… o que importa é quem chega na frente. Pode ser o Zezinho ou o Piquet, o que vale é o resultado na pista. Não existe, como na Europa, esse apelo do sobrenome, que gera patrocínio etc.

E no início da carreira? Havia pressão por ser filho de um tricampeão do mundo de F-1?

(pensa) Eu sempre atingi as metas que esperavam que eu atingisse. Ganhei todos as campeonatos de kart, todos os campeonatos de Fórmula 3. A GP2 eu perdi na última prova, para o (Lewis) Hamilton, por uma besteira. Por onde eu passei, sempre fui o melhor. Até chegar à Fórmula 1, quando corri contra o (Fernando) Alonso, numa situação muito difícil, em que eu não tinha apoio moral nenhum, nem do meu pai nem de ninguém e, por isso, acabei me perdendo um pouco. Quer dizer, a minha trajetória é diferente da daqueles pilotos que são filhos, netos, sobrinhos de grandes nomes do automobilismo. O Bruno (Senna), por exemplo: eu o considero um bom piloto, mas ele começou tarde, nunca venceu um campeonato de kart, nem de Fórmula 3, nem de GP2. Então, é diferente. Eu cheguei à F-1, porque fui contratado para correr – não precisei levar patrocinador. Claro que a pressão existia, mas eu estava preparado.

E como é o relacionamento com o seu pai?

É bom, mas ele tem uma família enorme, trabalha como um cão e, ao mesmo tempo, quer aproveitar a vida. Então, a gente quase não se vê. Infelizmente, ele vem pouco aqui… eu gostaria que viesse mais!

Você tem duas irmãs e quatro meio-irmãos…

Somos sete no total, mas todos irmãos, não tem esse negócio de meio pra mim, não.

E vocês se veem com alguma regularidade?

Alguns moram no Brasil, outros em Miami, existe uma distância complicada. Até porque eu também quase não saio daqui, é trabalho duro. Acaba que, com o passar dos anos, a gente se distanciou um pouquinho. Mas esse é um problema que aflige até os meus amigos…

Está namorando, Nelsinho?

Não… não dá tempo! (risos)

A sua mãe está morando na Carolina do Norte com você?

Minha mãe gostou muito daqui, então comprei uma casa para ela. Agora, passa seis meses na Carolina do Norte e seis meses na Holanda.

Você tem uma lista grande de prêmios como piloto, mas uma indicação chama a atenção: Gato de Ouro dos prêmios Nick.

Olha… não estou sabendo disso, não. (risos)

Já se viu como galã?

Ih, caramba… eu corro de capacete com nome de patrocinador na testa e óculos com nome de patrocinador na cara… acho que não dá para falar em ser galã, não!

Você é conhecido como Piquet Jr., mas não tem o mesmo nome do seu pai. Qual a explicação?

No Brasil, sempre fui Nelsinho. Quando me mudei para a Europa, adicionei o Jr. para que tivesse o mesmo efeito do “inho”. Só que, lá, Piquet Jr. nunca pegou muito. Ou me chamavam de Nelson Piquet ou simplesmente Nelsinho (que, aliás, é como está no site da F-1 até hoje). Daí, fui para os Estados Unidos, correr na Nascar, e o Jr. emplacou. Para os americanos, é Piquet Jr. direto.

Sua saída da F-1 te deixou decepcionado? Ficou algum ressentimento do que aconteceu no GP de Cingapura, em 2008?

Eu saí da Renault mais de um ano depois daquilo. O que aconteceu ali já passou. (pausa longa) Eu me envolvi com as pessoas erradas e cometi um erro. Era novo na categoria, sob pressão, sem apoio… e acabei entrando em um jogo de equipe no qual eu não deveria ter entrado.

Na época, seu pai afirmou que o Flavio Briatore (então chefe da Renault) era um “cara pouco inteligente”. Você concorda com ele?

Briatore é um empresário, não é de corrida. Não entende nada do assunto. É um marqueteiro. Tem hora que faz bem para a equipe, tem hora que faz mal – porque não sabe o que se passa dentro de um carro de corrida. Diferentemente do Frank Williams, do Ron Dennis, do Patrick Head, pessoas que são do ramo.

Como é o teu dia a dia de treino na Nascar?

Horário de piloto é meio difícil. Você tem de ser… como é a palavra? A gente passa mais tempo nos Estados Unidos e acaba esquecendo o português… (risos). Você tem de ser comprometido, dedicado. O tempo todo tem de estar ciente do que está acontecendo com o carro, tem de ficar o tempo todo na oficina, tem de se preparar fisicamente. Ao mesmo tempo, precisa dedicar tempo às redes sociais – Twitter, Instagram etc. Eu tenho um site que preciso sempre atualizar, tenho uma loja online. Sem falar nos compromissos com patrocinadores, trabalhar para que eles estejam felizes. Fora as entrevistas… Por mais que eu tenha gente fazendo muita coisa por mim, é preciso ficar em cima. O olho do dono, né? É uma mistura grande de responsabilidades. Claro que você também pode escolher ficar na cama o dia inteiro e só sair para ir às corridas, mas aí não dá para cobrar nada.

No pain no gain.

Com certeza. É preciso saber que suas chances aumentam se você conhece a pista antes da prova, se você se dá a chance de marcar aquele almoço com um possível patrocinador, se se cuida para evitar ficar doente.

E dá muito dinheiro?

Muito. Mais que na F-1. Não na Truck, onde estou hoje, claro… falo da divisão principal da Nascar, ok? Se você pegar os cinco melhores, todos ganham mais de US$ 20 milhões por ano.

Como é sua vida fora das pistas? O que costuma fazer?

Eu moro com dois amigos: um é piloto; o outro, engenheiro. A gente resolveu dividir uma casa bem grande, que dá muito trabalho para cuidar – cerca de uma hora por dia, porque não temos empregada. Mas é bastante confortável, tem até um cinema. Eu e eles saímos muito juntos para jantar.

Consegue sair sem ser assediado pelos fãs?

Ah, sim. As pessoas aqui respeitam muito. Por enquanto, é bem tranquilo. Mas… quem sabe daqui a uns dois ou três anos isso mude, né?/DANIEL JAPIASSU

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